Mais veneno para vidas envenenadas

Por Carlos Bittencourt
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Comemos comida envenenada. As lavouras brasileiras consumiram, em 2013, 1 bilhão de litros de agrotóxicos. 14 desses venenos estão proibidos em outros países. Esse sistema agroindustrial capitalista que nos envenena, destrói a fertilidade do solo, polui e devora 70% da água usada no país, envenena a atmosfera e o clima, desmatando, nos últimos 40 anos, 763 mil km², ou 184 milhões de campos de futebol, na Amazônia e destruindo metade da vegetação do Cerrado. O remédio para esse quadro não demora, em 2012 foi aprovado um Código Florestal que diminui as áreas que devem ser obrigatoriamente cobertas por florestas e anistia os (des)matadores. Para o Ministério da Agricultura?

E tudo parece estar em seu lugar…

Nas cidades, nos envenenamos de dióxido de carbono e outros gases mais danosos, para abastecer veículos individuais que quase poderiam voar se não vivessem estacionados em engarrafamentos. Produzimos lixo em quantidades gigantescas e o destinamos aos bilhões de toneladas aos bairros periféricos. Lançamos os excrementos humanos e industriais nos rios e fontes de água, gastamos fortunas para desenvenenar as águas que envenenamos e mantemos um convívio, raro entre as espécies animais, entre o destino das excreções e as mesas onde comemos comida envenenada. Segregamos o espaço urbano, distribuímos desigualmente água, saneamento, saúde, educação, criamos pessoas periferizadas. Mas o remédio não tarda, polícia, fuzis, cárcere, autos de resistência, extermínio de jovens, negros, pobres. Redução da maioridade penal?

O pulso ainda pulsa…

As mulheres são surradas, são curradas. As bundas têm cotação no mercado mundial de carne humana. A ditadura do macho aparta os afetos, dispersa mãos dadas, assassina gays, lésbicas, transexuais… a ética humanista se corrói, a colonialidade predomina, a vontade de poder, a ideologia da prosperidade material, da ostentação. As teologias da guerra, os deuses punitivos, a proibição do amor. O trabalho massacrante, como expiação. A migração cotidiana, os rushs, do ir e vir escravizado pelos lucros gigantes e pelos salários de fome. Não tardam os remédios: Prozac, Lexotan, Viagra, cachaça. Maconha?

Nada parece estar fora da ordem…

Uma foto do Brasil atual não daria um cartão postal. Mesmo assim, os donos da vida seguem curando o envenenamento com veneno. Os que causam as crises pretendem solucioná-las, quem sofre com seus efeitos recebem mais uma dose de privação, retirada de direitos trabalhistas, de verba da saúda e da educação públicas. Corta-se a água, blinda-se a democracia e o seu domínio empresarial. Em cinco minutos, vemos um Brasil dividido, envenenadores e envenenados.

Iniciativas emancipatórias, de reflexão (como o blog Brasil em 5) e organizativas, que mobilizem mais e mais pessoas para a construção de um outro destino são urgentes. Mudar o rumo da rota biocida e ecocida de nosso capitalismo dependente e subimperial. Abrir as cortinas do futuro, desembainhar a crítica e organizar novas maiorias voltadas para o bem viver e o bem conviver.

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