Depois da Rio 2016: haverá legado esportivo no Brasil do Golpe?

Por Roberto Santana Santos

Terminada a grande festa do esporte mundial no Rio de Janeiro, devemos realizar um olhar atento sobre o esporte brasileiro. Foi a melhor participação do país em Olimpíadas da história (7 ouros, 19 medalhas no total). O Brasil ficou entre os 15 melhores no quadro de medalhas (13° lugar). Medalhamos em esportes que nunca tivemos nenhuma tradição, como canoagem, tiro e taekwondo.

O esporte olímpico brasileiro nunca recebeu tantos incentivos e recursos como no último ciclo olímpico. Justiça seja feita, os governos de Lula e Dilma criaram uma série de programas (Segundo Tempo, Bolsa Atleta entre outros), que permitiram garimpar novos talentos e fazer com que os/as atletas de alto rendimento se dedicassem integralmente aos treinamentos e competições, além do investimento em instalações, intercâmbios e equipamentos. Um dos heróis olímpicos do Brasil, Isaquias Queiroz (3 medalhas na canoagem) começou a treinar justamente em um dos programas do Governo Federal.[1] Notório foi também a participação dos atletas junto às Forças Armadas, responsável por mais da metade das medalhas.[2]

O resultado histórico do Brasil mostra o quanto estamos aquém das nossas possibilidades. Se um investimento de quatro a seis anos nos permite ficar entre os quinze melhores e conseguir medalhas em 12 esportes diferentes, um país com recursos e população como Brasil tem tudo, a longo prazo, para figurar sempre entre os dez melhores dos Jogos.

Aí está o problema. O desafio é manter o nível. Mais do que isso. É alocar o esporte no seu espaço de direito, o de transformador social e gerador de um sentimento de coletividade para superar desafios. Isso perpassa pela valorização da educação física e seus profissionais em escolas e universidades, um trabalho de base de todas as federações esportivas (várias delas dominadas por verdadeiras máfias há décadas), e um programa olímpico sério do Governo Federal, desde o trabalho de base até o apoio ao esporte de alto rendimento. Nenhum país potência olímpica chegou a esse status sem uma política pública séria e constante.

O apagar das luzes da Rio 2016 nos preocupa, ao pipocar na imprensa os retrocessos do governo golpista de PMDB-PSDB que já prometem andar para trás também na área esportiva. O Ministério do Esporte, sem discussão e comunicação prévia, suspendeu vários editais para depois das Olímpiadas, deixando atletas sem futuro e confederações com planejamentos prejudicados.[3] O futebol feminino, uma das modalidades que mais sofrem com falta de investimento e preconceito, está com sua seleção principal permanente ameaçada, pois um dos dirigentes disse que a modalidade “não decolou”, mesmo tendo emocionado o país e lotado os estádios (mais do que o maltratado Brasileirão).[4]

O sucesso do Brasil na Rio 2016 pode ser o início de uma potência nos Jogos, ou uma enorme decepção, se o investimento feito até agora for paralisado. Os retrocessos na política e na sociedade brasileira ameaçam também o nosso esporte. Importante também o destino das instalações esportivas construídas para os Jogos, que podem ser importantes centros de treinamento para nossas atletas, ou virarem elefantes brancos.

Por fim, vale notar que poucos dos nossos medalhistas se encaixam no perfil homem-branco-heterossexual. Vimos as medalhas serem entregues a atletas negros, pardos, mulheres, homossexuais, nordestinos, com grandes histórias de superação e luta contra oponentes cruéis, como o racismo, preconceito e as adversidades do subdesenvolvimento brasileiro (Rafaela Silva e Maicon Andrade, por exemplo). Não há aqui nenhuma surpresa. Os/as medalhistas apenas refletem a diversidade do povo brasileiro, invisível apenas para uma fração arrogante e racista de nossa população, minoritária em números, mais grande em poderes e privilégios. [5]

Roberto Santana Santos é historiador, doutorando em Políticas Públicas pela UERJ. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

[1] http://www.revistaforum.com.br/2016/08/21/atletas-da-canoagem-atribuem-medalha-a-projeto-de-lula-ao-vivo-na-globo/

[2] http://espn.uol.com.br/noticia/624634_r-18-milhoes-e-684-das-medalhas-forca-militar-impulsiona-podios-no-rio-2016

[3] http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2016/06/07/esporte-suspende-verba-para-pos-olimpiada-e-revolta-confederacoes.htm

[4] http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/bastidores-fc/post/cupula-da-cbf-discute-extincao-de-selecao-permanente-de-futebol-feminino.html

[5] http://espn.uol.com.br/post/624325_olimpicas-9-com-muito-orgulho-com-muito-amor

