Reflexões ao Pé da Forca

Lembro-me de quando estava no Exército, e o conjunto de jovens tenentes costumava, de tempos em tempos, fazer uma pequena chacota com a instituição: a cada data comemorativa do calendário militar (e são muitas) recebíamos missões das mais chatas no sentido de comandar guarnições para marchar em paradas militares nos mais diversos lugares. Quando saía a designação nós ríamos um pouco do desafortunado oficial que ia ter que segurar a bronca, e invariavelmente chegávamos à seguinte conclusão: “esse Exército, sem mais o que fazer de concreto na sociedade, vive só de paradas militares e embuste; sem datas pra marchar em pátios – e sem as regrinhas de hierarquia aplicadas brutalmente – a turma não ia servir mais pra muita coisa…”

Se hoje a coisa muda, com o Exército redescobrindo sua velha vocação de reprimir lutas sociais (principalmente através do Gabinete de Segurança Institucional e das Seções de Inteligência – S2 – de suas organizações e instâncias de comando), aquela situação do parágrafo anterior se parece incomodamente com o que vive a esquerda brasileira hoje.

A avalanche de atos e chamadas para atos e preparação para atos, os eventos com palestras indignadas e a indignação veiculada através de palestras, a aposta nas performances públicas dos mandatos eletivos “esquerdistas” e a lacração generalizada das lutas “esquerdistas” cada vez mais identitárias dão esse tom patético de uma espécie de “militância pela militância”: “se tirássemos essas performances públicas do de-lutismo clássico da esquerda brasileira, nada sobraria”. O negócio dessa garotada é lacrar, ir pra rua, bem pensar. Permanecer apaixonada por si mesma, no final das contas.

Nada mudou, nem mesmo após um golpe de Estado redondo como o que vivemos agora há pouco. A esquerda brasileira continua fazendo EXATAMENTE o que vem fazendo há vários anos: atos, palavras de ordem, palestras, livrinhos. Esquecemos como fazer análises concretas de situações concretas (ainda confiamos demais nos dogmas livrescos e de nossas arcaicas organizações políticas), esquecemos de mergulhar, cotidiana e metodicamente, nas “contradições no seio do povo”, para que possamos ajudar a encaminhá-las para a direção mais progressista (infinitas reuniões no diretório do partido ou no coletivo feminista/de negritude/LGBT etc ou na sede do sindicato nos são toscamente suficientes), esquecemos que o que leva à mobilização revolucionária das massas não são os discursos identitários e os lugares de fala e os escrachos na net, mas sim o tratamento das coisas duras e materiais, que atacam o estômago, o bolso e a sobrevivência diária de milhões de pessoas (aqui me vem à cabeça o quanto precisamos resgatar aquela onda dos “Programas de Sobrevivência” dos Panteras Negras…)[1].

Em meio à nossa fofura politicamente correta e sorridente, cheia de amor e ternura no coração, esquecemos do necessário ódio de classe que sempre manteve alerta, com os dentes trancados e com os músculos prontos a melhor tradição revolucionária. Somos “soft” demais para levar algum perigo, ainda que mínimo, para a direita brasileira. Nossas cirandas, nossas flores colocadas nos canos dos fuzis da repressão são completamente ineficazes para virar a mesa e bater os dois pés no peito do fascio. Se o poder nasce do cano de um fuzil (como diria o velho Mao) esse poder é o que está prestes a explodir nossas cabeças com um tirambaço na nuca. Enquanto isso, cantamos Caetano e Gil.

Somos ridículxs, e o deboche da escrota direita brasileira (deboche esse que vem sendo comprado por cada vez mais pessoas) é conseqüência mais que natural dessa bananice.

O impasse está posto. A direita e seu cãozinho de estimação, o fascismo, avançam sem dificuldade, hegemonizando aqui e acolá. A esquerda continua rodopiando em torno de seu umbigo, seja no tambolelê, seja no burocratismo velho de guerra. E as massas – que realmente decidem as coisas – tombam cada vez mais para o conservadorismo e o reacionarismo.

Esse impasse TEM que ser destravado. Ou o novo surge – e logo, ou seremos aniquiladxs enquanto visão de mundo, projeto político, emancipação em latência, em processo. “Ou inventamos, ou erramos”, diria também hoje o velho Simón Rodriguez.

Se não rompermos com as velhas e ossificadas práticas dessa esquerda que a direita adora, a derrota será certa. Aliás, já está sendo certa.

Que fazer? Aí é que tá… Só metendo as caras no circuito prática-teoria-prática e arriscando apostas no Novo é que teremos a possibilidade-de-talvez-quem-sabe desvendar um caminho viável para sair da defensiva e partir pra ofensiva com gosto e de forma sustentável.

Do jeito que tá, não dá mais. Mas não dá mais mesmo.

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“Procurada pelo FBI – Fuga Interestadual – Homicídio – Sequestro”

[1] Aliás, se tem uma coisa que é maltratada pela suposta “esquerda” brasileira é a categoria de intersseccionalidade. Tchurma adora falar em gênero-raça-classe como chave devidamente sofisticada para entender o mundo a fim de transformá-lo; mas na hora em que a jiripoca pia, quando a categoria tem que ser aplicada mesmo, ninguém quer. Intersseccionalidade vem servindo para identificar (corretamente) a mulher negra e pobre como mais drasticamente oprimida, mas não vem servindo, p. ex.,  para ajudar a enfrentar sofisticada e eficazmente o machismo de homens que, apesar de homens cis, são negros, pobres e superexplorados. Galera adora invocar o nome da gigantesca Angela Davis, mas se esquecem que ela, além de mulher e negra, é uma socialista convicta, foi uma combatente Black Panther (do nacionalismo negro revolucionário, de inspiração maoísta) e foi candidata à vice-presidência dos EUA pelo Partido Comunista dos EUA por duas vezes (em 1980 e 1984)… #identitarismofodeção

Sinais de tempos sombrios

Por Zacarias Gama*, em colaboração especial

Os camponeses têm uma sabedoria meteorológica que nos impressiona. Com um céu de cirros-cúmulos eles sabem se vai chover forte, basta que vejam o gado descendo o morro em desembalada correria. Também conseguem prever chuvas vendo as correições frenéticas de formigas em dias abafados. Nós, os que habitamos a cidade, ao contrário, somos dependentes dos noticiários de televisão e das previsões apresentadas pelas lindas mulheres do tempo.

Em política as nossas dificuldades de prever o amanhã são ainda maiores. O presidente usurpador cai até julho deste ano? Corremos o risco de endurecimento do golpe com o apoio das forças armadas? Que tipo de Estado está em construção?

