Reaja: 10 anos de luta negra e resistência comunitária

Por Lula Rocha

Há 10 anos guerreiras e guerreiros tomaram a decisão política de não mais aceitar passivamente a morte cotidiana e brutal de negras e negros nesse país. Da ocupação da Secretaria de Segurança Pública da Bahia surge a Campanha Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta ecoando as vozes negras de vilas, favelas e presídios e travando a luta autônoma e combativa contra o Genocídio do Povo Negro.

Apesar do racismo produzir secularmente dores e desigualdades, nunca havia gerado a pilha de corpos negros como hoje. O processo genocida em curso no Brasil que se manifesta não apenas por meio das milhares de mortes, mas também por diversas privações ao povo negro necessita de um combate a altura protagonizado por negras e negros.

Em tempo de cooptação, distanciamento das lutas populares e institucionalização da militância, a Reaja desafia aqueles que acreditam que a luta social prioritariamente se faz em gabinetes e com negociatas. Seja em Periperi, Vila Moséis, Simões Filho, dentre outros territórios, a Reaja segue firme no combate ao racismo e na construção de um processo de resistência forjado pelos de baixo. Nas marchas, nas ações comunitárias e culturais a Reaja mantém viva a luta dos nossos ancestrais e aponta saídas concretas para construção de uma sociedade mais justa.

Entretanto, toda essa luta ainda é invisibilizada, incompreendida ou combatida por alguns. São constantes os ataques a Campanha Reaja não só pelos declaradamente racistas, mas também por setores dos movimentos sociais. Mas isso não limita a caminhada. Pelo contrário, a Reaja se fortalece a cada tentativa de desqualificação ou intimidação, pois seus princípios e propósitos estão estão cada vez mais consolidados e atuais.

Por isso, temos na Reaja o farol da nossa atuação. A luta contra o racismo requer radicalidade, ousadia, criatividade, coerência e compromisso. Em tempo de atualizações e reflexões sobre o caminho a seguir para se contrapor a elite branca brasileira e suas artimanhas para manutenção do poder, a Reaja é uma referência para os que ainda acreditam numa transformação real da sociedade.

Vida longa a Reaja!

A FIFA caiu e lugar de cartola é na cadeia!

Por Cláudia Favaro

Hoje o mundo se surpreendeu com mais uma prisão inusitada. Uma grande máfia que até então permanecia intocável hoje foi desmascarada e em pleno Congresso da FIFA 5 dirigentes desta organização criminosa que se escondem atrás do esporte e do futebol foram presos.

A FIFA é um organismo internacional que tem como afiliados mais países que a própria ONU. Mas, apesar de falar de esportes, sabemos todos que a FIFA trata é de negócios. Não podemos esquecer que o futebol é um dos esportes mais caros e que envolve mais dinheiro em todo o mundo. Basta olhar o noticiário e ver a quantidade de cifras que envolvem a compra ou a venda de um jogador, ou mesmo o quanto é arrecadado por jogo em um estádio. E pior, isso ainda é uma fatia muito pequena do bolo todo, que envolve patrocínios, publicidade, peso político, poder e consequentemente corrupção, muita corrupção.

Foram inúmeros os escândalos que envolveram a FIFA e a CBF nos últimos 10 anos, a ponto de vermos desabar o Império de Ricardo Teixeira, nome hegemônico da Confederação Brasileira de Futebol – CBF, genro de João Havelange, capitalista que transformou a FIFA e o futebol num negócio. Sendo Teixeira inclusive obrigado a devolver milhões de reais de propina em 2012. Mas nada disso foi capaz de parar a bola! Ela seguiu rolando, por que logo ali na frente brilhava a menina dos olhos de ouro, a Copa do Mundo. Teixeira deixou em seu lugar Marín, que não fosse sua prisão no dia de hoje, não mereceria uma linha sequer de meu texto, tanta é a falta de caráter de um homem, que serviu à ditadura e torturou tantos companheiros.

Nosso país passou há menos de um ano por um grande evento organizado por esta empresa, e é incrível que passado tão pouco tempo deste mega-evento já quase não se fala mais dele. Mas o certo é que a Copa do Mundo deixou muitas cicatrizes em nosso país, inclusive tem papel importante nesta crise e ajuste fiscal que enfrentamos hoje. Não diferente dos demais países por onde passou, a Copa do Mundo deixou em nosso país, tristeza, remoções forçadas, enfraquecimento institucional e dívidas, grandes dívidas para nossas cidades.