Paulinho da Viola e a emoção do hino nacional

Por João Telésforo

Como não se emocionar com a voz de Paulinho da Viola entoando o hino nacional brasileiro?
 .
Não é de hoje que a esquerda tem problemas com o nacionalismo, e por razões bastante justificadas: o sentimento nacional tem sido manipulado, ao longo de séculos, para legitimar guerras, invasões imperialistas, colonialismo interno e racismo, repressão ao pluralismo político e à expressão democrática dos conflitos sociais. Agora mesmo, vemos novamente um governo proclamar-se como de “salvação nacional” enquanto planeja a destruição de direitos trabalhistas, a aceleração da entrega do petróleo e das terras brasileiras para os gringos.
 .
Não só a “esquerda” (ao menos em sentido mais estrito); vários grupos historicamente oprimidos em nome do “interesse nacional” têm ainda mais razões para desconfiar do discurso patriótico ou patrioteiro de um projeto de integração nacional homogeneizador, que busca destruir ou domesticar as resistências coletivas de povos indígenas, negros/as, trabalhadores/as sem-terra, dissolvendo-as na impotente identidade individual do “cidadão”, súdito mais sofisticado do Estado e do mercado.
 .
Diante disso, um setor dogmático da velha esquerda afirma que o nacionalismo é ideologia, logo reduz-se a “falsa consciência”, “alienação” fabricada para justificar as relações sociais de exploração e opressão; portanto, deveríamos simplesmente esconjurá-lo, como arma do inimigo, e proclamar o “internacionalismo proletário”. Nesse caso, o que fazer com a emoção que sentimos ao ouvir Paulinho da Viola cantar o hino nacional, na abertura das Olimpíadas?  Tentar superá-la? Fingir que não existe? Desprezá-la, como se fosse mero assunto de foro íntimo?
 .
O problema maior da redução da ideologia à “falsa consciência”, condição “alienada” a ser superada, não está em sua extrema pobreza intelectual e explicativa; mais preocupante é sua inépcia política, evidenciada pelo isolamento dos grupos portadores dessa concepção sobre as ideologias, de forma geral, e o nacionalismo, em especial.
 .
As emoções que sentimos em comum, entre milhões e milhões de pessoas, vinculadas ao pertencimento a uma formação socioespacial – este Brasil que nós amamos -, são portadoras de uma potência política extraordinária. Por mais piegas que seja a afirmação, é preciso reconhecer o fato e retirar dele todas as consequências necessárias, para que a alma brasileira, com “muito orgulho e muito amor”, não continue a ser roubada por aqueles que atentam contra os interesses e direitos das amplas maiorias sociais do país, em toda a sua diversidade.
 .
É necessário construir outro projeto para o Brasil, um projeto de dignidade e soberania – não a velha “soberania” como meio para a afirmação do Estado contra comunidades e povos, mas sim de edificar a autonomia necessária para que tracemos nossa própria história, abandonando o caminho da subserviência, do entreguismo, do colonialismo.
 .
Outro projeto, no entanto, não basta, nem tampouco será gestado por obra de meia dúzia de especialistas ou dirigentes de alguma “vanguarda”. Seu amálgama depende do envolvimento de multidões aglomeradas por interesses, mas também por sentimentos, práticas culturais e vínculos afetivos; por um imaginário que deve avançar não a partir de alguma formulação abstrata de “consciência verdadeira” à qual a realidade deva encaixar-se (segundo um velho método idealista rechaçado por Marx), mas da observação de como se movem as tendências contraditórias da sociedade, também no plano ideológico, para que possamos intervir nela de forma (auto)crítica.
 .
Se a negação abstrata do sentimento nacional e de um projeto de país são contraproducentes, também o é a tentativa de apropriação acrítica das armas ideológicas do inimigo. Nossa defesa do Brasil e de suas gentes deve antagonizar com o discurso pseudo-nacionalista das classes herdeiras da Casa Grande, mas não apenas no conteúdo: deve encontrar também, no leito histórico de nossa produção comunitária, política e cultural subalternizada, sua própria forma, estilo, estética – seu próprio tom, como o de Paulinho da Viola. Não para reproduzir, uma vez mais, a história de apropriação e reciclagem das estruturas opressoras, mas como fermento dos processos de luta por emancipação que estão em marcha no andar de baixo, forjando um país para si no cotidiano de resistência e invenção coletiva.
 .
Mátria Livre, venceremos!
 .

PS: não pretendi fazer, aqui, uma análise geral das Olimpíadas nem de sua abertura. Recomendo assistir a este vídeo do Brasil de Fato. Assinalo, por fim, que este texto foi inspirado por esta afirmação  de Luiz Simas: “Desde Osório Duque Estrada o Brasil procura uma maneira de cantar o hino nacional. Paulinho da Viola achou ontem. É isso”. Obviamente, isso não o torna responsável pelas ideias e opiniões que emiti aqui.

O CONGRESSO DO GOLPE

Por Sammer Siman

O que parece ser o início do fim da novela Cunha a partir de sua renúncia da presidência da câmara ajudou a revelar um dado importante: Cunha não é a encarnação do mal do Brasil, pois o que não falta é parlamentar mau caráter e submisso para fazer o serviço sujo e cumprir a agenda do golpe conformada pela questão do Petróleo, da Renda e dos Privilégios, como bem sintetizou Pedro Otoni em artigo recente.

Outro dado, revelado pelas manifestações de ontem (31 de julho) reflete uma queda de prestígio da direita capitaneada pelos movimentos Vem pra Rua, Revoltados Online e outros aglomerados liberais que outrora conseguiram, junto com a mídia golpista, mobilizar setores sociais que legitimamente almejam o fim da corrupção, como deve ser.

Restou agora uns PATOS pingados que não hesitaram em botar a cara para defender o usurpador, golpista e informante da CIA Michel Temer, agora mais conhecido como MiShell Temer, dado sua subserviência às petroleiras internacionais comprovada na última quinta-feira por meio da sorrateira entrega de blocos de exploração do pré sal para a gringa norueguesa Statoil por uma ninharia de 2,5 bilhões de reais, um valor que corresponde a pouco mais de um dia do que o governo paga de juros da dívida pública para a Casa Grande e para a Casa Branca.

Já a mídia golpista parece ter descoberto as portas do paraíso e tele transportou todo o povo brasileiro para o mundo de Alice e suas maravilhas. O desemprego, que segue ampliando dramaticamente (11,4 milhões – conforme aponta esse artigo recente de Clemente Ganz Lúcio do DIEESE) e a crise econômica que outrora inundou os noticiários soa agora como um detalhe irrelevante, personagens eternos da TV como Willian Bonner e Willian Waack transformaram-se numa espécie de yorkshire frente ao governo Temer, abdicando da condição de pitbull do passado. A corrupção já parece não ser um problema nacional e os áudios vazados de golpistas confessos não causam nenhum tipo de comoção.

