CUNHA CAIU, MAS TEMER É CUNHA. FORA GOLPISTAS!

Ontem na Câmara os mesmos parlamentares que golpearam a presidenta Dilma, votaram pela cassação do Eduardo Cunha. Foram 450 votos pelo SIM, 10 pelo NÃO e 9 abstenções. Quanto temos para comemorar?

Sabemos que Eduardo Cunha jamais cairia não fossem as nossas lutas e denúncias. Mulheres contra Cunha foi o marco da massificação das lutas no início de 2015 e o estopim para a ocupação das ruas foi a unidade das mulheres que se insurgiram contra o PL 5069, que criminalizava ainda mais o aborto, ameaçando as nossas vidas. Lutamos contra os golpes a todas as mulheres e não em defesa de um governo específico. Lutamos contra uma agenda de retrocessos e não apenas contra uma personalidade que representa essa agenda.

No entanto, no altar dos golpistas sacrificaram a personalidade para salvar o seu projeto: Cunha caiu para continuar operando nos bastidores. Cunha caiu, mas a Câmara continua exatamente a mesma a que assistimos aterrorizados em abril desse ano e que lambia as botas do então presidente da casa. Uma corja de golpistas, extremamente machistas, que agora intensificaram sua agenda conservadora e seus projetos que golpeiam a todas nós.

Sabemos que seremos nós, mulheres, as mais afetadas por medidas que visam restringir os direitos sociais e reprodutivos e que intensificam a desigualdade entre homens e mulheres, especialmente através dos ataques aos direitos trabalhistas. Projetos que nos farão trabalhar mais, em piores condições e mais sujeitas a assédios e abusos de todos os tipos.

Portanto, não há muito o que comemorar, mas há pistas sobre a nossa forma de atuar. O golpe não se encerrou, ele está em curso. O Golpe não é contra um governo específico mas contra todas e todos nós. Por isso, não adianta esperar salvadores da pátria em 2018. A história é feita por pessoas comuns e não por personalidades. Por isso, é preciso construir uma agenda de resistência prolongada, por nenhum direito à menos, pelo impeachment do machismo e pela esperança em uma nova política.

#FORAGOLPISTAS

#PELOIMPEACHMENTDOMACHISMO

DO GOLPE DE 1964 AO GOLPE DE 2016

Por Fernanda Vieira Oliveira*, em colaboração especial ao Brasil em 5

A ditadura brasileira iniciada com o golpe de 1964 durou 21 anos, foi de difícil enfrentamento, pois o desmonte das estruturas que faziam com que o país fosse reconhecido como democracia foi feito aos poucos e em nenhum momento desapareceram por completo.

Além disso, o autoritarismo do regime vinha travestido de atos institucionais, que na prática se configuravam como decretos presidenciais, e que eram atribuição de fato do Presidente da República e que não escancarava de primeiro o quão aviltantes à democracia eram. Outro dado é que o golpe de 64 aconteceu em nome da democracia, portanto seria uma irracionalidade entende-lo como aquele que anunciava-se como um regime autoritário. E por fim das contas, como somos pessoas de boa fé, “havia que dar uma chance ao novo governo”.

O Golpe de 2016 (e sim, é Golpe!) possui características similares. O fato da Constituição prevê o processo de impeachment e ele ter acontecido processualmente nos termos previstos não faz com que não seja golpe, pois o processo tem um vício de nascimento, a ausência do crime de responsabilidade. Não há democracia com leis autoritárias ainda que estas tenham respeitado procedimentos formais de nascimento, seu conteúdo é autoritário.

E, como em 1964, o golpe aconteceu por dentro da institucionalidade, se valendo dela, e seguramente preservará o mínimo de aparência de estruturas democráticas para se reivindicar como regime democrático. Se é verdade que não houve tanques nas ruas até o dia 31 de agosto, as forças coercitivas já tomam as ruas desde então para reprimir a reação popular ao sequestro da democracia.

Não há democracia em um sistema de justiça elitista, machista e racista que, apesar de seus membros terem estudado exaustivamente os princípios de um Estado Democrático, aplicam leis autoritárias, apegando-se convenientemente a sua formal aparência democrática. Bem como não há democracia quando as Casas legislativas vivem para legislar em causa própria e pouco a pouco vão desmontando as estruturas participativas e fiscalizatórias, essenciais a democracia.

Derrubaram a Controladoria Geral da União – CGU (órgão destacado no combate a corrupção), derrubaram a Comissão da Anistia, incluindo nela colaboradores da tortura e ainda se pretende congelar os gastos com saúde e educação por 20 anos por meio da malfadada PEC 241. A pergunta que salta da mente é: Em que democracia do mundo a burguesia brasileira em suas magnificas viagens, que quando muito chegam a Miami, teve notícia do Estado congelar os gastos em saúde e educação por 20 anos para sanar dívida pública?

Esse desmonte parcial ou cirúrgico das estruturas democráticas aplicado no regime ditatorial que se iniciou em 1964 nos deixou uma nefasta herança. Quando retomamos a democracia, não retomamos rompendo com as estruturas autoritárias anteriores, permitimos que elas permanecem intactas, enxertadas e acomodadas dentro de instituições democráticas, esperando apenas a oportunidade de sair da condição de parasitas novamente.

Portanto, construir uma verdadeira democracia significa romper com todas as estruturas institucionais e sociais que reproduzam o autoritarismo. Devemos ter claro que a ruptura deve ser total, e o menor resquício de autoritarismo deve ser repelido e varrido de nossa sociedade, pois só assim teremos de fato uma democracia e só assim seremos de fato os governantes de nosso país, pois ao contrário da elite branca e burguesa que age como se fossem nossos senhores, nossos amos, nossos donos, não seremos donos de nada ou qualquer pessoa, mas governaremos nosso país para nós mesmos e em defesa de todos os outros povos do mundo que tenham o mesmo sonho, o sonho da liberdade.

* Fernanda é advogada popular, militante das Brigadas Populares e está como candidata a vereadora pela PSOL na cidade de Belo Horizonte, nas eleições de 2016.

golpe2016

O Brasil da zueira: 5 dicas para Dilma botar alguma ordem no barraco

Por Sammer Siman

Jacarezinho, avião, cuidado com o disco voador

Tira essa escada daí…eu vou chamar o síndico

Tim maia!

Já dizia o General De Gaulle, conforme a música de Rita Lee e Roberto de Carvalho, “esse país não é sério! Mais vale um homem de gol, que dois de araque no ministério. Mas que mistério!” A prova cabal é o desfecho que se desenha de uma cena patética, um impeachment sem crime de responsabilidade cujo objeto são atos triviais de administração pública, igualmente praticados pelo Senador Antônio Anastasia, mister das pedaladas fiscais nas Minas Gerais e relator do processo de impeachment.

