Ventos atlânticos

Por Paris Yeros
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

A recente mobilização de estudantes universitários na África do Sul pela remoção de símbolos coloniais de seus campi e pela transformação de currículos eurocêntricos é mais um sinal de que o mito da “nação arco-íris” está com seus dias contados. Somam-se ao esgotamento geral da “reconciliação” sul-africana e têm ressonância com a brasileira.

O epicentro é a Universidade da Cidade do Cabo, construída em terreno “doado” por Cecil Rhodes, o protagonista da expropriação colonial na região. Ao longo de vinte anos após o apartheid, a sua estátua continuou imperando no campus, tornando-se no mês passado alvo de vandalismo e manifestações, até ser removida. A mobilização se difundiu a outras universidades, em particular a Universidade Rhodes em Grahamstown, igualmente “doada” pelo generoso colono. Ali a bandeira é nada menos que a mudança do nome da universidade.

Além dos símbolos ofensivos que, como no Brasil, imperam por todo lado, o que está em jogo é a maneira em que se pensa o país e a sua relação com a África. Pois o fim do apartheid, como o fim da ditadura aqui, preservou não apenas o monopólio econômico dos colonos, mas também o seu controle sobre os meios de produção intelectual.

A transição deu lugar a uma África do Sul curiosamente similar ao Brasil. Tem-se um mito próprio da democracia racial, embora falte lá atração ideológica. Têm-se universidades tomadas por docentes brancos, embora haja lá uma nova geração de docentes negros, ainda que nas margens. E tem-se uma compulsiva extroversão intelectual voltada à Europa, exercendo poder canônico contra o pensamento Pan-Africanista.

É inegável a ressonância. A diferença aqui é que o mito da democracia racial é mais enraizado. Perdeu uma batalha pelo reconhecimento oficial do racismo institucional e pela adoção de cotas na graduação. Mas há quem pense que tais cotas por si só irão desencadear mudanças evolutivas e que talvez nem caiba mais falar de racismo institucional. “Viva a nova democracia racial!” Vejamos quanto escândalo e repulsa provocou na sociedade um grupo de estudantes negros da USP ao interromper uma aula de microeconomia e propor uma conversa sobre relações raciais na universidade.

O reconhecimento do racismo institucional no Brasil é frágil. Só no ensino superior, o suposto carro-chefe, faltou compromisso com a efetivação das leis que visam difundir o ensino da África e do pensamento negro brasileiro. Faltou política para transformar a pós-graduação, onde se faz a pesquisa, e onde não se encontra nem negro nem pensamento negro. E no que concerne a contratação de docentes, a lei que reserva 20% das vagas para negros em concursos públicos já é letra morta nas universidades, pois aqui a reserva de uma vaga exige a abertura de três numa mesma área, algo que raramente ocorre.

Por outro lado, há de reconhecer que está em curso uma ampla remobilização da juventude negra no Brasil. Que os novos ventos atlânticos derrubem de vez os símbolos, instituições e currículos genocidas.

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2 comentários sobre “Ventos atlânticos

  1. Caio Machado Pinheiro 16/04/2015 / 09:28

    A luta não pode parar, revolucionários não morreram ou ficaram tanto tempo presos em vão…

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