E agora, com as olimpíadas a vista, tudo indica que entraremos numa espécie de êxtase, em mais um megaevento que escancara a corrupção de prioridades de governos que sacrificam seu povo (a exemplo dos reiterados atrasos e cortes que vem sofrendo o funcionalismo público do Rio de Janeiro), nisso que promete ser um festival de nados e saltos enquanto que para a grande massa do povo brasileiro restará a vara, cravada em nossos bolsos.

A Casa Grande brasileira definirá, em breve, o ritmo da violenta luta de classes que promete se desenrolar no próximo período. Ao que tudo indica cerrou fileiras de maneira definitiva para garantir a aprovação do impeachment no Senado e apostará suas fichas no inóspito Temer, o vassalo sem voto e ficha suja que tem a cultura como inimiga e os banqueiros como aliados.

Quanto a nós, uma convicção é certa: O Temer VAZA!! Do contrário é meter fogo no engenho ou ver a revogação da lei áurea acontecer por meio do fim da CLT e do direito de aposentar. O retorno da Dilma trata-se da saída constitucional neste momento e, com plebiscito ou sem plebiscito, resta a nós construir de maneira decidida uma agenda popular que aponte saída para a crise independente de governo.

A propósito, daqui por diante a “condição para governar” de qualquer presidente deverá vir das ruas, pois o congresso do golpe só pode estabilizar os interesses da Casa Grande, não podemos esperar nada de um congresso conformado por uma maioria de playboys que tramam diuturnamente contra os interesses do povo brasileiro, a exemplo do PL 257 que está neste momento na pauta e promete arrasar com o serviço público no Brasil.

Está mais que provado também a saída não está nas mãos do PT, nem muito menos do PMDB e do PSDB, a saída está na superação deste regime político organizado pelo latifúndio, pelos monopólios, pelo imperialismo, pelo racismo e pelo patriarcado, a saída está na conformação de um amplo movimento de massas que consagre a soberania e o bem viver do povo.

Mobilizemos a esperança, aumentemos nossas apostas! O amor vencerá o ódio e o amanhã será maior.

31 julho

Ato Fora Temer, São Paulo, 31 de julho. Fonte: Frente Povo Sem Medo

Escola sem partido: A mentira, a ignorância e a disputa ideológica.

Por Rodrigo Santaella

O projeto de lei conhecido como “Escola Sem Partido” tem, nos últimos meses, gerado bastante debate na sociedade brasileira. O que preocupa muito à enorme maioria daqueles e daquelas que trabalham com educação no Brasil são as consequências pedagógicas de dita ideia. Para melhor compreendê-las, é preciso seguir pelo menos três passos: conhecer o projeto; perguntar-se aceca das forças sociais que estão por trás dele; e refletir de forma sistemática sobre o que se entende como sendo o papel da educação.

O projeto, propositalmente, apresenta uma roupagem inocente: afirma defender apenas que o professor não se aproveite da fragilidade dos estudantes para impor ou favorecer seus próprios interesses ideológicos, e para isso propõe algumas medidas concretas, em busca de garantir uma suposta “neutralidade política, ideológica e religiosa”. Essa roupagem pode enganar ou seduzir pessoas menos atentas. Realmente, não é recomendável que o professor use a sala de aula como palanque político, reprove estudantes por terem opiniões contrárias às dele ou deixe de apresentar diversas vertentes interpretativas sobre os fatos. Entretanto, como os próprios defensores do projeto afirmam, tudo isso já está legislado no Brasil. Então qual o verdadeiro objetivo do “Escola Sem Partido”? Para compreender o sentido de um texto ou de uma ideia, é preciso analisar as forças sociais que dão materialidade a ela. No caso deste projeto, é fácil perceber que as principais forças que o defendem são setores fundamentalistas religiosos, defensores de um exacerbado “liberalismo econômico” e setores conservadores em geral. Em comum entre eles, o fato de se reivindicarem politicamente de direita.

Ao analisar o que há de comum entre essas forças, fica nítida a primeira característica importante do projeto: ele é profundamente ideológico, no sentido de que ao buscar afirmar a defesa da neutralidade e a pluralidade de ideias, no fundo busca combater as diversas vertentes de esquerda, defensoras de direitos humanos, presentes na educação. Isso, por si, já demonstraria o caráter mentiroso do projeto. Mas o próprio texto fala por si e cai em contradições importantes, daí a importância de conhecê-lo. No Art. 3º, está expressa a seguinte pérola: “O Poder Público não se imiscuirá na orientação sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo (…)”. Ora, aqui aparecem claramente as posições ideológicas dos setores fundamentalistas conservadores. Que busca por neutralidade é essa que considera “natural” o desenvolvimento de uma certa personalidade relacionada a uma certa “identidade biológica de sexo”? Qual é o grande manual do mundo que explica quais são as personalidades condizentes e harmônicas com as respectivas identidades biológicas de sexo? O manual no qual esses setores se baseiam são sobretudo os princípios de doutrina de suas religiões. Se o grande argumento do projeto é contra a doutrinação nas escolas, seu Art.3º explicita nitidamente que o que se defende é justamente uma forma determinada de doutrinação.

A mentira do “Escola Sem Partido” só tem lastro na sociedade por conta de várias formas de ignorância. É claro que a crise social, política e de certa forma civilizatória que vivemos não só no Brasil cria condições para a ascensão de ideias fascistas ou similares. A crise leva à insegurança e ao medo, este leva ao desespero, e o desespero é a característica de quem nada espera. Quem nada espera aceita qualquer coisa. Esse pano de fundo somado à ignorância geral sobre a situação da educação no Brasil (que está longe de ter como seu principal problema as ideias que os professores proferem em sala de aula) e à ignorância de nossos representantes e desses setores sobre os principais debates pedagógicos feitos nos últimos 50 anos no Brasil e no mundo criam essas condições. A forma como Paulo Freire, o brasileiro mais traduzido no mundo inteiro, é ridicularizado (e não contra-argumentado, rebatido) pelos defensores do projeto é uma mostra quase que caricatural dessa ignorância.