É como se Dilma tivesse sido acusada de ter roubado uma bicicleta, as câmeras do prédio comprovado que não houve roubo (no caso concreto, as perícias do Ministério Público Federal e do próprio Senado), mas o juiz resolve condená-la por tirar má nota na escola e ter deixado o leite derramar da geladeira. Condená-la por um tal “conjunto da obra”, que na prática trata-se de uma política econômica restritiva que os golpistas não divergem e, muito pelo contrário, estão aplicando com muito mais profundidade e radicalidade, pois mais do que ajustes fiscais como os realizados por Dilma estão retirando direitos e garantias dos trabalhadores brasileiros, além da entrega do pré-sal.

O juiz, nesse caso, é um senado composto por notórios corruptos, tem até dono de helicóptero que foi encontrado com 450 kg de pasta base de cocaína e tratado pela polícia federal e pela justiça como se fosse um carregamento de barra de chocolates: Investigação zero, hipocrisia de sobra. No comando do picadeiro, um tal Ricardo Lewandowiski que, enquanto preside o processo de impeachment, faz lobby para aumentar o salário de R$ 33 mil para quase R$ 40 mil por mês dos “pobres” ministros do STF numa votação já marcada no Senado pro dia 8 de setembro, o que vai gerar um efeito em cascata nos salários da assim chamada “elite” do funcionalismo público. Sabe aquele papo de responsabilidade fiscal?? Definitivamente, a zoeira não tem limites.

No plenário, toda trama tem sido desvendada no detalhe. Constatou o Senador Randolfe Rodrigues que o ex-auditor do TCU, Antônio Carlos D´ávila, ajudou na elaboração do parecer das tais “pedaladas fiscais”, a mesma que lhe coube julgar depois. De outra parte, a Rede Globo segue noticiando a cena como se o país estivesse prestes a entrar no caminho da moralidade. Logo ela, filhote da ditadura militar, campeã da sonegação fiscal e da arte de manipular os destinos do povo brasileiro.

O drama é que, como já disse Mr. Catra, o bagulho fica sério. Quem viveu ou conheceu minimamente o golpe de 64 chega à conclusão que a tomada de poder daquele momento pareceu uma quartelada do exército de brancaleone, mas a “trapalhada” fruto de interesses diversos e inconfessáveis resultou num regime sangrento de 21 anos, em que pessoas como Dilma e tantos brasileiros – notórios ou não – foram mortas e torturadas.

Aliás, nessa trama toda, Dilma está se consagrando como uma mulher de caráter forte e moral inabalável, alguém que entrará para o panteão da história por defender valores democráticos arduamente construídos nas últimas 8 décadas, entre “idas e vindas”. E que, oxalá, não precisará sair da vida entrar pra história, terá assento in vitae.

Aqui faço a ousadia de dar a Dilma 5 dicas para botar alguma ordem no barraco caso seu imponderável retorno se verifique, para que vivamos uma espécie de transição entre a zoeira e a seriedade sem ter que para isso entrar numa provável guerra civil, caso o golpista Temer se confirme no poder.

  • Compre uma passagem para Henrique Meirelles para as ilhas Cayman, sem previsão de retorno. É lá que devem estar os banqueiros sociopatas que propõem descalábrios como a PEC 241, que promete congelar os serviços públicos por 20 anos, ou seja, dizimar com o SUS, a educação, etc. No comando da economia, coloque alguém do calibre do Senador Roberto Requião, quem já apresentou um programa exemplar para governar o Brasil em 2018 e poderá tomar medidas como a redução imediata dos juros, a exemplo do que tu fez no começo do seu governo em 2012 quando a taxa real de juros chegou próximo de 1% ao ano.
  • Mande o Pedro Parente para a casa de seus…parentes. Com o perdão do péssimo trocadilho, esse é outro campeão de entreguismo, que assumiu como bandeira a entrega da Petrobrás e do Pré-Sal pros gringos, como deseja seu chefe José Serra . Por sua parte, Serra conseguiu a proeza de conviver com uma greve inédita dos servidores do Itamaraty na última semana e recebeu, na última quinta-feira (25), os abutres da Shell que estão de olho no pré-sal . No lugar de Pedro Parente, coloque alguém que ame o Brasil e que coloque a Petrobrás a serviço de um projeto soberano.
  • Faça uma vaquinha e compre, enfim, um tríplex para o Lula no Guarujá. A propósito, o Sérgio Moro não conseguiu confirmar sua propriedade, mas o Lula precisa de um lugar mais distante de Brasília, do contrário é bem capaz de sugerir um “grande acordo” que envolva Calheiros, Calhordas e outros sujeitos que devem ser dizimados da vida pública nacional. Lula só sabe fazer política nos termos da conciliação de classes, mas o amor acabou, a Casa Grande brasileira não quer mais conciliar.
  • Pegue a caneta desmanipuladora e revogue todas as medidas do MimimiShell Temer que ferem de morte os direitos do povo, a exemplo daquela que aniquilou com o Ministério da Previdência e o Ministério da Ciência e da Tecnologia. E mantenha as raras e não menos importantes medidas positivas, a exemplo da negação da licença para construção da Usina Hidrelétrica de Tapajós realizada no governo do interino.
  • Dê de ombros e deseje a todas inimigas vida longa. Chame para governar contigo as mulheres desse país, os negros e todos os alvos preferenciais da Casa Grande patriarcal. Só as ruas podem sustentar um projeto de autonomia que condicione o congresso em favor de um projeto de maioria. E reconheça também o protagonismo dos movimentos sociais e de todas as organizações que atuaram de maneira decidida contra os golpistas, essas são as forças vivas mais consequentes desse país.

Enfim, dê ao Estado brasileiro o mínimo de seriedade que ele precisa. E se nada disso estiver ao seu alcance ou mesmo interesse, já teremos sido gratos de retomar com a constitucionalidade sequestrada por uma patota entreguista e anti-nacional, inimigos do povo brasileiro. A propósito, a luta não acaba agora, ela só está começando, seguiremos em busca da vocação de liberdade e da construção de uma Mátria Livre e soberana.

Obs: Fica o chamado para todos/as aqueles/as preocupados/as com o destino do Brasil a tomar amanhã (dia 29 de agosto) as ruas de Brasília, de São Paulo, Rio de Janeiro e outras tantas capitais do Brasil. Em São Paulo, o ato puxado pela Frente Povo Sem Medo e pela Frente Brasil Popular terá início as 17h, na praça do Ciclista, Avenida Paulista. No Rio, a concentração será na Candelária, também as 17h.

Obs 2: Denunciamos, neste exato momento (28 de agosto, 18 horas), o impedimento da realização do evento FUNK Sem Medo na Favela da Rocinha, que está bloqueado pela Polícia por determinação do governo do Estado do Rio de Janeiro (PMDB).

dilma ratos

Imagem retirada do facebook do Senador Lindbergh Farias

As respostas que o PSOL precisa dar nas eleições municipais de 2016.