Os sinais estão aí como peças de quebra cabeças. Está em jogo a construção do futuro e sequer conhecemos as peças que temos. Afinal, as ações que se efetivam no presente nos fornecem pistas do que nos espera em curto ou longo prazo.

Muito embora eu não seja um camponês, apesar de ter tido o pé na roça quando jovem, vejo os sinais com ares de ditadura à moda da Grécia Antiga, de curta duração e circunstancial. O antidemocratismo do neoliberalismo golpista exige a imposição de uma agenda mais ampla com cerceamento das liberdades e diminuição de direitos sociais. A meta do golpe é que todos sirvam ao deus mercado, a servidão ao mercado é o que importa.

Os sinais mais visíveis para mim são os seguintes:

  • 1° Sinal: reivindicações esparsas no Congresso Nacional de um estado forte (ou será de um regime ditatorial?) para aprovação dos pacotes de maldades contra os trabalhadores e a sociedade em geral.
  • 2° Sinal: parlamentares cogitam se blindarem contra as delações da Lava-Jato e os mandados judiciais do Ministério Público.
  • 3° Sinal: parlamentares pleiteiam a supressão de eleições gerais em 2018 para evitar a possível vitória do ex-Presidente Lula da Silva.
  • 4° Sinal: o STF legisla escancaradamente em favor do golpe.
  • 5° Sinal: a imprensa golpista se dá ao trabalho de omitir informações, selecionar os algozes e iluminar os “acertos” dos atuais donos do poder.
  • 6° Sinal: No Rio de Janeiro, os contornos de novos tempos duros se tornam visíveis pela presença das forças armadas nas ruas com mais de 9.000 homens e poderes de polícia para garantir a privatização “pacífica” da CEDAE e a votação das maldades proposta pelo governador do Estado.
  • 7° Sinal: transformação da cidade do Rio de Janeiro em um grande laboratório de exercícios de repressão militar contra as massas de oposição.

Ao juntar os sinais, o que percebo é formação de um estado neoliberal fortíssimo e semi-ditatorial, com uma força a ser exercida de modo eficiente e pontual conforme a necessidade. Poderá até ser ditatorial e violento em momentos determinados como em Vitória e no Rio de Janeiro. Garantirá o golpe em momentos de ditar leis, criar novos impostos, distribuir isenções fiscais, privatizar e ampliar concessões de serviços públicos, compor editos de censura aos meios de comunicação e tudo o que for importante. Os segmentos golpistas políticos, econômico-financeiros, jurídicos, militares e midiáticos serão os maiores beneficiados.

Quem viver, verá.

*Professor associado da UERJ e membro do LPP

Sejamos diretos, está na hora de derrubar Pezão

Por Roberto Santana Santos*

Todo o Brasil vem acompanhando o caos que se encontra o estado do Rio de Janeiro há mais de um ano. O PMDB conseguiu falir o segundo estado mais rico da União. Cenas repugnantes se multiplicam: servidores sem receber há 3 meses, pagamento parcelado de salários, caos total nos serviços públicos, e deterioração na sempre delicada questão de segurança pública no Rio de Janeiro. Em 2017 praticamente 3 PMs são mortos por semana e ainda estamos em fevereiro. A UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), uma das dez melhores universidades do país, está fechada há meses, simplesmente porque nenhuma verba é repassada.

Em texto passado, destrinchamos as razões econômicas para a crise no Rio1. O PMDB, com Cabral e Pezão à frente, loteou o Estado e repassou rios de dinheiro público para a iniciativa privada. Obras desnecessárias atreladas aos megaeventos que fizeram a alegria das empreiteiras, e a terceirização desenfreada dos serviços públicos (como o caso das O.S.s na saúde), assim como o aluguel de bens e serviços que poderiam muito bem ser feitos pelos próprios servidores do estado (como os automóveis da PM), que repassam mensalmente fortunas para os empresários fornecedores e empresas de terceirização. Qualquer pessoa que vive no Rio de Janeiro hoje pode constatar que nada disso melhorou os serviços (muitos na verdade pioraram), provocando o rombo que levou à crise.

No entanto, o que se viu nos últimos meses, a partir da Operação Calicute da Polícia Federal, é que essa troca de favores entre o grupo de Cabral e seus amigos empresários (o maior deles Eike Batista), se tratava de um imenso esquema de corrupção, onde obras e serviços pagos com dinheiro púbico eram superfaturados e depois os valores eram repartidos entre os empresários e o grupo político de Sérgio Cabral, em forma de propina. Isso demonstrou que o estado do Rio de Janeiro foi falido pela roubalheira do PMDB fluminense, liderado pelo grupo de Cabral e da qual fazem parte o atual governador Pezão (PMDB) e seu vice, Francisco Dornelles (PP).

Não se precisa de muito esforço para ligar os pontos. Pezão era vice de Cabral e parte de um grupo político que está quase todo preso hoje pelas acusações expostas acima. Entre os dias 08 e 09 de fevereiro surgiram os primeiros indícios de que o atual governador também estava no grupo da propina. Anotações de um investigado na Operação Calicute mostram o repasse de R$ 190 mil reais para Pezão.2 Na mesma data, o TRE-RJ cassou a chapa que elegeu Pezão e Dornelles em 2014. O motivo? Superfaturamento das contas de publicidade e utilização na campanha de gráficas que tinham contrato vigente com o governo do estado.3 Como cabe recurso, os acusados não são obrigados a se afastarem do cargo.

Se não bastasse, ainda na mesma data, o Tribunal de Contas do Estado descobriu um rombo de R$ 18 bilhões no Rioprevidência assinado por Pezão4. O governo do RJ retirou dinheiro para investir em uma empresa nos Estados Unidos, sob alegação de que os lucros a serem obtidos aumentariam os valores do fundo. Se não bastasse, colocou como garantia até 60% dos royalties do petróleo fluminense. Com a queda mundial do preço do produto, o Rioprevidência tem agora uma dívida que é o triplo do valor retirado! Esse caso ilustra muito bem o mito da falência da previdência social, da “previdência insustentável”, ou a “população está envelhecendo”. A verdade é que o dinheiro da previdência é roubado pelos governantes pra fazer cassino nas finanças mundiais. Pezão tenta passar hoje na ALERJ a criminosa proposta de retenção de 22% do salário dos servidores para fechar o rombo na previdência que ele mesmo criou devido sua irresponsabilidade com o patrimônio público e os direitos do povo!