Pois bem, o que a mentira e a ignorância em conjunto impedem de perceber é que o que está em curso é justamente uma disputa ideológica. A ideia de neutralidade nas ciências foi vencida no debate sociológico há mais de 100 anos. Para falar apenas de dois clássicos, se foi Marx que buscou demonstrar como as ideias estão sempre vinculadas aos interesses das forças sociais em disputa na sociedade, foi um pensador nada revolucionário, como Max Weber, que buscou construir um arcabouço metodológico que desse conta justamente da impossibilidade de neutralidade na construção das ciências humanas. A ideia de neutralidade como princípio para a educação, desde que esse debate foi encerrado no campo das ciências humanas, sempre vem acompanhada ou de uma auto-ilusão, quando realmente se acredita na sua possibilidade, ou de má-fé, quando se utiliza desse mote para afirmar posições políticas nada neutras. A má-fé caracteriza os idealizadores do “Escola Sem Partido” e a auto-ilusão muitos de seus seguidores.

Não convenceremos os seus idealizadores, porque eles têm um projeto de sociedade e de mundo claro, e muito bem baseado em seus interesses. Mas precisamos conversar com todas aquelas e aqueles que enxergam nessa empreitada uma busca pertinente pela neutralidade. E para isso, precisamos discutir o papel da educação. Queremos formar máquinas reprodutoras de mesmices, indivíduos mecanizados que repetem o que seus professores dizem ou o que veem nos jornais? Ou queremos formas sujeitos autônomos e críticos, que possam, a partir e sua própria capacidade de reflexão, posicionar-se diante dos dilemas do mundo, do mercado de trabalho, enfim, da vida? Se a resposta é a segunda, é preciso que todos compreendamos que não existe possibilidade de formar sujeitos críticos, sejam eles de direita, de esquerda ou de qualquer coisa, a partir de um ideal de neutralidade. Pelo contrário, é necessário que se apresentem as diversas visões de mundo, que o professor(a) não esconda suas próprias convicções e suas bases, mas sim as apresente de forma que os estudantes possam, criticamente, compreendê-las e formas sua própria forma de perceber o mundo. O maior risco a uma educação crítica e em busca da autonomia é esconder convicções sob o manto da neutralidade, de forma que as coisas apareçam como “naturais”.

Se é preciso respeitar o “direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções”, é preciso também compreender que o papel da educação da família é um, e o da escola é outro. A família ensina os seus valores, suas tradições, uma forma particular de se colocar diante dos outros e do mundo. O papel da escola é ensinar sobre esse mundo, para a convivência com o que é diferente, com o que incomoda, com o que o estudante vai encontrar ao longo de sua vida. A escola ensina o diferente, o não familiar. Para isso, a educação precisa apresentar fatos, interpretações, convicções, que muitas vezes serão diferentes das da família. Essas diferenças são formadoras de personalidades mais complexas, e sobretudo de personalidades autônomas.

No fundo, essa é a disputa ideológica que está em jogo. De um lado, sob o manto da neutralidade, a defesa de uma educação vazia e do cerceamento do trabalho dos professores, encampada por setores conservadores da sociedade. De outro, a busca – a partir de diversas perspectivas teóricas, políticas, acadêmicas – por contribuir com a formação de sujeitos críticos e autônomos. Nessa questão, assim como em todas as outras, não há imparcialidade possível, ou lado neutro. Os defensores do “Escola Sem Partido” já tomaram partido há bastante tempo. E você?

escola sem partido

O novo peleguismo e os movimentos prisioneiros da conjuntura

Por Helder Gomes

Tanto o Novo Sindicalismo como os diversificados movimentos populares que surgiram da penosa resistência à ditadura pós-1964 foram derrotados diante da opção das esquerdas brasileiras em priorizar as disputas institucionais. Durante o movimento de expansão das lutas, na virada para os anos 1980, difundiu-se Brasil afora novos instrumentos pedagógicos de formação de quadros e de informação das massas, com um trabalho intensivo e abrangente de militância nos locais de trabalho e nas mais diferenciadas comunidades, onde se desenvolviam as forças vivas da revolução brasileira. Rapidamente, foi possível espalhar a denúncia do peleguismo varguista e a indicação de instrumentos capazes de superar o corporativismo e a tutela do Estado sobre a organização sindical, no sentido de sua interação com as lutas por moradia, por reforma agrária e pela universalização de serviços públicos essenciais de qualidade. Do movimento das Diretas Já! até a promulgação da Constituição Cidadã, portanto, em meia década, foi possível inverter toda aquela riqueza de construção revolucionária, substituindo-a pela busca de expansão da cidadania, nos limites da ordem capitalista dependente.

O recuo estratégico logo ficou mais nítido no movimento sindical. Recuadas, mas, preocupadas com a manutenção do poder que supostamente passaram a exercer sobre suas respectivas bases, as novas lideranças dos anos 1980 foram gradativamente migrando para atividades institucionais, sem, no entanto, descuidar do controle dos agora convertidos aparelhos sindicais. Capturadas, junto com a economia brasileira, pela armadilha da especulação parasitária, grandes nomes do antigo Novo Sindicalismo passaram a ser encontrados nas listas dirigentes de grandes cooperativas de crédito e fundos de pensão, após uma temporada de requalificação nas escolas tradicionais da banca internacional, sem a qual não conseguiriam operar em mercados especulativos de alto risco. Outras se tornaram grandes personalidades nos parlamentos e nos executivos municipais, estaduais e federal, além de muitas delas estarem presentes nos conselhos de administração de empresas campeãs nacionais. Foi a partir dessa mutação, inclusive, que se substituiu a negação do slogan dos militares do País que vai pra frente pelo sonho institucional do Brasil-potência, que não sucumbiria a meras marolinhas.