O PSOL se diz um partido programático. É, inclusive, reconhecido como tal por seus adversários, por seus correligionários e até (recentemente) por ministros do Supremo Tribunal Federal. Mas que programa é esse? Quais são as concordâncias mínimas que existem entre nós que nos distingue de outros partidos? Qual será a diferença de uma prefeitura do PSOL e uma prefeitura de um outro partido qualquer? Qual é nossa identidade, qual é nossa diferença? Quais são, afinal, nossos critérios compartilhados para uma ação conjunta?

Essas perguntas são importantes porque talvez tenha chegado a hora do PSOL. A hora de mostrar que uma alternativa real de poder existe. Que ela tem lugar, nome e endereço. E que ela é só o começo de uma nova estrutura social que tomará conta de todo o país, o continente, o mundo. Este, certamente, é o sonho longínquo de muitos de nós, militantes de esquerda, que – por muito tempo, tivemos que chorar nossas mágoas pelas reiteradas traições do projeto social-democrata petista. Muitos de nós nutrimos, é verdade, uma esperança sincera em tudo que estava por trás daquela grandiosa estrela vermelha. Ela se foi e está prestes a dar seu último suspiro. Mas é dela que nascem várias outras menores, porém aguerridas, estrelas. Uma dessas estrelas é o PSOL. Somos filhos desta esperança longínqua e, como tal, foi importante para nós um longo período de luto. Alguns de nós ainda estamos nesta luta (de fazer o luto), o que não é tarefa fácil, como já nos explicou Freud, mas é um ato necessário para evitar a melancolia.

Passado o luto, porém, e tendo destruído, simbolicamente, o objeto que foi o PT, o PSOL, aos poucos, tem se firmado como alternativa. Como um projeto que tem voo próprio. Que tem capacidades que o petismo talvez nunca tenha tido. Ou não faria sentido termos saído daquele projeto, certo? Certo.

É por isso, então, que precisamos nos fazer algumas perguntas e olharmos no espelho com franqueza, para que não repitamos, consciente ou inconscientemente, a história como tragédia, farsa ou barbárie.

Estas serão as eleições de maior importância para a vida e para a continuidade do PSOL, no meu entender. Muita coisa aconteceu e ainda está por acontecer neste ano, que completa 36 meses desde as manifestações populares mais volumosas e abrangentes do período da redemocratização. Foram vários os esquemas de corrupção abertos ao público geral. Foram vários os acordos politiqueiros que vieram à tona de maneira cristalina. Sem entrar no mérito dos métodos em que tais exposições nos apareceram, elas são um fato social incontornável. E fatos sobre os quais estão apoiadas as candidaturas do PSOL.

Nosso programa político nacional – aquele que já produziu dois vídeos dizendo que o PSOL “não é um partido qualquer” – nos dá pistas sobre a primeira pergunta que precisa ser respondida agora em 2016. Afinal, o PSOL é um partido “diferente” ? Se sim, por quais razões? O PSOL quer dar respostas efetivas aos problemas sociais? Quer tentar agir para sanar injustiças? Se sim, como? Ou não é isso e o PSOL é um partido que não tem respostas, mas pressupõe aquilo que Gramsci chamou de “princípio do erro”, onde os acertos e erros interessam pouco, já que estaríamos no “lado certo da história”? Nossa plataforma é “segurar a barra até que a revolução chegue”? Nós acreditamos numa mudança radical da sociedade – comumente chamada de revolução? Acreditamos que ela simplesmente virá ou que é preciso fazer algo para que ela aconteça?

Uma coisa que essas eleições demonstrará, sem dúvida alguma, é a pluralidade imensa do PSOL, pois, em cada prefeitura, em cada localidade, o PSOL terá respostas diferentes para perguntas que, ao meu ver, são fundamentais para uma coletividade unida. Afinal, acreditamos no socialismo? Se sim, em qual tipo de socialismo? Como ele deve ser construído e – mais importantemente – como que a eleição para a estrutura política do município nos ajudará a atingir nosso objetivo? Quais são os métodos, quais são os princípios e quais são os arranjos que tentaremos construir para atingir nossa finalidade? Como será o julgamento de nossos objetivos pela população? Como vamos poder dizer – internamente – que chegamos mais ou menos próximo de nossos objetivos?

Continuando na pragmaticidade que uma prefeitura exige, como serão distribuídos os cargos comissionados e de confiança? Qual será o critério? Como evitar a burocratização de quadros que comecem a viver materialmente da relação com a prefeitura? Quais seriam as alternativas? Ao governar, qual será a tática de funcionamento e de relação com o partido? Quais instancias vão se sobrepor às outras? Como vamos evitar os erros pragmáticos do PT?

Longe de querer adotar critérios ou índices quantitativos baratos, que mais reforçam o sistema do que elevam a discussão, essas perguntas precisam estar próximas da cabeça de quem se julga capaz de elaborar um projeto coletivo de alta complexidade, de imenso alcance e de ampla efetividade. Porque é impossível falar em “democratização radical” se não formos capazes de colocar à vista (aos olhos nus) tudo que desejamos alcançar. E, mais, expor como desejamos atingir tais objetivos. Mostrando isso ao público em geral, estes (assim como nós mesmos) poderão questionar com mais precisão. E dificultará respostas que mais “desconversam” do que “avaliam”, de fato, os feitos.

Responder tais perguntas, e – mais ainda – responder de tal maneira, nos obrigaria a responder outras que são tão fundamentais quanto as outras (ou mais) e que temos, vez ou outra, nos esquivado de responder na vida partidária. Do tipo: acreditamos em algum “sujeito” revolucionário? Este sujeito é o “partido” ? Este partido é o PSOL? Se não, qual é a função do PSOL? Qual é a função dos partidos em geral?

Essas são perguntas que, ao meu ver, estiveram presentes nas manifestações de junho de 2013. Eram perguntas – e não respostas. E me parece importante constatar isso. Porque, muitas vezes, a classe política (da esquerda à direita) age como se estivesse lidando com uma criança que sabe o que quer, mas não sabe verbalizar muito bem seu desejo. Como se ela – a classe política – fosse a mais legítima intérprete dessas vontades, dessas vozes, desses desejos. O PSOL se entende assim? O PSOL se entende apenas “mais capaz” de interpretar essas necessidades? É isso que nos diferencia? Nós somos sujeitos mais capazes? Mais eticamente compromissados? Mais moralmente adeptos de uma sociedade “justa” ? Somos os bonzinhos da história? É isso?

Porque muito do discurso em torno de nosso atual projeto está ancorado numa plataforma de direitos já descritos pela Constituição. Eles já estão lá, pelo menos em palavras –ainda que vazias. Nossa plataforma é, portanto, fazer valer esses direitos? É um projeto “em respeito aos direitos individuais e sociais de nossa carta política” ? É esse nossos projeto? Nosso projeto é fazer a reforma agrária, a reforma da previdência, a reforma trabalhista, a reforma urbana e todas as outras reformas de base? Se for isso – e apenas isso – precisamos afirmar tais plataformas com mais ênfase. Dizendo que elas, por si só, resolverão o problema. Apesar dos variados exemplos pelo mundo que demonstram o contrário.