Vale lembrar que desde 2007 quando se candidatou à país sede da Copa do Mundo FIFA de 2014, o Brasil assumiu um papel de “capacho da FIFA”. É o que fazem todos os países e cidades sedes que realizam o megaevento. A FIFA de antemão faz diversas exigências nesse sentido, com o único objetivo de garantir o maior lucro para si e seus patrocinadores. Assim, essa nuvem que paira sobre o futebol, é uma nuvem cinza que carrega muitos interesses e por isso se impõe como um poder quase intransponível para os países e cidades que querem receber um torneio dessa magnitude e tão importante, ainda mais num país onde o futebol é mais que um esporte, é parte da sua cultura.

O modelo que a FIFA e Marin representam, é o modelo que vem revestido de futebol para a abrir as portas dos países para o capital privado que se desloca e explora os territórios de maneira avassaladora, sem compromisso com os povos, com a cultura, com o meio ambiente ou com qualquer obstáculo que esteja a frente de seus lucros e interesses.

Foi muito complicado e custoso para os Brasileiros a forma como se efetivou todo esse Padrão FIFA imposto e acordado com o governo petista em 2007. Pois além dos intermináveis gastos com a preparação do mundial, que aumentaram vertiginosamente a cada dia é importante lembrar que um dos acordos feitos é isenção TOTAL de impostos para as operações da FIFA e de qualquer um de seus afiliados e/ou operadores no Brasil. Com essa medida o Brasil deixou de arrecadar trilhões em impostos. E quem se beneficiou com a medida foram justamente os que mais lucraram com o mundial: A FIFA, os patrocinadores e as construtoras. O resultado disso é a contenção de despesas que hoje quem paga a conta são os trabalhadores.

Mais de um ano depois de a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa ter elegido no Brasil a FIFA como a pior corporação do mundo, vemos finalmente essa quadrilha ruir e hoje sim, como brasileiros explorados por esta corporação temos muito a comemorar! Enquanto estavam todos tranquilos, confortáveis e despreocupados em um lindo hotel na Suíça com vista para os Alpes, o FBI foi implacável e os criminosos serão extraditados para os Estados Unidos. Todos são acusados de participar de um esquema de corrupção que já dura décadas e movimentou mais de US$ 100 milhões. Justiça seja feita! Lugar de cartola é na cadeia!

Em 2012, durante encontro do comitê organizador da Copa do Mundo do Brasil na sede da FIFA (Suíça), esses três aí aproveitaram para fazer uma reunião em separado.  Na foto: José Maria Marin (então Presidente e atual vice da CBF); Joseph Blatter (Presidente da FIFA); e Marco Polo del Nero (atual Presidente da CBF). Fonte: http://www.fifa.com/worldcup/news/y=2012/m=3/news=blatter-meets-marin-and-del-nero-zurich-1607837.html
Em 2012, durante encontro do comitê organizador da Copa do Mundo do Brasil na sede da FIFA (Suíça), esses três aí aproveitaram para fazer uma reunião em separado.
Na foto: José Maria Marin (então Presidente e atual vice da CBF); Joseph Blatter (Presidente da FIFA); e Marco Polo del Nero (atual Presidente da CBF). Fonte: http://www.fifa.com/worldcup/news/y=2012/m=3/news=blatter-meets-marin-and-del-nero-zurich-1607837.html

Distritão: a derrota e a vitória de Eduardo Cunha

Por João Telésforo, análise especial para o Brasil em 5

Qual era a grande prioridade de Eduardo Cunha, em aliança com o engavetador Gilmar Mendes, desde que este pediu vista quando se formou maioria no Supremo Tribunal Federal pelo fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais?

A grande prioridade de Cunha e das poderosas corporações que ele representa era derrubar a decisão em vias de ser tomada pelo STF. O caminho para isso seria aprovação de emenda no Congresso para inscrever no texto constitucional a autorização ao financiamento empresarial de campanha.

