A disputa das ruas e o desafio das esquerdas

Por Isabella Miranda
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Quem se lembra do slogan “Lugar de manifestar é nas urnas!”? Essa ideia, difundida nos mesmos facebooks, meios de comunicação e espaços de tendências liberais e conservadoras que sempre criminalizaram e deslegitimaram a luta nas ruas, hoje clamam pelas manifestações contra o governo e a corrupção. Estranho!?

Com vitórias avassaladoras no Congresso e no Senado e com eleições presidenciais apertadas, a direita agora convoca manifestações verde e amarelo no domingo (e essa é mesmo a palavra, convocar). As pautas das manifestações são definidas pelos discursos conservadores vomitados de caminhões de som “apartidários”, o sentido da indignação é atribuído pelos grandes meios de comunicação sem muitas contestações ou disputas. O imprevisto, o espontâneo, o fora do controle desaparece das ruas…

Depois de convocações sistemáticas para o dia 15/03, com um discurso radicalizado pró-impeachment, agora os principais jornais e meios televisivos perguntam: “E agora PT, vai governar do jeito que a gente quer!?” A redução do peso que a grande mídia jogou nos protestos de domingo, o que representou uma significativa redução do povo nas ruas entre o 15/03 e o 12/04, é mais uma prova de que o objetivo não é a desestabilização geral do governo, mas o aprofundamento do desgaste da esquerda para fazer avançar projetos como o PL 4330 das terceirizações, a redução da idade penal, as privatizações e ajustes fiscais.

Para que desestabilizar a economia se posso acomodar meus interesses e pautas no governo em uma grande festa do capital?

Com o monopólio dos meios de comunicação, o que faltava às elites econômicas era tomar as ruas das mãos da classe trabalhadora. Durante o ano de 2013 e 2014 foram intensos os esforços para distinguir os bons dos maus manifestantes e criminalizar o protesto e a ação direta de professorxs, metroviarixs, atingidxs pela copa, sem-teto. O governo e os “governistas”, amarrados como estavam as coalizões e concertações contraditórias, fizeram coro à direita e reduziram a pó a sua capacidade de disputar as ruas.

Com amplos setores da classe trabalhadora reprimidos e isolados politicamente, ganharam eco nas mentes e corações insatisfeitos os discursos conservadores que passaram a vociferar (hipocritamente) contra a corrupção e o governo como forma de dar vazão à insatisfação popular. Uma luta que era por direitos (saúde, educação, moradia) se transformou em uma luta da direita… #sqn!

O projeto (hipócrita) da direita é construir uma “moral” na política. Só que não apenas os projetos da direita são imorais por atacarem os direitos, a dignidade e a vida humana, mas a própria “moral” não resolve questões estruturais como a corrupção, o desenho da disputa eleitoral, a precariedade da garantia pública de direitos.

Contra esse falso “moralismo” que vem avançando para substituir o projeto político do PT, em franco processo de crise e esgotamento, só nos resta a difícil recomposição das esquerdas a partir das ruas. Nesse contexto, o que nos divide deve ser minimizado. A defesa de um governo indefensável ou os ataques cegos e sem estratégia a presidenta, apenas servem para nos rachar e impossibilitar a construção de lutas comuns.

A difícil recomposição das esquerdas começa a se esboçar nas lutas contra as terceirizações que assistimos na semana passada. Por enquanto, trata-se da unidade para lutar contra o mal pior, ok. Mas uma pauta negativa não dá conta da esperança, do desejo de transformação que está latente na sociedade hoje: a recomposição da esquerda deve avançar para a proposição de soluções, projetos políticos de dimensão constituinte, que possam efetivamente dialogar e dar respostas positivas ao conjunto da classe trabalhadora, da juventude que esteve nas ruas em junho. Caso contrário, seremos terrivelmente derrotados.

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