Precisamos alinhar essas coisas sobretudo porque o amontoado de discursos que se encaixam num guarda-chuva genérico chamado “socialismo” já não engana muito as pessoas. E essas contradições virão à tona – sem muita solução, creio eu – quando começarmos a ter mais êxito eleitoral. Porque, vejam, o voto no PSOL raramente será em prol da repetição do mesmo. Será um voto esperançoso de que algo diferente e melhor pode vir. E qual será a diferença? Será a administração ética e moral das finanças públicas do capitalismo? Ou esse é só um primeiro passo?

É claro que cada um de nós vai ter uma resposta diferente para cada uma dessas perguntas e isso não necessariamente é ruim. Mas tem potencial para se tornar péssimo caso estes debates não estejam no centro da disputa eleitoral. Pelo menos para nós, socialistas. Não é só o voto que queremos. Isso é o que querem os partidos da ordem. Talvez, para um projeto socialista, a disputa eleitoral sirva sobretudo para tentar pensar e responder essas questões. Elaborar dúvidas, causar estranhamento em relação ao sistema posto. Talvez, uma eleição sirva mais para apresentar a ignorância coletiva sobre os rumos do que apresentar soluções mentirosas e que naturalizam o capitalismo.

Porque não se pode supor, como já aconteceu em alguns momentos, que nosso horizonte socialista, em geral, prevalecerá. Não podemos acreditar nisso. Nem pela crença num desfecho já desenhado para o movimento das engrenagens da vida; nem pela suposição de superioridade moral ou racional de nossa proposta. Como se, ao atingir determinado grau de consciência, todos, ou quase todos, irão concordar conosco. As consciências políticas não são una, são múltiplas. Supor que agindo “assim e assado” as pessoas terão uma única visão sobre a história e, mais, que essa visão será semelhante à nossa, é um tremendo equívoco.

Política não é isso. Política é disputa. E são vários os projetos em voga, várias organizações que tentam impor seus caminhos em detrimento de outros. Como estamos construindo as bases para nosso êxito?

Durkheim certa vez apontou que o socialismo era a expressão de um mal-estar vivido pela população. Um “grito de angústia coletivo”. Como se fosse um horizonte que se busca justamente pela sensação de estar imerso num sistema incapaz de providenciar justiça social. Num mundo complexo e hiper diferenciado, a solução para este sintoma (que é nítido) nao pode ser encontrada em um instante e pelo simples fato de que sua necessidade se faz sentir. É preciso organizar, delimitar e expor metodicamente os objetivos que se busca alcançar.

Queremos mais igualdade? Queremos a redução das desigualdades? A teoria liberal também diz querer diminuir as injustas disparidades sociais, mas ela jura que a lei da oferta e da demanda é a mais eficaz para solucionar tais problemas. Nossa diferença é não crer na lei da oferta e da demanda como diminuidora de desigualdade, então? E, se este for o caso, acreditamos que a estipulação de outras leis – no âmbito legislativo da política – será capaz de introduzir mais igualdade? É isso?

Não é isso, parece-me. Porque o mundo exige soluções muito mais elaboradas, que envolvem vários fatores conjugados. Mas quais são eles? Quais são os planos? Quais são os diagnósticos que alimentam esses planos? E quais são as atividades nas quais estamos empenhados para desenvolver e criar estes planos? O sistema capitalista será alterado pela mudança de quem ocupa as cadeiras de mando em sua estrutura? Se não for ciclano, mas for beltrano, aí sim, estaremos caminhando para o fim da produção de mais valia? Se sim, por que? O que faz deste “sujeito” alguém mais capaz e mais potente?

É claro que não precisamos responder tudo de antemão. Tem muita coisa que se responde enquanto se anda, enquanto se desenvolve. Mas é um erro incorrigível deixar de ter essas questões e essas pendengas em mente. É um equívoco do qual já fomos reféns. Precisamos perder mais sono do que já perdemos pensando nessas coisas. Porque a ditadura do cotidiano é o que nos leva (todos nós, não só alguns perdidos, canalhas, pragmáticos) a repetir erros e reproduzir o que criticamos.

É claro que muitos sectários dirão que talvez o PSOL seja só mais um partido da ordem liberal burguesa, que almeja operar com mais ética e mais moralidade, dando maior visibilidade a algumas injustiças sociais. Que talvez o PSOL queira apenas exercer o poder a luz do traído projeto democrático popular (petista). Dirão que, na melhor das possibilidades, este será nosso horizonte. Mas me parece que não. Parece-me que podemos mais e queremos mais.

É por conta dessa pressuposição que acredito ser importante elencar e buscar responder essas e outras perguntas. Caso contrário, estaremos mentindo para nós mesmos, e o projeto socialista nao pode se contentar com isso.

Temos, portanto, de parar de ver o socialismo (ou qualquer transformação séria) como mera utopia. As utopias normalmente são alimentadas por pessoas que julgam importante apenas um devaneio. Um devaneio que as tire da realidade para que o escapismo momentâneo resolva – no âmbito da consciência – alguns dos males que ela própria reproduz no cotidiano. Na utopia, a pessoa prova para si mesma que é capaz – em pensamento – de ser solidária e altruísta. E entende como suficiente expressar essa capacidade ou esse desejo longínquo de que sua quimera se torne realidade.

O socialismo precisa ser uma busca prática. Uma ciência. Um agir com métodos analisáveis, criticáveis e capazes de serem reelaborados. Porque somos um partido e não um grupo literário. Somos um partido e não um aglomerado de beatos indo à igreja. É necessário fazer essa distinção. Sob pena de sermos as primeiras vítimas desse engano escapista. Um engano que gera frustração, magoas e uma imensa quantidade de imobilismo.

Talvez as respostas mais sinceras que poderemos dar ao fim e ao cabo serão mais perguntas. E isso não parece um problema. A importância está no processo reflexivo que busca. Que vai atrás. Que, de fato, se preocupa em agir, não só reagir. Como apontou Maquiavel,“é preciso estar preparado para conservar o que a fortuna lhes depositou no regaço”.

 

 

 

 

 

 

Depois da Rio 2016: haverá legado esportivo no Brasil do Golpe?

Por Roberto Santana Santos

Terminada a grande festa do esporte mundial no Rio de Janeiro, devemos realizar um olhar atento sobre o esporte brasileiro. Foi a melhor participação do país em Olimpíadas da história (7 ouros, 19 medalhas no total). O Brasil ficou entre os 15 melhores no quadro de medalhas (13° lugar). Medalhamos em esportes que nunca tivemos nenhuma tradição, como canoagem, tiro e taekwondo.