É bom lembrar que o financiamento empresarial de campanhas, uma das raízes da corrupção (como vemos novamente no caso Lava Jato / Petrobras), é fonte fundamental e direta do poder do próprio Cunha, para além até de seu próprio mandato. Diz-se (ver aqui) que ele “ajuda” a financiar campanhas de outros parlamentares pelo Brasil com seus “contatos” nas empresas, e assim constrói sua bancada pessoal.

Então, não basta comemorar a derrota da tal aberração do distritão. É preciso estar atento à hipótese, bem lançada pelo Fernando Bastos Neto, de que na verdade essa proposta tenha se tratado sobretudo de uma manobra diversionista. Em bom português, um “bode na sala”. Se colasse, melhor ainda, no raciocínio de Cunha. Mas o central era desviar o foco do debate que vinha tendo mais visibilidade até então: o “devolve Gilmar” e a denúncia da manobra reacionária para constitucionalizar o financiamento empresarial de campanha.

Obviamente, devemos celebrar a derrota do distritão, que foi também uma derrota pontual importante de Eduardo Cunha. Mas não vamos nos iludir: o distritão foi derrotado não devido a alguma grande resistência popular (cadê manifestações massivas na rua a respeito, em um dia em que a possibilidade de aprovação era iminente e real?), mas principalmente por contradições internas entre interesses partidários pragmáticos menores. Desta vez, o veto do sistema “pemedebista” voltou-se contra a própria cúpula e maioria do PMDB. Pemedebismo é o nome inventado pelo cientista político Marcos Nobre para descrever o sistema de governo brasileiro, que funcionaria menos com maiorias estáveis em torno de projetos amplos e mais mediante acordos e vetos pontuais entre grupos fragmentados de interesses, que frequentemente gera uma força inercial, conservadora, no Parlamento brasileiro.

Mas, se sofreu derrota no que me parece que era secundário para sua pauta política, Eduardo Cunha foi bem-sucedido até aqui, mediante essa manobra, no principal: tirar do centro do debate a questão do financiamento empresarial de campanha.

Ao que parece, Eduardo Cunha segue com força para aprovar esse retrocesso. Que a derrota do distritão nos anime para impor a ele uma derrota nessa que é a batalha principal entre os temas em pauta na reforma política (meramente eleitoral, na verdade) na Câmara. Para isso, não vai bastar torcer pelas contradições internas e vetos entre partidos do “condomínio” pemedebista. Esta é uma pauta de enfrentamento ao próprio sistema. Só poderá ser alcançada, portanto, pela mobilização popular.

Eduardo Cunha, Presidente da Câmara.  (Fonte da imagem: Istoé).

24M na Espanha: sim, podemos!

Por Luciana Genro

O resultado das eleições municipais na Espanha neste domingo foi “uma primavera de mudança”, a continuidade de um processo que teve seu início eleitoral no ano passado, quando o Podemos surpreendeu nas eleições para o Parlamento Europeu, e que culminará nas eleições gerais deste ano, alertou Pablo Iglesias, o principal porta voz de Podemos. Foi, sem dúvida, mais um recado claro do povo contra a política de cortes e ajuste.

O PP, partido do governo (centro-direita), perdeu a maioria em grande parte das cidades, recuando 11% no total. Os partidos do poder obtiveram um dos piores resultados da sua história. O Podemos entrou em todos os parlamentos autonômicos, com resultados superiores ao Ciudadanos, agremiação centrista criada sob medida para tirar votos do Podemos. A vitória de Ada Colau na prefeitura de Barcelona é, sem dúvida, o principal fato. Ela é uma das principais lideranças da luta contra os despejos e uma representação genuína do povo que irrompeu na política desde a luta dos indignados e o 15M. “Isto é uma revolução imparável” disse ela na noite de domingo.

O povo que tomou as ruas agora quer tomar as instituições, em um processo no qual a maioria social que sofre as consequências da crise pode se tornar também maioria política. Os que gritaram nas praças “Não nos representam” agora encontram um caminho de representação. Esta vitória eleitoral só se tornou possível por que foi precedida por grandes lutas. Foi nestas batalhas, das praças e ruas, contra os cortes e os despejos, que se constituíram as lideranças que agora despontam no processo eleitoral.

É claro que o caminho não é fácil. Assim como na Grécia a Syriza sofre pressões gigantescas para abandonar a sua postura de intransigência frente à Troika e aos interesses dos mercados, na Espanha o Podemos não está livre das mesmas pressões do establishment político, da mídia e dos capitalistas.