Ninguém consegue falir um estado só por incompetência. A crise no Rio de Janeiro é fruto de uma organização criminosa formada por Cabral, Pezão, Dornelles e seus sócios empresários. O PMDB fluminense é uma cleptocracia, ou seja, o governo dos ladrões. Saquearam os cofres púbicos entregando todo o dinheiro do povo para os milionários e bilionários, o mais famoso deles, Eike Batista. Pezão age por interesse próprio. Se mantém enquanto governador para ter foro privilegiado e fugir da Justiça. Ao vir à tona ser favorecido por propinas, ser responsável por um déficit de R$ 18 bilhões da Previdência e ter superfaturado as contas da própria candidatura, utilizando nas eleições empresas que prestavam serviço ao governo que fazia parte, somado ao caos em que deixou a vida de 16 milhões de pessoas no estado do Rio de Janeiro, o mínimo de decência que se esperaria de Pezão era a renúncia. Como decência não faz parte do PMDB, a população do Rio de Janeiro tem o direito a derrubar um governo que age em causa própria, roubando descaradamente os cofres do estado e agora querendo jogar a conta de suas estripulias para os trabalhadores e trabalhadoras do Rio. Pezão e Dornelles devem sair e novas eleições devem ser feitas, para que a população escolha o novo governador.

A única forma que a população fluminense tem de sair desse pesadelo é barrar a privatização da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos) e do pacote de maldades que está na ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado). É perverso privatizar o bem mais precioso de todos, a água, como é igualmente perverso deixar 9600 famílias há mais de 5 anos no aluguel social, porque foram removidas de suas casas pelo Estado que nunca construiu as novas habitações como prometido. Isso porque o dinheiro do PAC favelas que reassentaria essas famílias humildes foi parar nas contas de Eike Batista e da esposa de Cabral.5

Por fim, a derrota do pacote de maldades é também uma derrota do desgoverno de Temer, que patrocina Pezão na sua tentativa de privatizar a CEDAE. Tanta esforço para privatizar a companhia significa que ela já deve estar prometida para algum “sócio”, ansioso para fazer a conta de água da população disparar. É uma derrota também para a grande mídia, Globo à frente, que adulava o PMDB quando do “sucesso” das UPPs e das obras para os megaeventos. Mentes mais lúcidas apontaram a insensatez desses projetos e cravaram inclusive sua data de validade: depois das Olimpíadas. Acertaram, e hoje a Globo pousa de “neutra” em relação à crise do estado que ajudou a criar.

A solução para a crise no Rio passa pela cobrança dos impostos que os ricos não pagaram, devido às isenções fiscais fraudulentas concedidas por Cabral e Pezão. Sabe-se hoje que as isenções foram feitas não só como carnaval dos empresários, mas também para lavar dinheiro de Cabral e sua gangue.6 Outra medida é o bloqueio e sequestro do patrimônio do grupo político que assaltou os cofres do Rio de Janeiro, de modo a reaver o dinheiro desviado para regularizar os salários dos servidores, reativar a máquina pública e cumprir as promessas do Estado, como é o caso das famílias do aluguel social. Tudo isso passa por acabarmos com a insanidade que é o governo Pezão-Dornelles.

Fora Pezão! Diretas Já!

*Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

1“Por que todo brasileiro deve estar atento à crise no Rio de Janeiro”. Disponível em: <https://brasilem5.org/2017/01/12/por-que-todo-brasileiro-deve-estar-atento-a-crise-no-rio-de-janeiro/>

2 “Polícia Federal encontra anotações de que Pezão recebeu 190 mil de propina”. Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/pf-encontra-anotacoes-de-que-pezao-recebeu-r-190-mil-de-propina.ghtml>

3“TRE-RJ cassa mandato da chapa do governador do RJ, Luiz Fernando Pezão”Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/tre-rj-cassa-mandato-da-chapa-do-governador-do-rj-luiz-fernando-pezao.ghtml>

4“TCE aponta irregularidades em operações financeiras de R$18,3 bi no Rioprevidência”. Disponível em: <http://blogs.odia.ig.com.br/justicaecidadania/2017/02/09/tce-aponta-irregularidades-em-operacoes-financeiras-de-r-183-bilhoes-do-rioprevidencia/>

5 “Justiça determina prisão de Adriana Ancelmo”. Disponível em <http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-12-06/justica-determina-prisao-de-adriana-ancelmo.html>

6 “PF faz operação em joalheria onde Cabral e Adriana Ancelmo faziam compras”. Disponível em: <http://extra.globo.com/noticias/rio/pf-faz-operacao-em-joalheria-onde-cabral-adriana-ancelmo-faziam-compras-20542476.html>

 

Acordemos: nem Lula, nem Ciro! O momento é de reinventar-se.

Por Rodrigo Santaella

Momentos de crise, especialmente de convergência de crises, geram também oportunidades de reconstrução, de reorganização. Em países matizados, multifacetados e com grande segregação e desigualdade social como o nosso, as crises sempre trazem – por serem momentos de encontro – possibilidades de reinvenção. O conjunto de ataques que as classes subalternas sofrem hoje no Brasil e a profunda crise de legitimidade na qual se encontra o Estado brasileiro tendem a proporcionar momentos de condensação social, de encontro de diversos sujeitos coletivos que – apesar de terem espaços de intersecção e interesses comuns – pouco se cruzam nas lutas políticas do país. É importante ter isso em mente para pensar as formas concretas de enfrentar os ataques que já vieram e os que virão, e principalmente para entender o tamanho do desafio que as pessoas e organizações que querem uma transformação radical do país precisam enfrentar. Sinceramente, se não for agora a hora de ousar e buscar construir algo diferente do que foi tentado pelas esquerdas brasileiras nas últimas décadas, é muito possível que percamos o bonde novamente.

Nesse contexto, se torna assustador ver que boa parte dos setores progressistas do país apostam, mais ou menos timidamente, numa solução “Lula 2018” como sendo a melhor dentre as alternativas possíveis para uma resposta progressista à crise. Me desculpem, mas não é. É preciso discutir o legado dos anos de PT no poder no Brasil, e esse seguramente será um dos pontos importantes dos balanços que a esquerda precisará fazer para se reorganizar nos próximos meses e anos. É verdade que parte da esquerda teve – e tem – dificuldade em entender a complexidade dos 14 anos de governos do PT, e fechou os olhos para alguns avanços importantes[1]. Entretanto, quando olhamos a história como processo, é preciso reconhecer que o golpe de 2016, e portanto tudo o que ele trouxe consigo, é um dos principais legados desse período. O projeto petista, independente dos avanços parciais (e importantes) que trouxe, carregou consigo desde o princípio as suas contradições e os gérmens da sua própria derrocada. A opção pela governabilidade por cima em detrimento da mobilização social, somada à opção por entrar no jogo sujo do poder no Brasil ao invés de enfrentá-lo quando tinha base social para tal, limitava qualquer avanço estrutural duradouro: se hoje podemos perder boa parte do que foi conquistado nos últimos anos (a aprovação do teto de gastos já é um bom caminho para isso, sem falar no que virá em termos de reforma trabalhista e da previdência), é porque grande parte dessas conquistas foram, no mínimo, efêmeras. E isso é parte decisiva do legado lulista: negar isso é optar por cometer os mesmos erros. A opção pela conciliação de classes (em um momento em que a bonança internacional permitia isso) criou todas as condições para a consolidação de um governo como o de Temer: profundamente classista e agressivo. Isso não dependeu de atitudes individuais, é claro: como bem mostrou o excelente artigo de André Singer[2], quando Dilma tentou enfrentar parcialmente o capital financeiro, perdeu sua base política. Mas estranho seria se não perdesse, não é?  Se a Nova República está definhando, a solução “Lula 2018” poderia, no máximo, prolongar a agonia. Passaria longe de contribuir com uma reinvenção ou com uma reorganização tão necessária para os setores progressistas do país. Pelo contrário, provavelmente consistiria em mais uma barreira para isso.