O esporte olímpico brasileiro nunca recebeu tantos incentivos e recursos como no último ciclo olímpico. Justiça seja feita, os governos de Lula e Dilma criaram uma série de programas (Segundo Tempo, Bolsa Atleta entre outros), que permitiram garimpar novos talentos e fazer com que os/as atletas de alto rendimento se dedicassem integralmente aos treinamentos e competições, além do investimento em instalações, intercâmbios e equipamentos. Um dos heróis olímpicos do Brasil, Isaquias Queiroz (3 medalhas na canoagem) começou a treinar justamente em um dos programas do Governo Federal.[1] Notório foi também a participação dos atletas junto às Forças Armadas, responsável por mais da metade das medalhas.[2]

O resultado histórico do Brasil mostra o quanto estamos aquém das nossas possibilidades. Se um investimento de quatro a seis anos nos permite ficar entre os quinze melhores e conseguir medalhas em 12 esportes diferentes, um país com recursos e população como Brasil tem tudo, a longo prazo, para figurar sempre entre os dez melhores dos Jogos.

Aí está o problema. O desafio é manter o nível. Mais do que isso. É alocar o esporte no seu espaço de direito, o de transformador social e gerador de um sentimento de coletividade para superar desafios. Isso perpassa pela valorização da educação física e seus profissionais em escolas e universidades, um trabalho de base de todas as federações esportivas (várias delas dominadas por verdadeiras máfias há décadas), e um programa olímpico sério do Governo Federal, desde o trabalho de base até o apoio ao esporte de alto rendimento. Nenhum país potência olímpica chegou a esse status sem uma política pública séria e constante.

O apagar das luzes da Rio 2016 nos preocupa, ao pipocar na imprensa os retrocessos do governo golpista de PMDB-PSDB que já prometem andar para trás também na área esportiva. O Ministério do Esporte, sem discussão e comunicação prévia, suspendeu vários editais para depois das Olímpiadas, deixando atletas sem futuro e confederações com planejamentos prejudicados.[3] O futebol feminino, uma das modalidades que mais sofrem com falta de investimento e preconceito, está com sua seleção principal permanente ameaçada, pois um dos dirigentes disse que a modalidade “não decolou”, mesmo tendo emocionado o país e lotado os estádios (mais do que o maltratado Brasileirão).[4]

O sucesso do Brasil na Rio 2016 pode ser o início de uma potência nos Jogos, ou uma enorme decepção, se o investimento feito até agora for paralisado. Os retrocessos na política e na sociedade brasileira ameaçam também o nosso esporte. Importante também o destino das instalações esportivas construídas para os Jogos, que podem ser importantes centros de treinamento para nossas atletas, ou virarem elefantes brancos.

Por fim, vale notar que poucos dos nossos medalhistas se encaixam no perfil homem-branco-heterossexual. Vimos as medalhas serem entregues a atletas negros, pardos, mulheres, homossexuais, nordestinos, com grandes histórias de superação e luta contra oponentes cruéis, como o racismo, preconceito e as adversidades do subdesenvolvimento brasileiro (Rafaela Silva e Maicon Andrade, por exemplo). Não há aqui nenhuma surpresa. Os/as medalhistas apenas refletem a diversidade do povo brasileiro, invisível apenas para uma fração arrogante e racista de nossa população, minoritária em números, mais grande em poderes e privilégios. [5]

Roberto Santana Santos é historiador, doutorando em Políticas Públicas pela UERJ. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

[1] http://www.revistaforum.com.br/2016/08/21/atletas-da-canoagem-atribuem-medalha-a-projeto-de-lula-ao-vivo-na-globo/

[2] http://espn.uol.com.br/noticia/624634_r-18-milhoes-e-684-das-medalhas-forca-militar-impulsiona-podios-no-rio-2016

[3] http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2016/06/07/esporte-suspende-verba-para-pos-olimpiada-e-revolta-confederacoes.htm

[4] http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/bastidores-fc/post/cupula-da-cbf-discute-extincao-de-selecao-permanente-de-futebol-feminino.html

[5] http://espn.uol.com.br/post/624325_olimpicas-9-com-muito-orgulho-com-muito-amor

Paulinho da Viola e a emoção do hino nacional

Por João Telésforo

Como não se emocionar com a voz de Paulinho da Viola entoando o hino nacional brasileiro?
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Não é de hoje que a esquerda tem problemas com o nacionalismo, e por razões bastante justificadas: o sentimento nacional tem sido manipulado, ao longo de séculos, para legitimar guerras, invasões imperialistas, colonialismo interno e racismo, repressão ao pluralismo político e à expressão democrática dos conflitos sociais. Agora mesmo, vemos novamente um governo proclamar-se como de “salvação nacional” enquanto planeja a destruição de direitos trabalhistas, a aceleração da entrega do petróleo e das terras brasileiras para os gringos.
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Não só a “esquerda” (ao menos em sentido mais estrito); vários grupos historicamente oprimidos em nome do “interesse nacional” têm ainda mais razões para desconfiar do discurso patriótico ou patrioteiro de um projeto de integração nacional homogeneizador, que busca destruir ou domesticar as resistências coletivas de povos indígenas, negros/as, trabalhadores/as sem-terra, dissolvendo-as na impotente identidade individual do “cidadão”, súdito mais sofisticado do Estado e do mercado.
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Diante disso, um setor dogmático da velha esquerda afirma que o nacionalismo é ideologia, logo reduz-se a “falsa consciência”, “alienação” fabricada para justificar as relações sociais de exploração e opressão; portanto, deveríamos simplesmente esconjurá-lo, como arma do inimigo, e proclamar o “internacionalismo proletário”. Nesse caso, o que fazer com a emoção que sentimos ao ouvir Paulinho da Viola cantar o hino nacional, na abertura das Olimpíadas?  Tentar superá-la? Fingir que não existe? Desprezá-la, como se fosse mero assunto de foro íntimo?
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O problema maior da redução da ideologia à “falsa consciência”, condição “alienada” a ser superada, não está em sua extrema pobreza intelectual e explicativa; mais preocupante é sua inépcia política, evidenciada pelo isolamento dos grupos portadores dessa concepção sobre as ideologias, de forma geral, e o nacionalismo, em especial.
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As emoções que sentimos em comum, entre milhões e milhões de pessoas, vinculadas ao pertencimento a uma formação socioespacial – este Brasil que nós amamos -, são portadoras de uma potência política extraordinária. Por mais piegas que seja a afirmação, é preciso reconhecer o fato e retirar dele todas as consequências necessárias, para que a alma brasileira, com “muito orgulho e muito amor”, não continue a ser roubada por aqueles que atentam contra os interesses e direitos das amplas maiorias sociais do país, em toda a sua diversidade.
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É necessário construir outro projeto para o Brasil, um projeto de dignidade e soberania – não a velha “soberania” como meio para a afirmação do Estado contra comunidades e povos, mas sim de edificar a autonomia necessária para que tracemos nossa própria história, abandonando o caminho da subserviência, do entreguismo, do colonialismo.
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Outro projeto, no entanto, não basta, nem tampouco será gestado por obra de meia dúzia de especialistas ou dirigentes de alguma “vanguarda”. Seu amálgama depende do envolvimento de multidões aglomeradas por interesses, mas também por sentimentos, práticas culturais e vínculos afetivos; por um imaginário que deve avançar não a partir de alguma formulação abstrata de “consciência verdadeira” à qual a realidade deva encaixar-se (segundo um velho método idealista rechaçado por Marx), mas da observação de como se movem as tendências contraditórias da sociedade, também no plano ideológico, para que possamos intervir nela de forma (auto)crítica.
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Se a negação abstrata do sentimento nacional e de um projeto de país são contraproducentes, também o é a tentativa de apropriação acrítica das armas ideológicas do inimigo. Nossa defesa do Brasil e de suas gentes deve antagonizar com o discurso pseudo-nacionalista das classes herdeiras da Casa Grande, mas não apenas no conteúdo: deve encontrar também, no leito histórico de nossa produção comunitária, política e cultural subalternizada, sua própria forma, estilo, estética – seu próprio tom, como o de Paulinho da Viola. Não para reproduzir, uma vez mais, a história de apropriação e reciclagem das estruturas opressoras, mas como fermento dos processos de luta por emancipação que estão em marcha no andar de baixo, forjando um país para si no cotidiano de resistência e invenção coletiva.
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Mátria Livre, venceremos!
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PS: não pretendi fazer, aqui, uma análise geral das Olimpíadas nem de sua abertura. Recomendo assistir a este vídeo do Brasil de Fato. Assinalo, por fim, que este texto foi inspirado por esta afirmação  de Luiz Simas: “Desde Osório Duque Estrada o Brasil procura uma maneira de cantar o hino nacional. Paulinho da Viola achou ontem. É isso”. Obviamente, isso não o torna responsável pelas ideias e opiniões que emiti aqui.

