Uma semana para gerar reflexões…

Por Rodrigo Santaella

  1. Vivemos para ver Renan Calheiros ir à público posicionar-se contra a PL das Terceirizações. Neste cenário, o conflito gerado entre Renan e Eduardo Cunha, presidente da Câmara, e a forma como este tratou a discussão chamou a atenção: “Engaveta lá, engaveta aqui. O que vamos fazer é sentar nas coisas deles também”. O que permite que numa discussão central para o futuro da classe trabalhadora, a questão seja tratada como discussão de bar entre dois atores políticos que lutam por influência? Incrível pensar que a política de governabilidade e de alianças aplicada nos últimos anos tenham levado a uma situação em que o futuro de grande parte do povo brasileiro esteja sendo definido nesses termos.
  2. Por outro lado, o famigerado “voto distrital” para vereador foi aprovado na CCJ e deve ir à Câmara. O relator foi o senador Eunício de Oliveira, um dos principais ícones da moderna política clientelista do país. Em tempos de desencanto, de sentimento coletivo de repúdio e aversão à política institucional, de exigência de uma reforma política que busque maior controle social sobre os candidatos e menos influência de atores econômicos, o voto distrital significa um retrocesso completo. O argumento de que “aproxima-se o eleitor do eleito” é falacioso: tende-se a fortalecer a coação, o curral eleitoral e o clientelismo. O voto programático ou em temas gerais e pertinentes para a cidade como um todo, fica para trás. É uma forma típica de utilizar a insatisfação popular para, em nome dela, continuar beneficiando os mesmos setores de sempre. É a tônica de qualquer reforma política confiada a este Congresso.
  3. Por fim, saiamos do Brasil um minutinho. Em 2009, o presidente Manuel Zelaya foi deposto e expulso de Honduras, com amplo apoio da mídia internacional, por tentar aprovar uma consulta popular sobre reeleição do país. Nesta semana, 6 anos depois e sem consultar ninguém, a Corte Suprema aprovou a reeleição naquele país. A situação é completamente diferente do Brasil, mas pode ser uma boa caricatura de como algumas características da democracia são “mobilizadas” só quando convém e para atender determinados interesses.

         Como a semana ajuda a pensar o momento? A democracia representativa, no Brasil e nos mais diversos países com características estruturais parecidas ou piores, apresenta limites cada vez mais claros. No nosso caso, os acordos de governabilidade minam a legitimidade dos partidos, e permitem cenários em que os grandes temas terminem decididos em pequenos escritórios. A falta de espaços de decisão efetiva da população gera um sentimento de repulsa crescente pela política, que não tem se materializado em projetos alternativos suficientemente fortes. O papel da ideologia dominante, bem-sucedido, é o de apresentar cada uma dessas situações como totalmente desconexas, e de em cada uma delas encontrar uma forma de demonstrar o fôlego do sistema. Presidente do Senado como “salvador da pátria”, voto distrital “democratizando”, e a democracia no nosso continente “de vento em popa”. Cabe a nós construir as pontes analíticas, e sobretudo fortalecer o combate contra-hegemônico. Nas ruas e em todos os espaços possíveis.

renan e eduardo cunha

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Um comentário sobre “Uma semana para gerar reflexões…

  1. Carlos Henrique 27/04/2015 / 16:05

    Rodrigo, seu pensamento foi sensacional. Expôs a nossa dura realidade política, a de sermos governados por parlamentares que buscam fortalecer suas oligarquias nos remetendo ao passado do cabresto. As atitudes desses governantes joga a moralidade na lama, a inteligência do povo no lixo e sepultam a opinião pública.

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