Por outra parte, é ainda mais assustador observar parte de setores progressistas vibrarem e considerarem a viabilidade de uma alternativa “Ciro Gomes 2018”. É brincadeira, né?[3] Ciro e os Ferreira Gomes são talvez os maiores representantes da atualização do coronelismo no Ceará. Se suas origens estão no “coronelismo clássico” na bela cidade de Sobral, seus anos de governo demonstram a atualização dessas práticas e um pouco do que eles representam. Os governos dos Ferreira Gomes (primeiro com Ciro, depois com seu irmão Cid) foram marcados pela repressão aos mais diversos setores das classes trabalhadoras (de médicos a professores, passando, é claro, por estudantes), pela remoção forçada de milhares de famílias, por um “desenvolvimentismo” velho e nada arejado, banhado pelo veneno dos agrotóxicos e  pelas brilhantes ideias aquáticas de uma termelétrica (do Eike Batista, no começo) que consome a água de 500 mil pessoas e por um “Acquario” como principal atração turística da capital de um dos estados que mais sofre com a seca no país. Ciro é um cara muito perspicaz, muito inteligente, e encanta, em tempos de redes sociais e “oclinhos”, muita gente quando enfrenta interlocutores neoliberais em debates públicos reproduzidos nas redes sociais. Mas acreditar, com seu histórico, que isso basta para que ele seja uma alternativa viável, beira o absurdo para setores que se querem progressistas (imagina então para os revolucionários). Seria, sem dúvidas, o maior atestado de que não estamos à altura dos desafios que a história nos impõe.

É claro, não basta apontar os limites dessas supostas alternativas. É preciso que o conjunto das forças progressistas e da esquerda revolucionária faça suas autocríticas e se coloque em movimento com disposição a correr os riscos de novas articulações, de novos instrumentos políticos (que podem até caber dentro dos existentes, a depender de como caminhem as coisas). É preciso romper as barreiras que se impõem entre uma esquerda crítica, que não se rendeu ao sistema (e que por isso é fundamental para o momento atual), mas que se por vezes adotou posições mais cômodas, “de fora”, e fez análises mecânicas e maniqueístas, caindo no sectarismo em diversos momentos nos últimos anos, e uma esquerda pragmática e conformista, que não consegue pensar de forma diferente do que foi imposto pela dinâmica da Nova República no Brasil.

O êxito dessa construção ou de qualquer tipo de coisa, em termos de reorganização, que surja da crise que vivemos hoje no Brasil depende, por óbvio, da não repetição dos erros do passado recente. Mais do que em articulações de gabinetes parlamentares, esse processo só terá futuro se for construído a quente, nas ruas. Se nada de diferente do que temos hoje surgir, provavelmente seremos derrotados novamente. E, por isso, o pior erro que podemos cometer nesse momento é alimentar ilusões em soluções como “Ciros” e “Lulas”: isso seria contribuir, decisivamente, para que o futuro continue sendo uma repetição eterna do presente cinzento em que estamos colocados.

[1] O que não significa dizer que as críticas que fez foram injustas. Para citar apenas uma medida do primeiro ano de governo petista e uma do último, estão a reforma da previdência de 2003 e a sanção da lei antiterror em 2016. O problema, talvez, tenha sido dialetizar pouco as análises.

[2] “A (falta de) base política para o ensaio desenvolvimentista”. In: As contradições do Lulismo: a que ponto chegamos? São Paulo, Boitempo, 2016.

[3] Devo confessar que escrevo esse texto impactado pelas reações da plateia de jovens no debate realizado domingo, dia 29/01, na Bienal da UNE em Fortaleza, com Ciro Gomes, Luciana Genro, e outros.

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Por que todo brasileiro deve estar atento à crise no Rio de Janeiro?

Por Roberto Santana Santos*

A atual crise econômica no Brasil vem se manifestando intensamente em alguns estados, sendo o caso mais grave o do Rio de Janeiro. Governado há mais de uma década pelo PMDB de Temer, Cabral e Pezão, o Rio se encontro à beira do caos. O estado apresenta uma dívida entorno dos 20 bilhões de reais. Muito se fala da crise, mas não como ela surgiu. Ela não caiu do céu, ela é fruto de uma política neoliberal e da irresponsabilidade do PMDB à frente do Estado nos últimos dez anos. E o mais perigoso, a situação do Rio de Janeiro tende a ser nacionalizada, ou seja, tanto a grave crise que ocorre no estado, como as “soluções” absurdas e transloucadas propostas pelo governo estadual e federal estão servindo de laboratório para serem replicadas em todos os outros estados do país (como no Rio Grande do Sul). Por isso, é importante que o povo brasileiro acompanhe o que ocorre no Rio de Janeiro.

O PMDB, à frente do governo estadual, primeiro com Sérgio Cabral (2007-2014) e a partir de 2015 com seu sucessor, Pezão, diz que a crise se dá devido à queda do preço do petróleo (boa parte do pré-sal está em águas fluminenses) e à diminuição do repasse do Governo Federal, com a diminuição da arrecadação. Estes fatos são verdade, mas não explicam a situação. Tanto à queda da arrecadação quanto a do preço do petróleo não ocorreram da noite para o dia. É um processo que se deu ao longo dos últimos três anos, tempo suficiente para preparar o estado para responder os efeitos da crise.

Fato é que o Rio de Janeiro tem o segundo maior PIB do país, estando atrás apenas de São Paulo. Tampouco sua economia depende apenas do petróleo e dos repasses federais. O estado concentra uma gama alta de serviços e indústrias que fazem com que sua economia seja bem diversificada. Sua capital é tida como uma cidade “global”, onde se encontram todos os interesses do grande capital brasileiro e estrangeiro. Portanto, a queda da arrecadação e do preço do petróleo prejudicam a economia, mas não explicam o atoleiro sem fim em que o Rio de Janeiro foi colocado pelo PMDB. Se elas estão fora da alçada do governo estadual, este poderia ter se preparado para enfrentar o cenário adverso que se aproximava. Para falir um estado com essa estrutura econômica o problema está na direção política e, principalmente, para qual parcela da população o PMDB governa a mais de dez anos.