O CONGRESSO DO GOLPE

Por Sammer Siman

O que parece ser o início do fim da novela Cunha a partir de sua renúncia da presidência da câmara ajudou a revelar um dado importante: Cunha não é a encarnação do mal do Brasil, pois o que não falta é parlamentar mau caráter e submisso para fazer o serviço sujo e cumprir a agenda do golpe conformada pela questão do Petróleo, da Renda e dos Privilégios, como bem sintetizou Pedro Otoni em artigo recente.

Outro dado, revelado pelas manifestações de ontem (31 de julho) reflete uma queda de prestígio da direita capitaneada pelos movimentos Vem pra Rua, Revoltados Online e outros aglomerados liberais que outrora conseguiram, junto com a mídia golpista, mobilizar setores sociais que legitimamente almejam o fim da corrupção, como deve ser.

Restou agora uns PATOS pingados que não hesitaram em botar a cara para defender o usurpador, golpista e informante da CIA Michel Temer, agora mais conhecido como MiShell Temer, dado sua subserviência às petroleiras internacionais comprovada na última quinta-feira por meio da sorrateira entrega de blocos de exploração do pré sal para a gringa norueguesa Statoil por uma ninharia de 2,5 bilhões de reais, um valor que corresponde a pouco mais de um dia do que o governo paga de juros da dívida pública para a Casa Grande e para a Casa Branca.

Já a mídia golpista parece ter descoberto as portas do paraíso e tele transportou todo o povo brasileiro para o mundo de Alice e suas maravilhas. O desemprego, que segue ampliando dramaticamente (11,4 milhões – conforme aponta esse artigo recente de Clemente Ganz Lúcio do DIEESE) e a crise econômica que outrora inundou os noticiários soa agora como um detalhe irrelevante, personagens eternos da TV como Willian Bonner e Willian Waack transformaram-se numa espécie de yorkshire frente ao governo Temer, abdicando da condição de pitbull do passado. A corrupção já parece não ser um problema nacional e os áudios vazados de golpistas confessos não causam nenhum tipo de comoção.

E agora, com as olimpíadas a vista, tudo indica que entraremos numa espécie de êxtase, em mais um megaevento que escancara a corrupção de prioridades de governos que sacrificam seu povo (a exemplo dos reiterados atrasos e cortes que vem sofrendo o funcionalismo público do Rio de Janeiro), nisso que promete ser um festival de nados e saltos enquanto que para a grande massa do povo brasileiro restará a vara, cravada em nossos bolsos.

A Casa Grande brasileira definirá, em breve, o ritmo da violenta luta de classes que promete se desenrolar no próximo período. Ao que tudo indica cerrou fileiras de maneira definitiva para garantir a aprovação do impeachment no Senado e apostará suas fichas no inóspito Temer, o vassalo sem voto e ficha suja que tem a cultura como inimiga e os banqueiros como aliados.

Quanto a nós, uma convicção é certa: O Temer VAZA!! Do contrário é meter fogo no engenho ou ver a revogação da lei áurea acontecer por meio do fim da CLT e do direito de aposentar. O retorno da Dilma trata-se da saída constitucional neste momento e, com plebiscito ou sem plebiscito, resta a nós construir de maneira decidida uma agenda popular que aponte saída para a crise independente de governo.

A propósito, daqui por diante a “condição para governar” de qualquer presidente deverá vir das ruas, pois o congresso do golpe só pode estabilizar os interesses da Casa Grande, não podemos esperar nada de um congresso conformado por uma maioria de playboys que tramam diuturnamente contra os interesses do povo brasileiro, a exemplo do PL 257 que está neste momento na pauta e promete arrasar com o serviço público no Brasil.

Está mais que provado também a saída não está nas mãos do PT, nem muito menos do PMDB e do PSDB, a saída está na superação deste regime político organizado pelo latifúndio, pelos monopólios, pelo imperialismo, pelo racismo e pelo patriarcado, a saída está na conformação de um amplo movimento de massas que consagre a soberania e o bem viver do povo.

Mobilizemos a esperança, aumentemos nossas apostas! O amor vencerá o ódio e o amanhã será maior.

31 julho

Ato Fora Temer, São Paulo, 31 de julho. Fonte: Frente Povo Sem Medo

Escola sem partido: A mentira, a ignorância e a disputa ideológica.

Por Rodrigo Santaella

O projeto de lei conhecido como “Escola Sem Partido” tem, nos últimos meses, gerado bastante debate na sociedade brasileira. O que preocupa muito à enorme maioria daqueles e daquelas que trabalham com educação no Brasil são as consequências pedagógicas de dita ideia. Para melhor compreendê-las, é preciso seguir pelo menos três passos: conhecer o projeto; perguntar-se aceca das forças sociais que estão por trás dele; e refletir de forma sistemática sobre o que se entende como sendo o papel da educação.

