O presente obscuro da ideia de “novo homem”

Por Edemilson Paraná
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Ancorando-se na definição de ser-humano como ser social – compreendido a partir de suas relações em sociedade e, portanto, dessencializado de aprioris naturais ou espirituais –, as esquerdas buscaram na ideia de “novo homem” um horizonte de materialização da utopia de uma nova sociedade livre de todas as formas de exploração.

Para além de extensa ramificação ao longo de diferentes tradições da Filosofia Ocidental, e com antecedentes mais concretos, em termos político-ideológicos, em anarquistas, libertários e socialistas utópicos, essa ideia-força consubstancia-se, nos séculos XIX e XX, na imagem maior da transcendência da humanidade diante de suas próprias limitações: o projeto grandiloquente de refundar, em termos sistêmico-estruturais, a vida social e, com isso, a subjetividade mesma (antes submetida às amarras do “fetichismo”) de seus agentes.

Tal elemento estaria presente de diferentes formas em várias revoltas e revoluções no século XX, encontrando nas lutas anti-imperiais e anti-coloniais de libertação de nacional na segunda metade do século uma figura arquetípica: o revolucionário determinado, abnegado combatente do povo, que, armado e disciplinado em revolta, “sacrifica-se”, sem medo da morte, pela causa. “O ser-humano mais completo de nossa época”, teria definido Jean Paul Sartre ao conhecer Ernesto Che Guevara.

Para além de suas origens, significados e desdobramentos no interior das esquerdas (e aqui caberia resgatar, em termos atuais, a polêmica do humanismo x anti-humanismo teórico dos anos 60), cumpre apontar que contra essa ideia foram direcionados duros ataques provenientes do status-quo: a ideia de “novo-homem”, ao negar a inescapável realidade da “condição humana”, encobriria o horror e tragédias de projetos violentos e autoritários de dominação. A queda do Muro de Berlim decretaria, assim, a morte do “novo homem” e, dessa forma, o “fim da história”. Fora vencedor o humanismo burguês – a democracia liberal e o mercado mundial como expressões mais ajustadas à nossa “condição humana” (aqui nos termos quase ahistóricos de um jusnaturalismo vulgar).

A tese da morte do “novo homem” em tempos “pós-ideológicos” não resiste, no entanto, a um olhar mais cuidadoso. Virada do avesso, tal ideia (ou mito) apresenta-se com vigor renovado na pós-modernidade. Materializada na alta performance do sistemas ser-humano-máquina, na vida administrada cognitiva, hormonal e fisiologicamente por meio tecnologias químicas, biológicas e mecânicas, na hiper-conexão em redes de comunicação e mediatização de informações, identidades e performances, o ser-humano segue, às custas de cada vez mais trabalho explorado e cada vez menos tempo livre, como em um castigo de Sísifo, a busca por superar a si mesmo e às “limitações” internas e externas de sua pré-história moderna; de vencer, em suma, a morte a que impinge cotidianamente ao outro.

O horizonte e produto dessa busca, objetivado na destruição do planeta, não é animador. A reestruturação produtiva, a automatização dos sistemas de mercado, a internalização da vida social em sistemas de informação e vigilância em massa no âmbito da globalização capitalista não deixa mentir sua tragédia: no século XXI, o “novo homem” existe como ciborgue; o ser imbricado na máquina por meio do trabalho hiper-explorado e pelo consumo deslumbrado e interminável de mercadorias “mágicas”.

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