Primeiro como tragédia, depois como farsa: classe média e reacionarismo ontem e hoje

Por Rodrigo Santaella
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

A História ensina muito, e a expressão cunhada por Marx nos sugere uma forma de olhar para ela: encarar fatos presentes como repetições farsescas do passado. Proponho aqui um exercício desse tipo. Me refiro à trajetória da UDN, que entre 1945 e 1965 foi um dos três mais importantes partidos do Brasil e assumiu a tarefa de representar as classes médias do país.

Nos momentos mais intensos dessa representação e em parceria constante com setores das elites, dois eixos nortearam sua atuação: o moralismo anticorrupção e o anticomunismo. O desenrolar da tragédia é conhecido: a UDN, democrática no nome e liberal na origem, termina apoiando o golpe que em nome do combate à ameaça comunista e da moralização do país, extingue a democracia no Brasil em 1964.

Nos últimos meses, os dois eixos retornaram com força à cena política do país, e a tragédia do passado assume forma de caricatura deformada no presente. O moralismo anticorrupção e o anticomunismo voltaram a servir como mobilizadores de setores da classe média a partir das elites. O discurso contra a corrupção – que na tragédia era direcionado ao clientelismo varguista – vem de setores que, em geral, têm a prática corriqueira de sonegar impostos, subornar funcionários públicos, buscar inúmeras formas ilegais de adquirir vantagens. É um discurso ideológico, que não reflete a prática cotidiana da maioria dos setores que o encaram como prioritário e nem o programa dos partidos que os organizam.

O anticomunismo tem sua atualização farsesca na forma do antipetismo. Se nos anos 60 o espectro da revolução socialista rondava a América Latina, o principal alvo do anticomunismo brasileiro do século XXI é um partido que perdeu qualquer vínculo com a ideia de transformação radical da sociedade há muito tempo. Essa atualização da tragédia como farsa – que coloca na boca dos corruptos de sempre as bravatas moralistas e aponta para um dos principais aliados das elites brasileiras a pecha de comunista – permeia a complexidade da conjuntura atual.

Neste cenário, o próximo passo será decisivo. Se tudo caminha normalmente, a tendência é que o golpe de 1964 seja atualizado em 2018 como a “alternância democrática” que coloca no Planalto setores mais reacionários, que representam mais diretamente os anseios conservadores de parte da classe média – o PSDB. Consolidar-se-ia a ditadura do mercado,  ainda mais escancarada. Qual creio ser nossa tarefa?

Primeiro, rechaçar no discurso e na prática todas as formas de corrupção, e mostrar que, se ela informa algo sério sobre o caráter e o projeto político de seus praticantes, o fato de ser sistêmica informa algo ainda mais importante sobre o sistema do capital e a democracia burguesa: ambos são intrinsecamente corruptos. Segundo, apresentar um programa de transformação radical à sociedade. O anticomunismo sem comunismo faz com que a esquerda radical – que acostumou a moderar-se – sofra o ônus do estigma sem sequer apresentar um projeto alternativo, e seja confundida com o petismo. Precisamos entrar na disputa com a nossa cara, oferecer à sociedade, inclusive aos setores médios, a potência de uma alternativa radical. Para transformar a repetição da história como farsa em construção de um novo futuro, a condição primeira é que nós nos afastemos cada vez mais da inércia de ser uma esquerda da ordem.

Manifestação em março de 1964. Qualquer semelhança...
Manifestação em março de 1964. Qualquer semelhança…
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4 comentários sobre “Primeiro como tragédia, depois como farsa: classe média e reacionarismo ontem e hoje

  1. Onete Lopes 11/04/2015 / 23:06

    Muito interessante o texto, Uma análise, que embora não seja original em tudo, traz algumas questões que inovam, especialmente na chamada à saída da inercia. Ou nos mobilizamos e lutamos ou seremos expectadores de mudanças nefastas empreendidas pela direita.

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    • Rodrigo Santaella Gonçalves 25/04/2015 / 15:39

      Obrigado. Podemos aprofundar a reflexão, e transformá-la cada vez mais em ação coletiva.
      Abraço.

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  2. João Henrique 12/04/2015 / 03:18

    Prezado Rodrigo,
    Parabenizo-lhe pela sobriedade de suas palavras neste texto.
    Excelente comparação!

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    • Rodrigo Santaella Gonçalves 25/04/2015 / 15:39

      Obrigado João.
      Abraços.

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