O projeto, propositalmente, apresenta uma roupagem inocente: afirma defender apenas que o professor não se aproveite da fragilidade dos estudantes para impor ou favorecer seus próprios interesses ideológicos, e para isso propõe algumas medidas concretas, em busca de garantir uma suposta “neutralidade política, ideológica e religiosa”. Essa roupagem pode enganar ou seduzir pessoas menos atentas. Realmente, não é recomendável que o professor use a sala de aula como palanque político, reprove estudantes por terem opiniões contrárias às dele ou deixe de apresentar diversas vertentes interpretativas sobre os fatos. Entretanto, como os próprios defensores do projeto afirmam, tudo isso já está legislado no Brasil. Então qual o verdadeiro objetivo do “Escola Sem Partido”? Para compreender o sentido de um texto ou de uma ideia, é preciso analisar as forças sociais que dão materialidade a ela. No caso deste projeto, é fácil perceber que as principais forças que o defendem são setores fundamentalistas religiosos, defensores de um exacerbado “liberalismo econômico” e setores conservadores em geral. Em comum entre eles, o fato de se reivindicarem politicamente de direita.

Ao analisar o que há de comum entre essas forças, fica nítida a primeira característica importante do projeto: ele é profundamente ideológico, no sentido de que ao buscar afirmar a defesa da neutralidade e a pluralidade de ideias, no fundo busca combater as diversas vertentes de esquerda, defensoras de direitos humanos, presentes na educação. Isso, por si, já demonstraria o caráter mentiroso do projeto. Mas o próprio texto fala por si e cai em contradições importantes, daí a importância de conhecê-lo. No Art. 3º, está expressa a seguinte pérola: “O Poder Público não se imiscuirá na orientação sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo (…)”. Ora, aqui aparecem claramente as posições ideológicas dos setores fundamentalistas conservadores. Que busca por neutralidade é essa que considera “natural” o desenvolvimento de uma certa personalidade relacionada a uma certa “identidade biológica de sexo”? Qual é o grande manual do mundo que explica quais são as personalidades condizentes e harmônicas com as respectivas identidades biológicas de sexo? O manual no qual esses setores se baseiam são sobretudo os princípios de doutrina de suas religiões. Se o grande argumento do projeto é contra a doutrinação nas escolas, seu Art.3º explicita nitidamente que o que se defende é justamente uma forma determinada de doutrinação.

A mentira do “Escola Sem Partido” só tem lastro na sociedade por conta de várias formas de ignorância. É claro que a crise social, política e de certa forma civilizatória que vivemos não só no Brasil cria condições para a ascensão de ideias fascistas ou similares. A crise leva à insegurança e ao medo, este leva ao desespero, e o desespero é a característica de quem nada espera. Quem nada espera aceita qualquer coisa. Esse pano de fundo somado à ignorância geral sobre a situação da educação no Brasil (que está longe de ter como seu principal problema as ideias que os professores proferem em sala de aula) e à ignorância de nossos representantes e desses setores sobre os principais debates pedagógicos feitos nos últimos 50 anos no Brasil e no mundo criam essas condições. A forma como Paulo Freire, o brasileiro mais traduzido no mundo inteiro, é ridicularizado (e não contra-argumentado, rebatido) pelos defensores do projeto é uma mostra quase que caricatural dessa ignorância.

Pois bem, o que a mentira e a ignorância em conjunto impedem de perceber é que o que está em curso é justamente uma disputa ideológica. A ideia de neutralidade nas ciências foi vencida no debate sociológico há mais de 100 anos. Para falar apenas de dois clássicos, se foi Marx que buscou demonstrar como as ideias estão sempre vinculadas aos interesses das forças sociais em disputa na sociedade, foi um pensador nada revolucionário, como Max Weber, que buscou construir um arcabouço metodológico que desse conta justamente da impossibilidade de neutralidade na construção das ciências humanas. A ideia de neutralidade como princípio para a educação, desde que esse debate foi encerrado no campo das ciências humanas, sempre vem acompanhada ou de uma auto-ilusão, quando realmente se acredita na sua possibilidade, ou de má-fé, quando se utiliza desse mote para afirmar posições políticas nada neutras. A má-fé caracteriza os idealizadores do “Escola Sem Partido” e a auto-ilusão muitos de seus seguidores.

Não convenceremos os seus idealizadores, porque eles têm um projeto de sociedade e de mundo claro, e muito bem baseado em seus interesses. Mas precisamos conversar com todas aquelas e aqueles que enxergam nessa empreitada uma busca pertinente pela neutralidade. E para isso, precisamos discutir o papel da educação. Queremos formar máquinas reprodutoras de mesmices, indivíduos mecanizados que repetem o que seus professores dizem ou o que veem nos jornais? Ou queremos formas sujeitos autônomos e críticos, que possam, a partir e sua própria capacidade de reflexão, posicionar-se diante dos dilemas do mundo, do mercado de trabalho, enfim, da vida? Se a resposta é a segunda, é preciso que todos compreendamos que não existe possibilidade de formar sujeitos críticos, sejam eles de direita, de esquerda ou de qualquer coisa, a partir de um ideal de neutralidade. Pelo contrário, é necessário que se apresentem as diversas visões de mundo, que o professor(a) não esconda suas próprias convicções e suas bases, mas sim as apresente de forma que os estudantes possam, criticamente, compreendê-las e formas sua própria forma de perceber o mundo. O maior risco a uma educação crítica e em busca da autonomia é esconder convicções sob o manto da neutralidade, de forma que as coisas apareçam como “naturais”.

Se é preciso respeitar o “direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções”, é preciso também compreender que o papel da educação da família é um, e o da escola é outro. A família ensina os seus valores, suas tradições, uma forma particular de se colocar diante dos outros e do mundo. O papel da escola é ensinar sobre esse mundo, para a convivência com o que é diferente, com o que incomoda, com o que o estudante vai encontrar ao longo de sua vida. A escola ensina o diferente, o não familiar. Para isso, a educação precisa apresentar fatos, interpretações, convicções, que muitas vezes serão diferentes das da família. Essas diferenças são formadoras de personalidades mais complexas, e sobretudo de personalidades autônomas.

No fundo, essa é a disputa ideológica que está em jogo. De um lado, sob o manto da neutralidade, a defesa de uma educação vazia e do cerceamento do trabalho dos professores, encampada por setores conservadores da sociedade. De outro, a busca – a partir de diversas perspectivas teóricas, políticas, acadêmicas – por contribuir com a formação de sujeitos críticos e autônomos. Nessa questão, assim como em todas as outras, não há imparcialidade possível, ou lado neutro. Os defensores do “Escola Sem Partido” já tomaram partido há bastante tempo. E você?

escola sem partido

O novo peleguismo e os movimentos prisioneiros da conjuntura

Por Helder Gomes

Tanto o Novo Sindicalismo como os diversificados movimentos populares que surgiram da penosa resistência à ditadura pós-1964 foram derrotados diante da opção das esquerdas brasileiras em priorizar as disputas institucionais. Durante o movimento de expansão das lutas, na virada para os anos 1980, difundiu-se Brasil afora novos instrumentos pedagógicos de formação de quadros e de informação das massas, com um trabalho intensivo e abrangente de militância nos locais de trabalho e nas mais diferenciadas comunidades, onde se desenvolviam as forças vivas da revolução brasileira. Rapidamente, foi possível espalhar a denúncia do peleguismo varguista e a indicação de instrumentos capazes de superar o corporativismo e a tutela do Estado sobre a organização sindical, no sentido de sua interação com as lutas por moradia, por reforma agrária e pela universalização de serviços públicos essenciais de qualidade. Do movimento das Diretas Já! até a promulgação da Constituição Cidadã, portanto, em meia década, foi possível inverter toda aquela riqueza de construção revolucionária, substituindo-a pela busca de expansão da cidadania, nos limites da ordem capitalista dependente.