O rombo nas contas públicas do Rio de Janeiro, que chega nesse início de 2017 a 20 bilhões de reais, foi feito pela gastança do governo estadual com o dinheiro público. Mas, ao contrário do que é repetido à exaustão pelos papagaios da grande mídia neoliberal, este gasto público não foi com a previdência social, nem com os serviços públicos, tampouco com o pagamento dos servidores.

A partir da chegada do PMDB ao governo do estado com Sérgio Cabral em 2007, as empresas que financiam as campanhas eleitorais desse e de outros partidos, passaram a realizar praticamente todos os investimentos e serviços do estado. As obras dos mega eventos foram feitas pelas empreiteiras, que, como sabemos hoje, utilizam as utilizam para superfaturamento, lavagem de dinheiro e pagamento de propina. A mais escandalosa das obras foi mais uma (desnecessária) reforma do estádio do Maracanã, no valor de 1,2 bilhões de reais, com sua posterior privatização para a mesma empresa que o construiu, a Odebrecht. Hoje, o templo do futebol está fechado e abandonado. Dois anos de privatização mostrou que ingresso caro não enche arquibancada.

O estado do Rio de Janeiro começou a distribuir dinheiro público entre os empresários por meio de uma terceirização desenfreada dos órgãos públicos e da contratação de serviços junto a empresas privadas sem necessidade. Os exemplos se multiplicam: órgãos públicos possuem geradores de energia que pagam aluguel diário, os carros da polícia não são comprados pelo estado, mas sim, alugados; em certas repartições custa você achar um profissional concursado. Da atendente, ao segurança, passando pela tia do café, incluindo diversos serviços que poderiam muito bem ser realizados pela máquina pública, tudo é feito por empresas terceirizadas. Toda a saúde do estado foi entregue às Organizações Sociais (O.S.s), empresas privadas para gerir postos e hospitais, algo que já era feito pelos próprios servidores gratuitamente. A mágica é, ao invés de usar seus funcionários públicos, o governo contrata serviços junto a particulares, para que assim possa repassar dinheiro público ao capital privado.

A política de militarização da segurança pública é outro desperdício de dinheiro dos cidadãos e cidadãs. Várias vozes da sociedade se levantaram contra as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), quando elas começaram a serem implementadas em 2009. Quase dez anos depois, as críticas se mostravam acertadas. Militarizar a favela e gastar rios de dinheiro público com armas, caveirões e helicópteros, não diminuiu a violência, o poder do tráfico de drogas, nem a corrupção e violência policial. As críticas acertaram até na validade da UPP: o projeto se esgotaria depois das Olimpíadas e aí está. A UPP faliu e o Rio entrou em uma nova onda de violência que explode por toda a cidade. Para quem conhece as favelas do Rio sabe que a UPP só fica na entrada da favela, que o comércio de drogas, a violência e a corrupção policial continuam desenfreadas. Quem sofre no meio de tudo isso, como sempre, é a grande maioria que nada tem a ver com tráfico e armas. Vale lembrar que vários serviços nas UPPs, como limpeza e alimentação, também são terceirizados.

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A grande vilã, no entanto, são as isenções fiscais. O governo do estado, entre 2008 e 2013 deixou de arrecadar 138 bilhões de reais de grandes empresas. A quantia daria para pagar a atual dívida do estado 7 vezes! Como mostrou a Operação Calicute da Policia Federal, que prendeu o ex-governador Sérgio Cabral, as isenções fiscais não eram dadas para empreendimentos estratégicos, mas sim, distribuídas entre os favorecidos pelo PMDB, Cabral e seus aliados. Uma lista imensa de empresas não pagaram impostos ao estado, desde motéis, termas até joalherias, que depois se descobriu servir de espaço para lavagem de dinheiro por parte da esposa de Cabral. Vejamos o gráfico formulado pelo jornal O Globo no ano passado:

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Nesse jogo, onde os ricos não pagam impostos devido sua troca de favores com o PMDB fluminense, sobra para a população mais pobre. O resultado dessa política desastrosa é público para todo o Brasil: servidores com 3 meses de salários atrasados, que recebem seus vencimentos de forma parcelada; falência dos serviços públicos, principalmente no campo da saúde e da segurança, com Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) fechadas, falta dos materiais mais básicos de atendimento, aumento da criminalidade e da violência urbana. As bibliotecas públicas já foram fechadas e até a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) está ameaçando fechar as portas, pois seus servidores estão com salários atrasados e as terceirizadas também.

Ao final de 2016 Pezão enviou um conjunto de leis para a Assembleia Legislativa do Estado (ALERJ), que ficou conhecido como “pacote de maldades”. Entre as propostas, aumento da contribuição previdenciária dos servidores de 11 para 30% do salário (!), cancelamento dos aumentos salarias e seu adiamento para sabe-se lá quando, aumento da passagem do Bilhete Único, fim de diversos órgãos públicos (o que levaria a realocar servidores em atividades para as quais não correspondiam) e extinguir uma série de programas sociais, como Aluguel Social para pessoas de baixa renda sem moradia. Tratava-se de algo desastroso e equivocado, pois tudo isso somado não daria nem um quarto dos 20 bilhões que o estado deve. Com a prisão de Sérgio Cabral, a base do governo Pezão na ALERJ se desfez e o pacote acabou sendo derrotado, com forte repressão no lado de fora da Assembleia aos servidores que protestavam, transformando as ruas do Centro do Rio em praça de guerra.

A população fluminense teve uma grande vitória ao frear o pacote de maldades de Pezão. Porém, nesse início de 2017 a maldade ameaça virar federal. Derrotado em âmbito estadual, Pezão recorreu a Henrique Meirelles, ministro da Fazenda do governo golpista de Temer, para colocar em prática o que foi rechaçado pela ALERJ e pela população. E conseguiu piorar o que já era ruim, ao acordar com Meirelles a privatização da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgoto) e mais outras “contrapartidas”, que provavelmente devem incluir propostas derrotadas na ALERJ e pela mobilização popular, como o aumento da contribuição previdenciária dos servidores e a proibição de concursos públicos e ajustes salarias. O PMDB, estadual e federal, foge da derrota que tiveram no Rio de Janeiro e procuram “passar por cima” dos desejos da população, tentando aprovar um acordo com chancela do STF, para evitar que alguém recorra.1

A situação do Rio de Janeiro deve ser acompanhada por todo o Brasil, pois, em uma economia em frangalhos e que não dá o menor sinal de recuperação, e com o desgoverno de Michel Temer, todos os demais estados da Federação podem passar pelo mesmo problema ainda em 2017. O que assistimos nos últimos meses no Rio é que essa camarilha do PMDB e aliados não têm escrúpulos em falir o estado, deixar a população sem saúde e segurança, e jogar os servidores em uma situação desesperadora de 3 meses de salários atrasados, enquanto os reais motivos da crise, os gastos exorbitantes do estado com terceirizações e contratos com a esfera privada, somado às corruptas isenções fiscais, não sofrem uma alteração sequer. Tudo vale para manter os lucros dos empresários que financiam as campanhas do PMDB, ao preço da população que trabalha e sustenta os privilégios da Casa Grande e dos gringos.