No campo de atuação dos movimentos populares, não sindicais, tem sido apontada a forma como ocorreu a intensificação de requalificação de algumas de suas lideranças, convertidas em eficientes captadoras de recursos para projetos de consequência imediata e reparadora, aproximando certas instâncias operacionais dos modelos das ONGs proprietárias, exigindo certo nível de profissionalização. Esses parecem ter sido alguns dos fatores a contribuir para a substituição da pedagogia freiriana pela agressividade didática do novo peleguismo de resultados, cuja base de sustentação passou a ser o retorno da conciliação com o patronato/proprietário e a conversão de seguidas derrotas efetivas em supostas vitórias possíveis ante às adversidades da crise econômica mundial.

De outro lado, a enxurrada de orientações reformistas, que passaram a acompanhar a ideia do fim da centralidade do trabalho, com a suposta emergência da sociedade do conhecimento, do trabalho imaterial etc., traria de forma transversa para o interior das lutas populares a concepção de que estaríamos diante de uma nova lógica de desenvolvimento natural, rumo a uma sociedade pós-capitalista, a partir da qual não faria mais sentido cuidar de qualquer perspectiva de ação revolucionária.

Diante disso, em busca de um choque de realidade, talvez devêssemos pensar na possibilidade de escaparmos das aparências, indo além das disputas conjunturais, em busca das raízes estruturais dos desafios que temos pela frente, sem medo, inclusive, de criticar as interpretações vazias de conteúdo, reiniciando uma trajetória ainda mais ousada que aquela da virada dos anos 1980, na formulação de soluções para as armadilhas que nos enredamos nas últimas décadas.

 

Banco Central decide elevar novamente os juros no Brasil

Por Vitor Hugo Tonin

Juros reais já subiram mais de 60% e ainda podem dobrar até o final do ano.

Ilan

Ilan Goldfajn, funcionário do Itaú que “invadiu” a presidência do Banco Central sambando na cara do povo brasileiro.

O título do presente texto seria a manchete dos jornais se tivéssemos algo de imprensa livre no Brasil. Como não temos, todos os jornais estamparam a manchete que interessa aos seus senhores, os grandes bancos e especuladores: Estamparam que a taxa de juros estaria estável, no mesmo patamar há 12 meses. Mas a verdade é que ao manter os juros nominais com queda significativa da inflação o Banco Central está decididamente elevando os juros reais nas últimas cinco reuniões do Copom.

grafico

Os economistas e os jornalistas, seus principais cúmplices, sabem muito bem disso. Por que então não se divulgam os dados reais? Na verdade, o Banco Central vem promovendo uma política de elevação das taxas reais de juros desde janeiro deste ano. No acumulado dos seis primeiros meses a taxa real de juros cresceu quase 60%. Um verdadeiro programa de aceleração do rentismo!

tabela

Se a taxa nominal de juros se mantiver neste mesmo patamar até o final do ano Ilan Goldfajn terá alcançado a proeza de dobrar a taxa de juros reais num país em grave recessão. Isso porque a previsão dos próprios rentistas é de que o IPCA feche o ano de 2016 em 7, 21%, segundo o relatório Focus do Banco Central, também divulgado hoje. Mantida a Selic em 14,25% isso significa que passaremos de uma taxa de juros real de 3,20 para 6,57% aa. E assim vamos nos distanciando cada vez mais assumindo a liderança isolada das taxas de juros mundiais, seguidos de longe pela Indonésia (2,95%), Rússia (2,79%) e China (2,40%).
temer

– Não fale em crise, trabalhe! – Mas aonde???

Segundo a ata do Comitê divulgada hoje o principal motivo em manter a Selic no mesmo patamar seria a queda lenta da inflação causada principalmente pela alta dos preços dos alimentos. Segundo o raciocínio ortodoxo elevar a taxa de juros estimula as pessoas a pouparem em vez de gastarem. Isso reduziria a demanda e com isso os preços. Nessa lógica, o povo brasileiro deve deixar de consumir alimentos até que seus preços caiam. Mas com fome ninguém consegue poupar (lição elementar, mas ausente nos manuais de economia), logo a única maneira de fazer esse povo parar de consumir é elevando o desemprego, reduzindo salários, benefícios e direitos. Parece mentira, mas é justamente nisso que aposta o Banco Central:

“Por outro lado, o processo contínuo de distensão do mercado de trabalho e a desaceleração significativa da atividade econômica podem, a princípio, produzir uma desinflação mais rápida (por exemplo, no setor de serviços) do que a refletida nas expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus e nas projeções condicionais produzidas pelo Copom.”(Ata do Copom, p.4)[1]

[1]     Disponível em: http://www.bcb.gov.br/htms/copom/not20160720200.PDF

adeus emprego

Adeus empregos…

Na prática, no jogo real da luta de classes, isso significa que os privilegiados que recebem rendimentos de títulos do tesouro ou lastreados pela taxa Selic dobrarão seu poder econômico, enquanto a massa de trabalhadores brasileiros sofrem com o desemprego e com a corrosão dos salários. Esse é o objetivo da política monetária do governo ilegítimo: elevar os ganhos dos banqueiros e rentistas, aumentar os privilégios, aprofundar o grau de parasitismo da economia brasileira enquanto de outro lado continua achatando os salários e retirando direitos aprofundando ainda mais a desigualdade social e econômica da nação.