O recuo estratégico logo ficou mais nítido no movimento sindical. Recuadas, mas, preocupadas com a manutenção do poder que supostamente passaram a exercer sobre suas respectivas bases, as novas lideranças dos anos 1980 foram gradativamente migrando para atividades institucionais, sem, no entanto, descuidar do controle dos agora convertidos aparelhos sindicais. Capturadas, junto com a economia brasileira, pela armadilha da especulação parasitária, grandes nomes do antigo Novo Sindicalismo passaram a ser encontrados nas listas dirigentes de grandes cooperativas de crédito e fundos de pensão, após uma temporada de requalificação nas escolas tradicionais da banca internacional, sem a qual não conseguiriam operar em mercados especulativos de alto risco. Outras se tornaram grandes personalidades nos parlamentos e nos executivos municipais, estaduais e federal, além de muitas delas estarem presentes nos conselhos de administração de empresas campeãs nacionais. Foi a partir dessa mutação, inclusive, que se substituiu a negação do slogan dos militares do País que vai pra frente pelo sonho institucional do Brasil-potência, que não sucumbiria a meras marolinhas.

No campo de atuação dos movimentos populares, não sindicais, tem sido apontada a forma como ocorreu a intensificação de requalificação de algumas de suas lideranças, convertidas em eficientes captadoras de recursos para projetos de consequência imediata e reparadora, aproximando certas instâncias operacionais dos modelos das ONGs proprietárias, exigindo certo nível de profissionalização. Esses parecem ter sido alguns dos fatores a contribuir para a substituição da pedagogia freiriana pela agressividade didática do novo peleguismo de resultados, cuja base de sustentação passou a ser o retorno da conciliação com o patronato/proprietário e a conversão de seguidas derrotas efetivas em supostas vitórias possíveis ante às adversidades da crise econômica mundial.

De outro lado, a enxurrada de orientações reformistas, que passaram a acompanhar a ideia do fim da centralidade do trabalho, com a suposta emergência da sociedade do conhecimento, do trabalho imaterial etc., traria de forma transversa para o interior das lutas populares a concepção de que estaríamos diante de uma nova lógica de desenvolvimento natural, rumo a uma sociedade pós-capitalista, a partir da qual não faria mais sentido cuidar de qualquer perspectiva de ação revolucionária.

Diante disso, em busca de um choque de realidade, talvez devêssemos pensar na possibilidade de escaparmos das aparências, indo além das disputas conjunturais, em busca das raízes estruturais dos desafios que temos pela frente, sem medo, inclusive, de criticar as interpretações vazias de conteúdo, reiniciando uma trajetória ainda mais ousada que aquela da virada dos anos 1980, na formulação de soluções para as armadilhas que nos enredamos nas últimas décadas.

 

Banco Central decide elevar novamente os juros no Brasil

Por Vitor Hugo Tonin

Juros reais já subiram mais de 60% e ainda podem dobrar até o final do ano.

Ilan

Ilan Goldfajn, funcionário do Itaú que “invadiu” a presidência do Banco Central sambando na cara do povo brasileiro.

O título do presente texto seria a manchete dos jornais se tivéssemos algo de imprensa livre no Brasil. Como não temos, todos os jornais estamparam a manchete que interessa aos seus senhores, os grandes bancos e especuladores: Estamparam que a taxa de juros estaria estável, no mesmo patamar há 12 meses. Mas a verdade é que ao manter os juros nominais com queda significativa da inflação o Banco Central está decididamente elevando os juros reais nas últimas cinco reuniões do Copom.

grafico

Os economistas e os jornalistas, seus principais cúmplices, sabem muito bem disso. Por que então não se divulgam os dados reais? Na verdade, o Banco Central vem promovendo uma política de elevação das taxas reais de juros desde janeiro deste ano. No acumulado dos seis primeiros meses a taxa real de juros cresceu quase 60%. Um verdadeiro programa de aceleração do rentismo!

tabela

Se a taxa nominal de juros se mantiver neste mesmo patamar até o final do ano Ilan Goldfajn terá alcançado a proeza de dobrar a taxa de juros reais num país em grave recessão. Isso porque a previsão dos próprios rentistas é de que o IPCA feche o ano de 2016 em 7, 21%, segundo o relatório Focus do Banco Central, também divulgado hoje. Mantida a Selic em 14,25% isso significa que passaremos de uma taxa de juros real de 3,20 para 6,57% aa. E assim vamos nos distanciando cada vez mais assumindo a liderança isolada das taxas de juros mundiais, seguidos de longe pela Indonésia (2,95%), Rússia (2,79%) e China (2,40%).
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– Não fale em crise, trabalhe! – Mas aonde???

Segundo a ata do Comitê divulgada hoje o principal motivo em manter a Selic no mesmo patamar seria a queda lenta da inflação causada principalmente pela alta dos preços dos alimentos. Segundo o raciocínio ortodoxo elevar a taxa de juros estimula as pessoas a pouparem em vez de gastarem. Isso reduziria a demanda e com isso os preços. Nessa lógica, o povo brasileiro deve deixar de consumir alimentos até que seus preços caiam. Mas com fome ninguém consegue poupar (lição elementar, mas ausente nos manuais de economia), logo a única maneira de fazer esse povo parar de consumir é elevando o desemprego, reduzindo salários, benefícios e direitos. Parece mentira, mas é justamente nisso que aposta o Banco Central:

“Por outro lado, o processo contínuo de distensão do mercado de trabalho e a desaceleração significativa da atividade econômica podem, a princípio, produzir uma desinflação mais rápida (por exemplo, no setor de serviços) do que a refletida nas expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus e nas projeções condicionais produzidas pelo Copom.”(Ata do Copom, p.4)[1]

[1]     Disponível em: http://www.bcb.gov.br/htms/copom/not20160720200.PDF

adeus emprego

Adeus empregos…

Na prática, no jogo real da luta de classes, isso significa que os privilegiados que recebem rendimentos de títulos do tesouro ou lastreados pela taxa Selic dobrarão seu poder econômico, enquanto a massa de trabalhadores brasileiros sofrem com o desemprego e com a corrosão dos salários. Esse é o objetivo da política monetária do governo ilegítimo: elevar os ganhos dos banqueiros e rentistas, aumentar os privilégios, aprofundar o grau de parasitismo da economia brasileira enquanto de outro lado continua achatando os salários e retirando direitos aprofundando ainda mais a desigualdade social e econômica da nação.