Mas quem tem medo não vencerá jamais. E o povo espanhol está mostrando que não tem medo de arriscar uma nova política, pois a velha já deu mostras suficientes de que não tem nada para oferecer às maiorias, exceto despejos, cortes e retirada de direitos.

No Brasil não é diferente. Aqui também temos que mostrar que sim, podemos!

Nísia Floresta Brasileira Augusta: o feminismo revolucionário no século XIX

Por João Telésforo

Um dos traços evidentes da herança colonial brasileira é o quanto desconhecemos ou menosprezamos intelectuais do Brasil, da América Latina e do “Sul” global. Como consequência, o vício eurocêntrico de reproduzir acriticamente modelos, projetos e discursos pouco enraizados na história do nosso país.  Sem consciência do sangue negro, indígena e feminino que escorre do “moinho de gastar gentes” que formou o capitalismo e o Estado no Brasil, nos perderemos enfrentando moinhos de vento. Sem conhecimento das lutas e dos pensamentos que se articularam para enfrentar esse “moinho” real, dificilmente teremos capacidade de formular um projeto alternativo, de caráter libertador.

O governo fala em “Pátria Educadora”, mas qual é o conteúdo de sua noção de Pátria e de seu projeto de Educação? Para nos armarmos de referenciais da nossa história para refletir sobre essa questão, convido o/a leitor/a a conhecer, então, uma grande intelectual nordestina do século XIX, que pensou o Brasil a partir das lutas de mulheres, abolicionistas e indígenas, e pôs em prática uma pedagogia feminista libertadora. Causas que permanecem, hoje, no centro de qualquer projeto revolucionário que mereça esse nome.

No litoral do Rio Grande do Norte, uma “fértil e charmosa” terra tropical, que nos acolhe com sua quentura úmida, abriga hoje o município de Nísia Floresta. As aspas são do relato de Dionísia Pinto Lisboa, escritora que nasceu ali em 1809 e se tornaria conhecida pelo nome que adotou para si: Nísia Floresta Brasileira Augusta. A exuberância natural do lugar, na região metropolitana de Natal, contrasta com a sua paisagem social. Para citar somente um dado, perversa ironia para a cidade que leva o nome de uma paladina Brasileira da educação: quase um quarto da população do município com mais de 15 anos de idade não é alfabetizada (Censo 2010 do IBGE). Nísia Floresta compreendia as razões para isso. No Opúsculo Humanitário (1853), explica que sem uma “educação esclarecida”, “mais facilmente os homens se submetem ao absolutismo de seus governantes”.

A Brasileira Augusta lutou, em especial, pela educação para as mulheres. Não se contentou com a tradução livre, aos 22 anos, do livro “Direitos das mulheres e injustiça dos homens“. Insatisfeita com a falta de acesso, a má qualidade e a perspectiva patriarcal do ensino para as meninas, criou em 1838 uma escola para elas. Enquanto outras escolas para mulheres preocupavam-se basicamente com costura e boas maneiras, a de Nísia ensinava línguas, ciências naturais e sociais, matemática e artes, além de desenvolver métodos pedagógicos inovadores. Uma afronta à ideologia dominante de que esses saberes caberiam somente aos homens, restando às mulheres aprenderem os cuidados do “lar” e as virtudes morais de uma boa mãe e esposa…

Tal insubordinação rendeu a Nísia não somente críticas pedagógicas, mas também ataques à sua vida pessoal. Artigos nos jornais tentaram desqualificá-la como promíscua nas relações com homens e até mesmo com suas alunas. Mas essa Brasileira não era de baixar a cabeça para as estratégias atávicas do patriarcado. Já no nome que adotou para si e deu à escola, um grito de autonomia contra a moral sexual machista: “Colégio Augusto”, homenagem ao seu companheiro Manoel Augusto, com quem corajosamente viveu e teve dois filhos, enquanto era acusada de adúltera pelo ex-marido, com quem fora obrigada a se casar – tendo-se separado dele no primeiro ano de casamento, aos 13 anos de idade.

Nísia participou das campanhas abolicionista e republicana ao longo de praticamente toda a sua vida. Denunciou também a devastadora opressão colonial contra os povos indígenas, em livros como “A lágrima de um caeté”, de 1849, poema épico de 39 páginas que em sua segunda parte tem como pano de fundo a Revolução Praieira (Pernambuco, 1848-50).