O Rio de Janeiro, mais uma vez, é o laboratório de maldades da elite brasileira. A política sociopata de Meirelles é uma coleção de descaminhos que nunca deu certo em nenhum momento no Brasil ou em qualquer lugar no mundo. Essas políticas neoliberais aprofundam e prolongam a crise, ao invés de resolvê-las. Elas propositalmente levam a situação até o limite do absurdo, como é a situação atual do Rio de Janeiro, para então aplicar o que há de mais atrasado em gestão pública, encarecendo serviços ao privatizá-los e resguardando o dinheiro público para as grandes empresas, ao invés de atender as necessidades da população.

O povo brasileiro precisa estar mobilizado contra essa política econômica do desastre que querem nos impor. É necessário um amplo movimento de manifestações e de comunicação para esclarecer e organizar a população contra os ataques que vêm de um governo golpista e suas ramificações estaduais que entregam a coisa pública aos interesses privados, sobre uma propaganda de que é a única solução, quando na verdade, são justamente parte do problema. Os acontecimentos dos últimos anos confirmam: o rombo nas contas públicas e a corrupção são obra do capital privado que sobrevive roubando o orçamento público.

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Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO e ONU. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

AS SEQUELAS DO IMPERADOR

*Gabriel Siqueira

Esta semana veio à tona o vídeo feito pelo Mc Smith com uma rapaziada forte na Vila Cruzeiro – Complexo do Alemão, 6h45 da manhã do dia primeiro de 2017. O referido funkeiro canta e rima na presença de Adriano Imperador, dizendo que ele deveria voltar aos gramados pelo Flamengo em 2017[1]. Com isso, ambos estariam dando um tapa na cara da mídia, que tanto criticou Adriano por estar sempre na favela onde foi criado.4d135bc03f337351506cea1485550ac07735dc303a804

Adriano Imperador é um cara que merece respeito, jogou muita bola mesmo, mas discordo da tese de que ele fez uma opção. Ele tinha que ter sido um dos maiores atacantes do mundo. Acho que foi, mas poderia ter ido mais longe. Lembremos do Romário, preferiu ficar no Brasil também, trocando a Europa quase sempre por Vasco ou Flamengo. Os branquelos do SporTv ou Globo Esporte que nunca entraram numa piscina de plástico no meio do asfalto ou sentiram o cheiro de urina do fim do Baile Funk não conseguem entender. Nunca serão!

Ele está/esteve doente. Depressão não é frescura, mano. Aliás, é uma doença que o povo negro desde o cativeiro chamava de “banzo”. A depressão da escravidão, do desengano, da pobreza, da doença, da falta da liberdade e por ai vai continua no cotidiano. O povo preto sofreu muita coisa no psicológico. Teríamos que ler uma espécie de Franz Fanon brasileiro pra entender mais da mente dos negros do país, mas posso dizer que a miséria adoece a mente sim. É difícil ver imperar a doença, enterrar amigos, apanhar de polícia, e outras coisas.

Não concordo com os falcões da TV brasileira, obviamente. Adriano Imperador é criticado porque se sente bem na favela, mesmo com as dificuldades da comunidade. O fato de ter dinheiro pra ir a Paris e Berlim e preferir ficar no Complexo da Penha, é um soco na boca do estômago do sistema. Sistema que cria os pobres para continuarem pobres, mas se por algum acaso enriquecerem, odiarem os pobres, pisando na cabeça dos seus. O Imperador fez o contrário, por isso até propagam ódio a ele.

O problema da bebida excessiva e falta nos treinos está diretamente ligado à morte do pai, a quem dedicou a vitória daquela Copa América. O pai dele morreu uma semana depois. Ele mesmo reconhece que a bebida é/foi a saída para depressão. Vale lembrar que o pai dele tinha uma bala alojada na cabeça e convivia com dores absurdas há anos, desde de que tomou um tiro na cabeça numa festa dentro da Vila Cruzeiro – Alemão. Retirá-la poderia causar sua morte. Coisas da favela. Contudo, ele morreu infartado. Adriano se complicou daí pra frente. Uma pena para o futebol brasileiro.

Mc Cidinho tem uma letra que resume o Imperador chamada “QUANDO O MULEQUE NASCEU[2]”:

“Sou mais um filho da favela

Vítima da violência

Cicatrizes, tenho cinco redondas

Feitas por arma de fogo

Eu já sofri muitas sequelas”

Desejo tudo de melhor pro Adriano. Ele tem razão, nunca fez mal a ninguém, talvez só a si mesmo.  Mc Cidinho diz ainda, na mesma música:

“Faz como Tyson fez nos ringues

Vai como Martin Luther King”

*Historiador e Capoeirista

[1] Vídeo do Mc Smith -> https://www.youtube.com/watch?v=kufJBYlIULU

[2] Mc Cidinho – > https://www.youtube.com/watch?v=J2kgr1Aacyg

PAZ entre nós, GUERRA aos Banqueiros!

Por Sammer Siman

O governo bosta de Michel Temer já está virando água. Quem se lembra daquela pompa do Mordomo do diabo assumindo o governo depois de 31 de agosto se espanta agora com seu crescente abandono: Até a Rede Golpe, conhecida como Rede Globo por muitos, começa a pular da canoa furada, devemos dizer a ela e a todos que agora aderem ao FORA TEMER, antes tarde, do que nunca! Bem vindos 0/

No entanto, mesmo que o governo caia nos próximos dias ou nos próximos meses seu rastro já deixa marcas irreparáveis: Extinção de ministérios estratégicos como o da Previdência e o da Ciência e Tecnologia, Reforma regressiva do ensino médio, aprovação da lei que entrega o pré-sal pros gringos, enfraquecimento do Banco do Brasil dentre tantas outras medidas de maldade, sendo que a “obra prima” se manifesta agora com a PEC 55 e o desmonte da previdência.