5 golpes na África carioca

Por Gabriel Siqueira

“Ofendem

São intolerantes

Marginalizam só pra variar

Dizendo favela é local suspeito

Por isso vou lhe revistar”

                                                                                                  Mr Catra, 1997

Estudantes protegem-se de tiroteio em escola no Complexo da Maré
Estudantes protegem-se de tiroteio em escola no Complexo da Maré

Há dois anos o Exército brasileiro, o braço forte, mas não se viu a mão amiga, iniciava uma ocupação territorial do Complexo da Maré. E não só lá. As Forças Armadas ocuparam e sitiaram muitos territórios negros da cidade do Rio de Janeiro. Isso que chamo de África carioca são as periferias, favelas, vilas, bairros e conjuntos predominantemente negros[1].

Ontem e anteontem mais cenas desta ocupação militar, seja exército ou PM. Continuamos sem Estado, sem Políticas Públicas. Continuamos reféns do fuzil nas mãos negras, vítimas das balas que perfuram corpos negros, uns com e muitos outros sem farda. De ambos os lados, morem pretos e pobres.

1. Ontem, no Morro do Borel, Complexo da Tijuca, outra vítima de uma “aparente” confusão da PMERJ que confundiu um saco de pipoca com uma trouxa de drogas. A única certeza que temos é que a história se repete; Um tiro na cabeça pra matar foi dado pelos policiais que, em seguida, deram mais dois para um beco qualquer com intuito de forjar um tiroteio. Prática constante, aliás, já está provado que os tiroteios e números de vítimas de violência nas favelas pacificadas aumentaram. Os autos de resistência aumentaram em mais de 90% no Rio de Janeiro[2].

2. Na maré, alguns tiroteios nas favelas do Parque União, Rubem Vaz, Nova Holanda e Baixa do Sapateiro. Uma agente comunitária baleada, e mais de 20 mil pessoas sitiadas em suas casas, escolas e procurando se esconder dos tiros.

3, 4 e 5. Três das principais unidades dos Restaurantes Populares (Central, Méier e Cidade de Deus) fecharão as portas a partir desta semana por falta de repasse de verba. E o preço do feijão? Mais um golpe, mais uma derrota da cidadania e do Estado de direito. Que as pretas, pretos e pobres comecem a pagar pela crise do PMDB com fome.

Por fim, estamos sofrendo golpes e mais golpes. Nas favelas, para o povo preto, nunca houve democracia. Os golpes nos acertam sempre, não importa de onde venha. A África Carioca tem mais morte que o Iraque, tem tanta fome quanto na África do outro lado do atlântico.

Chega de Golpes na África Carioca!

Axé e Luta para o nosso Povo!  

[1] O termo África carioca é uma inspiração que me atingiu através do livro ”Um abraço forte em Zumbi: pensamento e militância no front da Áfrika Carioka” do professor Carlos Nobre. Link: http://umabracoforteemzumbi.com.br/

[2] http://noticias.band.uol.com.br/cidades/rio/noticia/100000812789/autos-de-resist%C3%AAncia-aumentam-em-90,9.html

ADEUS A MAIS UM SONHO EUROPEU: reflexos no Brasil

Por Amauri Mendes Pereira, em colaboração especial

Sonhei,

que estava sonhando um sonho sonhado,

Um sonho de sonho, magnetizado...”

Martinho da Vila (Samba enredo do GRES Vila Isabel)

 

Ainda tinha muito cabelo quando aprendi que havia nações europeias comandando o mundo. E que lá havia tudo de bom: civilização, arte, filosofia, tecnologia, beleza, LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE… Ao contrário daqui: Américas (menos EUA, meio obscuro), Brasil, Rio de Janeiro, Zona Norte, favela…

Depois foi o tempo de tentar entender: como eram tudo de bom, se bolsilivros, filmes, alguns gibis, partes dos livros didáticos, mostravam guerras terríveis – duas em menos de quarenta anos: mortes sem fim, terror, fomes, desgraças e destruição, covardias, embora também heroísmos?

Adiante foi o tempo da dor e da raiva, mas também de encantamentos: As agruras do tráfico descritas por Ki-Zerbo; “Como a Europa subdesenvolveu a África”, de Walter Rodney; a densidade total dos escritos e a imagem martirizada de Fanon, ainda mais com o prefácio de Sartre; o “Discurso sobre o Colonialismo”, de Cezaire; “O retrato do colonizador, precedido do retrato do colonizado”, de Pierre Memi; o “Vietnã segundo N’ Guyen Vo Giap” (o maior general do século XX!!!!), e a vitória em Dien Bien Phu; “The Colour Courtain”, “Escucha, Hombre Blanco”… Me sentia Richard  Wright na Conferência Afro-Asiática de Bandung; Amilcar Cabral!! Agostinho Neto!!!! Mondlane, Samora Machel!! Mandela e a “Liga  da Juventude” contra o apartheid; A revolução Cubana, Fidel e Chê Guevara e a Tri-Continental de Havana…

E veio, então, o tempo de (o melhor que se pode) compreender e explicar: as doutrinas do racismo científico, os mistérios do iluminismo e da ciência social-pai e mãe do racismo, do colonialismo e do imperialismo; insatisfações-indecisões-rejeições de “revolucionários” europeus face aos processos de descolonização; o restabelecimento dos poderes (neo) coloniais sustentados pela OTAN e pelo sonho da supremacia natural-eterna do homem branco, cristão, do hemisfério norte…

Era fácil, então, lutar! Assim como Martin Luther King, Ângela Davies, Malcom X, o Black Phanter, África estava para nós (Movimento Negro brasileiro), como Europa estava para eles (teóricos brancos): nós construíamos a sociedade e liberdade-igualdade-fraternidade; eles, o Estado, a opressão, os sentidos de nação e de identidade nacional brasileira…

Foi difícil e bom demais escrever e publicar os “Cadernos de Descolonização da Nossa História: Zumbi, João Cândido e os dias de hoje”, e vender tudo em 1980… Mas tão ruim e decepcionante desencontrar, fora do Movimento Negro, parceir@s para incrementar tais lutas!

Para nós não foi surpresa, portanto, a tragédia do Mediterrâneo: o racismo, xenofobia e intolerâncias correlatas, toda noite e dia, há anos: tecnologia não para salvar, mas para mostrar o escândalo em tempo real… E agora, o início do fim da idealização “Europa” – o Reino Unido está fora!

Surpresa para eles, cujo exercício do poder alimenta desigualdades, mas também sonhos-idealizações. Quant@s entre eles e elas se esmeram em referenciais históricos, simbólicos, estéticos, e análises bem estruturadas!… Foram capazes de eliminar a seca e fome no sertão nordestino, o perene genocídio contra os povos indígenas, as favelas e lugares pretos e pobres do Recife, de Salvador, do Rio de janeiro, de São Paulo, de todo lugar nesse Brasil sem fim?

Oh, a nostalgia! Tanto de classicismos europeus, quanto da identidade nacional brasileira – idealizações, desde sempre insustentáveis, hoje “meladas” pelas cotas, por reclames de igualdade, por construções subterrâneas, insurgentes: sentadas ou não à mesa da institucionalidade, olho-no-olho, “sem-dor-sem-medo”!

Alguns entre eles-elas vinham-vinham “entendendo”? Perderam, mais uma vez, para si mesm@s e para @s que ‘não têm olhos de ver’, atropelando os esforços de negociação do Lula presidente – Incapazes de extirpar o ranço de supremacia entranhado até os ossos.

Já não é tão fácil lutar! Caminhemos:

 1 – Uma elite, intelectualizada ou não, frustrada em um sonho insensato e envelhecido – sem rumo. Nada além do propósito de mais poder material, salvando o que puder dos sonhos-idealizações que restam!

2 – Nós, para o que estamos construindo, não precisamos do ódio ou do escárnio.

Que tal estar atentos a eles e a nós mesm@s, como estava Richard Wright?

 

A mi amigo Eric Williams, Primer Ministro del gobierno de Trinidad y Tobago,

y dirigente Del Movimiento Nacional Del Pueblo,

y a la

trágica elite ocidentalizada de Ásia, África y las Índias Ocidentales…

Los solitários extranjeros que vivem una existencia precaria

 em las escarpadas orillas de muchas culturas;

hombres hacia quienes se manifesta desconfianza, a los que no se entiende,

a los que se calunia y critica, desde La izquierda y La derecha,

por los cristianos e paganos;

hombres que acarrean sobre sus frágiles e infatigables hombros

lo mejor de dos mundos y que em médio de la confusión y el estancamiento,

buscam com desesperación um hogar para sus corazones,

um hogar que, cuando lo encuentren, podrá serlo

para el corazón de todos los seres humanos.”[1]

[1] Dedicatória do livro “Escucha hombre Blanco”! Editorial Sudamericana. Buenos Aires. 1959

africa

Fonte imagem: http://www.geledes.org.br

A Solução é entregar o Brasil?

Por Sammer Siman

O golpe segue de vento em polpa. O interino, biônico e informante da CIA Michel Temer está – sob o mantra cínico de “superar a crise econômica” – operando uma entrega brutal do patrimônio nacional, recorrendo à mesma fórmula neoliberal que jogou o Brasil em desgraça na década de 90 e que alça hoje muitos povos europeus a uma condição miserável. Eis a Ponte para o Inferno!

Avanço da privatização no sistema de saúde e educação, entrega do setor aéreo nacional, ofensiva sobre o patrimônio público dos estados como contrapartida de um reles adiamento da dívida com a União (veja a entrevista da economista Eulália Alvarenga), preparação da privatização da Petrobrás como na recente nomeação de Nelson Silva (presidente da petrolífera BG Group que foi comprada pela gringa Shell) para consultor sênior da direção da empresa e o que pode se revelar como a entrega da Amazônia, diante da recente edição da portaria nº 181 de 15 de junho de 2016 do Ministro da Integração Nacional que institui um grupo de trabalho com o objetivo de “analisar os entraves ao desenvolvimento da Amazônia”.

De outro lado, os privilégios seguem intactos, a exemplo do sistema da dívida pública que mais uma vez não será auditado ou do assalto ao erário público, como no recém-aprovado reajuste a uma parte seleta do funcionalismo federal que terá um impacto de 58 bilhões até 2019 e que, de saída, aumentou salários como os dos ministros do STF de R$ 33.763 para R$ 39.293, certamente como uma retribuição pelo patrocínio do golpe de estado em curso por parte da mais alta corte do judiciário. Já a mídia, em especial a Rede Golpe de Televisão, saiu da condição de cão enfurecido contra a presidente Dilma para ursinho carinhoso com o golpista Temer, uma blindagem monumental!

Em Brasília, enquanto a Lava Jato segue com seu festival de delações a pergunta é se, ao fim, sobrará alguém da classe política para se colocar para as eleições de 2018. Uma falsa questão, pois a manutenção de um interino ficha suja na presidência está provando que a opinião popular é um detalhe irrelevante, quando se está alinhado com os interesses “do norte” o presidente pode ser um poste ou um pau de galinheiro.

Falemos de imperialismo! Os Estados Unidos e suas empresas seguem como operadores privilegiados do golpe. Este país, que a cada dia mais se revela como um fiasco civilizatório, ao produzir um constante festival de assassinos em série, ao contar com uma população de 35 milhões de famintos (sendo que 13 milhões são crianças) e ao correr um sério risco de eleger um psicopata para a Casa Branca (Donald Trump) segue dominando o mundo com um revólver na cabeça e, sorria, somos a bola da vez!!