Se a zoeira não tem limites, o CINISMO muito menos. Os golpistas insistirão na tese de que as reformas são “necessárias”, de que cabe ao povo sacrifício, é engraçado como o tal sacrifício sempre é exigido dos trabalhadores, nunca dos ricos, que seguem nadando em privilégios. Listamos, recentemente, 15 medidas que poderiam ser tomadas como alternativa a PEC da morte, a exemplo da instituição de IPVA sobre jatinhos, helicópteros e iates, da taxação das grandes fortunas, taxação de remessas de lucro para o exterior, dentre outras (ver aqui).

O Brasil se tornou a República dos bancos. Se antes 45 reais de cada 100 reais arrecadados pela União já servia para alimentar o corrupto serviço da dívida pública agora eles querem mais, a PEC 55 e a reforma da previdência nada mais faz do que liberar mais recursos para o corrupto sistema da dívida. Sem falar no saqueio que os bancos fazem de cada cidadão diariamente, como na criminosa taxa de juros do rotativo do cartão de crédito (mais de 400% ao ano!), os astronômicos juros do cheque especial, dentre outras maldades.

Em entrevista dada ontem, dia 11 de dezembro, para o Programa “Show Business” na TV Band (ver aqui) o presidente do Santander no Brasil Sérgio Rial disse que uma das medidas que o banco tomou recentemente para “ajudar as pessoas no contexto da crise” foi oferecer novo crédito para aqueles devedores que tinham imóveis “limpinhos” para dar em garantia. Ora, quanta “generosidade” desse senhor, ou melhor dizendo: quanta canalhice, quanto cinismo! Disse também que o futuro das agências bancárias é se tornar cada vez mais um “ambiente de negócios”, como na crescente clientela que vai buscar planos de previdência. Esses senhores mal escondem os seus interesses por trás do ataque à previdência pública!

Amanhã é dia da votação em segundo turno da PEC da morte. Devemos dar um ROTUNDO NÃO para esse Senado IMORAL, CORRUPTO e ANTIPOPULAR, feito por uma ordem de Calhordas como Renan Calheiros, e dizer que nesse país a PAZ será para nós, e a GUERRA PARA OS BANQUEIROS! Devemos dizer também, o TEMER VAZA! E vaza também todos os golpistas que quiserem seguir com essa agenda anti-povo, a agenda dos 1% de ricaços que vivem da tragédia do povo, devemos rejeitar todos os golpistas até surgir uma nova ordem que preserve e amplie os direitos sociais e que dê fim ao latifúndio, aos monopólios, ao imperialismo e a essa bancocracia que toma conta do Brasil.

Rememorando Carlos Marighella, é preciso ter não ter medo, é preciso ter coragem de dizer.

POR UM NATAL SEM TEMER!

NÃO A PEC 55 E A REFORMA DA PREVIDÊNCIA!

FORA TODOS OS GOLPISTAS!

Obs: Uma saudação especial aos estudantes secundaristas e universitários de Belo Horizonte que hoje, no dia 12 de dezembro, ocuparam o Banco Central contra a aprovação da PEC 55.

Alguém aí falou em guerra entre os poderes?

Por Vitor Hugo Tonin

Vitória de Renan no STF mostrou que quando ameaçam os objetivos centrais do golpe as divergências internas do consórcio golpista são varridas para baixo do tapete, onde jaz a constituição.

 

No turbilhão de fatos inéditos que aceleram a vida política brasileira desde junho de 2013 é cada vez mais difícil, e por isso mais importante, separar os acontecimentos dos fatos. Nunca é demais lembrar que política só se faz na conjuntura, daí a importância de uma análise de conjuntura bem calibrada.

Um acontecimento é aquele que revela contornos que são pouco nítidos. Desde o vazamento dos áudios de Sérgio Machado em suas conversas com Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros sabemos que a aliança entre a camarilha política e setores golpistas do judiciário se dá num contexto de conflito, de contradição. Foi o medo da Lava Jato que levou os congressistas do PMDB – incluindo aí Renan que não é muito chegado a Temer – e do PSDB – afinal, quem “conhece o esquema do Aécio” sabe “que será o primeiro a cair” – a se apoiarem no impeachment e num “grande acordo nacional, incluindo o STF, incluindo todo mundo!” para “estancar a sangria”.Portanto, este grande acordo nacional não navega em águas tranquilas.

Como acontece em todo agrupamento de forças, quando destruído o inimigo principal e alcançado seu objetivo comum as divergências internas começam a crescer e ganhar dominância. Estaríamos nesse momento?

Tudo começou com a aprovação na Câmara do pacote anticorrupção, que foi complementada pelo pedido de urgência do Renan no Senado. Foi uma bela trucada dos parlamentares em cima da fração golpista do judiciário que, por sua vez, decidiu se rebelar. Primeiro, os procuradores da lava-jato foram a público chantagear o congresso. Depois, no domingo, colocou seu exército nas ruas (aliás, como diminuiu, hein?), para exigir o Fora Renan. Por fim, é Marco Aurélio Mello, juiz do STF, mais por convicção que por conveniência, que retruca contra o congresso: na segunda-feira ele expediu a liminar  que destituía Renan da presidência do Senado. Renan, que já está na mesa no jogo há muito mais tempo, pagou pra ver. Na quarta-feira, quando Marco Aurélio mostrou suas cartas viu que seus parceiros no Supremo estavam, na verdade, blefando.

Neste meio tempo figuras públicas de Kinta Kategoria, que foram às ruas no domingo pedir Fora Renan, ficaram amedrontadas com a possibilidade de que sua exigência poderia se tornar realidade. Não era para nos levar tão sério, disseram. Patetice completa! Revelaram mais uma vez que são uma farsa.

O enigma, portanto, está em conseguir responder por que estes setores que avançaram tanto sobre Renan não foram até as últimas consequências e ficaram ao lado de Marco Aurélio? A capacidade de responder essa questão é que faz desta sucessão de fatos, um acontecimento. Ela nos revela que as divergências internas ao consórcio golpista ainda são menores que seus objetivos comuns. A destituição de Renan poderia causar problemas na aprovação da PEC 55 do Fim do Mundo. Não a toa, quando volta à presidência Renan resolve mostrar serviço, realiza três seções em um dia, mantendo a votação final da PEC para o dia anteriormente marcado. Busca demonstrar ao conjunto de forças aliadas que, apesar de tudo, ele é o mais eficiente para este posto.

Renan ficou, mas isso não significa que o judiciário foi derrotado. Nessa rodada do jogo, os procuradores e juízes da lava-jato conseguiram manter assegurado seus “direitos” de abusar da sua autoridade e de receber supersalários. Nada mal, não?