Não nos enganemos: Cunha, Bolsonaro e companhia ilimitada é a espuma do golpe, os interesses que patrocinaram o sequestro da presidência da república guarda por detrás uma estratégia que promete levar nosso país a um aprofundamento radical da dependência e do subdesenvolvimento. No entanto, a resistência segue se produzindo em cada rincão, nosso povo começa a se mexer de uma maneira mais decidida, pois já deu o tempo do sofá, é hora de mexer o quadril! A Casa Grande que se cuide, pois isso aqui vai virar Palmares \0/

Tio-Sam-roba-petroleo

Fonte da imagem: elpolvorin.over-blog.es

Nova Etapa da Crise no Mercado de Trabalho

Por Arland Costa*, em colaboração especial

O mercado de trabalho brasileiro atravessa uma profunda crise, com redução de salários, elevação abrupta do desemprego e da informalidade. Esta crise começou no dia 26 de outubro de 2014, quando acabaram as eleições que deram a Dilma Roussef mais um mandato. Passadas as eleições, o Governo Federal comandou no país, em articulação com governos estaduais, um esforço gigantesco para reduzir o consumo das famílias e os gastos públicos da forma tradicional: juros exorbitantes, cortes em investimentos sociais e redução do funcionalismo público. O objetivo foi atingido, desde 2014 mais de 200 mil empresas fecharam, mais de 3 milhões de empregos foram fechados (630 mil só no funcionalismo público), a renda média do trabalhador caiu mais de 7% e a informalidade cresceu exponencialmente.

Atravessamos até o primeiro semestre deste ano o primeiro estágio da crise, em que o desemprego levou trabalhadores a utilizarem mecanismos de defesa imediata (seguro-desemprego, FGTS, poupança) para sobreviver enquanto buscam outro emprego. Este período foi marcado também por novas pessoas passarem a procurar trabalho devido ao desemprego e queda na renda de outras pessoas da família, o que aumentou ainda mais a concorrência entre os desempregados. Em números, entre o último trimestre de 2014 e o primeiro de 2016, embora 3 milhões tenham perdido o emprego, 1,4 milhão passou a trabalhar por conta própria, o que demontra a elevação da informalidade. Ainda assim, a quantidade de pessoas procurando emprego aumentou em mais de 4 milhões. Ou seja, o primeiro um ano e meio após o início da crise teve como característica a corrida desesperada pelas poucas vagas de emprego, ainda que o salário oferecido para recém-contratados tenha caído.

O primeiro semestre de 2016 foi marcado pela transição entre esta fase da crise e a que vivemos agora, muito mais dramática. A primeira característica deste momento é a drástica redução dos dois mecanismos de proteção ao desemprego garantidos pela CLT. Se em outubro de 2014, 774 mil trabalhadores tiveram o pedido de seguro-desemprego aprovados, em fevereiro de 2016 foram apenas 530 mil, queda de mais de 30%. Embora não estejam ainda disponíveis os dados referentes ao saque de FGTS por trabalhadores demitidos, certamente a tendência é a mesma já que a partir de meados de 2015 o desemprego aumentou devido à queda de cerca de 20% no número de contratações em relação ao período anterior à crise, enquanto as demissões caíram 15%. Embora não faça diferença no total de vagas de emprego, menos pessoas sendo contratadas significa menos acesso aos benefícios da CLT.

A segunda característica deste momento é o desalento dos desempregados. Se em um primeiro momento da crise, a procura por emprego cresceu mais do que a quantidade de demitidos, a tendência agora é que milhões desistam de encontrar trabalho porque não têm qualquer expectativa de consegui-lo. Dados recentes da Pesquisa Mensal do Emprego apontam queda de mais de 2% na população economicamente ativa em 7 regiões metropolitanas desde o início da crise. Se esta tendência se confirmar a nível nacional, significará que mais de 4 milhões de desempregados deixaram de procurar emprego.

A longa duração e a intensidade da crise fazem com que ela comece a extrapolar de forma definitiva os limites do mercado de trabalho, aprofundando as mazelas sociais típicas do subdesenvolvimento: miséria, mendidagem, despejos em massa, inadimplência em níveis extremamente altos etc. Este processo começou após a eleição de Dilma mas é agora, quando milhões de trabalhadores já utilizaram as proteções que tinham contra o desemprego, que estes problemas vão se expandir exponencialmente. O que era uma crise sobretudo no mercado de trabalho está se transformando em uma crise social que, levando em consideração as medidas anunciadas pelo Governo golpista de Michel Temer, tende a se aprofundar.

Por fim, ao contrário do que poderia supor a tese do “quanto pior, melhor”, entramos em um momento de ofensiva da burguesia brasileira não apenas corroendo salários e elevando o desemprego, como também em mudanças estruturais nas relações de trabalho. A crise jogou os sindicatos para uma situação tão defensiva que apenas o fato de uma negociação trabalhista conquistar um reajuste igual à inflação já é motivo de comemoração. Este fato, somado ao estabelecimento de um governo que não precisa ser popular pelo próprio fato de ser fruto de um golpe e a construção ideológica de que a crise é causada pela rigidez dos contratos de trabalho levaram a burguesia brasileira a investir – através de suas representações de classe, do monopólio midiático e de seus parlamentares – contra os dois principais pilares de proteção ao trabalhador que existem no Brasil: a CLT e a Previdência Pública. Como a própria Globo afirmou em recente editorial, este processo de “flexiblização trabalhista” deve levar milhões às ruas, inaugurando um longo processo de mobilização política dos trabalhadores. A burguesia se move rapidamente, a nós cabe a resistência.

*Economista e militante das Brigadas Populares – Santa Catarina.