Não há, portanto, uma guerra entre poderes. Há um consórcio golpista que tomou o poder e instalou um Estado de exceção. Enquanto houver um projeto unificador ele se manterá. Sob tempestade, é certo. Assim como também é certo que durante esta tempestade a aliança Moro-Tucana busca, e tem conseguido, se fortalecer dentro deste consórcio para dirigir o navio quando, e se, chegar a calmaria.

Banco Central eleva novamente a taxa real de juros no Brasil

Por Vitor Hugo Tonin

Diferente do que vão dizer amanhã os grandes meios de comunicação, a decisão do Banco Central hoje elevou novamente os juros reais no Brasil. Algo que vem acontecendo desde janeiro de 2016. São, portanto, 8 encontros do Copom de seguidas decisões em elevar as taxas de juros reais no país.

Para entender como agem os ilusionistas do Banco Central é preciso entender a diferença entre taxa nominal e taxa real de juros. A taxa nominal básica de juros estava em 14,25% ao ano em janeiro de 2016. Naquele momento a inflação acumulada era de 10,95%. Hoje o Copom decidiu que a taxa nominal de juros será 13,75% contra uma inflação acumulada para novembro estimada em 7,19%, segundo a estimativa do boletim Focus. Para entender a ilusão veja a pequena tabela abaixo comparando a evolução da inflação e da taxa de juros.

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Observe a última coluna. Os juros reais eram de 3,2% em janeiro quando já eram os maiores do mundo. Agora com a decisão do Banco Central os juros reais básicos alcançaram 6,12% ao ano. Um aumento de 91,4%! A taxa real de juros na Rússia, China e México, países que vem logo atrás do Brasil no ranking mundial, é 3,68%, 2,2% e 2,12% respectivamente. Não há tecnicalidade nenhuma que explique que os juros reais praticados no Brasil seja 188,68% maior que a do México. Somente a cara de pau de economistas bancados pelos beneficiados por essa política é que lhes fornecem cinismo suficiente para elaborar qualquer explicação ilusória para isso.

A verdade é que a política econômica do governo Temer e sua equipe de banksters (banqueiros+gangsters) formada por Meirelles na Fazenda e Goldfajn do Banco Central continua sendo privilegiar os rentistas e banqueiros em detrimento da produção, do emprego nacional e dos direitos sociais. É uma política econômica de classe contra a nação.

O “intercomunalismo revolucionário” dos Panteras Negras

Por João Telésforo

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Conheça os “Programas de Serviço ao Povo” do Partido dos Panteras Negras: http://www.caringlabor.files.wordpress.com/2010/09/hilliard-ed-the-black-panther-party-service-to-the-people-programs.pdf

É provável que o Partido dos Panteras Negras (The Black Panthers Party, BPP) tenha sido a organização revolucionária mais importante da história dos Estados Unidos. Apesar disso, e por mais que tenhamos os olhos vidrados no que vem de lá, boa parte da militância de esquerda não conhece a fundo essa experiência, para além de sua estética marcante e sua prática de autodefesa popular armada, contra a violência sistemática de que a população negra era e é alvo. Dois elementos fundamentais de sua estratégia, mas que, tomados isoladamente, podem alimentar instintos esquerdistas, performances e símbolos, mas não necessariamente como partes de um compromisso e horizonte revolucionários.

A estratégia de construção de poder popular dos Panteras Negras era ampla e sofisticada. Diferente de parte da esquerda, não viviam apenas de fazer propaganda, “acompanhar” ou “apoiar” lutas (como fazem alguns dos nossos partidos, mantendo-se em posição exterior a elas), disputar eleições e aparatos. Seus impressionantes “Programas de Serviço ao Povo”, atrelados a uma estratégia de organização comunitária, têm muito a nos ensinar: redes de cafés-da-manhã, serviços de saúde, educação, advocacia, emprego, vestuário para as comunidades negras. Não se tratava de “assistencialismo”, mas de o povo construir sua própria organização política, mediante a qual avançava na solução de seus problemas, experimentava uma mostra de sua potência coletiva, forjava outra qualidade de poder, e se fortalecia, material e subjetivamente, para a luta revolucionária. É possível conhecer um pouco desses programas neste livro: http://www.caringlabor.files.wordpress.com/2010/09/hilliard-ed-the-black-panther-party-service-to-the-people-programs.pdf.

No prefácio à obra, Cornel West destaca três características do BPP: (i) ele falava para as necessidades e esperanças das comunidades locais, fazendo a conexão entre suas preocupações imediatas e a luta contra a opressão e exploração estruturais; (ii) tratava-se de uma organização interracial, aberta a alianças estratégicas e coalizões táticas com militantes progressistas de quaisquer cores; (iii) era internacionalista, pois “entendia o apartheid americano à luz das lutas anti-imperialistas ao redor do mundo, em especial na Ásia, África e América Latina”.

Sobre esse último ponto, o BPP criou a concepção teórico-estratégica do “intercomunalismo revolucionário”, que partia do reconhecimento de uma contradição entre “o pequeno círculo que administra e lucra do império dos Estados Unidos e os povos do mundo que querem determinar seus próprios destinos”. As palavras entre aspas são de Huey Newton, fundador e um dos líderes do BPP, segundo quem o partido evoluiu do “nacionalismo negro” para o “nacionalismo revolucionário”, então ao “internacionalismo” – ao se entender como parte das lutas por libertação nacional por todo o mundo, como destacou Cornel West – e, por fim, ao “intercomunalismo revolucionário”. Neste artigo, de onde retirei essas informações, é possível ler um pouco sobre as relações dialéticas desta trajetória com o maoísmo, tradição do marxismo que tomavam como uma de suas fontes destacadas, junto ao pensamento de Malcom X.

Vale a pena pensar as relações entre o “intercomunalismo revolucionário” do BPP e concepções que têm ganhado notoriedade em alguns círculos da esquerda, como a do “confederalismo democrático” do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), as do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), no México, bem como de uma infinidade de outros setores – povos indígenas, feminismo comunitário, e vários outros – que têm apostado na construção do poder comunal e, simultaneamente, em discursos e ferramentas de mobilização transnacionais.

A necessidade de repensar a estratégia da esquerda não deve nos conduzir a fazer tábula rasa do passado, movidos por uma busca desesperada pelo “novo”. Não se trata simplesmente de aderir às concepções anteriores e atuais, nem deixar de pensá-las criticamente, nos limites e insuficiências que possam ter; mas a crítica deve estar atenta também à positividade dessas experiências e formulações, em especial àquelas que nunca alcançaram a visibilidade merecida, muitas vezes devido a epistemologias racistas implícitas que nos condicionam.

Leia também, aqui no Blog: Por uma esquerda ‘assistencialista’; Pentecostalismo e luta popular.