Ao migrar para a Europa, onde morou por quase duas décadas, Nísia continuou escrevendo e publicando livros de literatura e de resistência política. Foi amiga, admiradora e correspondente do filósofo positivista Auguste Comte, mas não absorveu seu determinismo racista. Sempre ostentou o orgulho de sua origem – ressaltada no próprio nome que se deu – e nunca abandonou o compromisso de se somar às lutas pela libertação dos setores oprimidos que formam a maioria social do povo brasileiro.

nisia floresta

A parte já inventada da Roda.

Por Rodrigo Santaella

Vivemos um momento crítico. A esquerda está perplexa, ainda que não imobilizada. Há luta social e há resistência no país. Teremos paralisações no dia 29, há importantes e amplos setores mobilizando-se contra o ajuste econômico: sindicatos diversos, as mais importantes centrais sindicais, coletivos de juventude, entidades estudantis, movimentos sociais, etc. Não há dúvidas que haverá resistência, e se as mobilizações se efetivarem, podemos ter vitórias concretas. É possível a partir da luta social barrar o ajuste ou partes dele, e resistir.

Mas para mudar o curso das coisas, resistir não basta. E nenhum setor da esquerda ou progressista, nem partidos nem movimentos, conseguiu ainda apresentar uma proposta de programa/método com capacidade de disputar verdadeiramente hegemonia na sociedade brasileira hoje. É daí que vem a perplexidade e a angústia. No plano político, isso significa sem dúvida superar a polarização PT/PSDB e ressignificar a própria ideia de “política” na sociedade brasileira. Essa superação e essa ressignificação só se darão com a existência de um programa claro e de uma forma de construção democrática deste no plano social.

 Nos momentos mais difíceis, quando temos menos ideia do que fazer, um bom caminho a seguir é olhar para o óbvio. Não precisamos reinventar a roda inteira. Se não podemos repetir os erros do PT, sobretudo de nos deixar encantar pela institucionalidade, tampouco podemos esquecer que o PT deu certo durante muito tempo. Contra todas as expectativas da ciência política e toda a história de conciliação do Brasil, do seu surgimento até pelo menos a campanha de 1989 o PT foi um partido de massas, ancorado na sociedade organizada, capilarizado, radical e com um potencial transformador enorme: era a encarnação da transformação de que o Brasil precisava. Tudo isso porque era o primeiro e único partido no Brasil formado de baixo para cima, por fora do Estado e das instituições. Foram os setores subalternos da sociedade que, através do trabalho de base, emergiram do subsolo político[1] e transbordaram em forma de projeto através do PT.

Para sair da perplexidade, além de um programa radical e claro, a tarefa é articular e fortalecer os trabalhos de base. Articular o que já existe organizado e atrair o que não está organizado. O guarda-chuva necessário deve ser um espaço que articule movimentos sociais, partidos de esquerda e os mais diversos núcleos de base e de luta local ainda pouco articulados entre si. Precisa-se criar formas de aproximação atraentes e ágeis aos espaços de base, para superar a barreira da aversão à política e criar oportunidades para que na prática se perceba a importância de mobilizar-se. Essa grande articulação precisa de um núcleo comum que, diferente da época anterior, não será um partido político novo, pelo menos no curto prazo. Entretanto – e aí é que mora o perigo – não podemos prescindir dos partidos resistentes, porque precisamos pensar a totalidade para sair da resistência ao avanço, e precisamos de projeto de poder. Sem disputar para valer o poder, é possível resistir: mudar o mundo, infelizmente, não.

[1] A ideia de subsolo político tomo de Luis Tapia, pensador boliviano. A experiência de luta na Bolívia no início do século XXI, apesar de todas as diferenças, pode ajudar a refletir sobre alternativas para o momento. Vou desenvolver um pouco mais nas próximas contribuições por aqui.

:)

Como ser de direita no Brasil em 10 lições

Por Pedro Otoni

Este é um resumo simplificado, organizado de maneira fácil, sobre tudo que você precisa saber para não se preocupar mais com as posições mais informadas do que a sua.

1°) É preciso ter álibi: “já fui de esquerda, porém…”, “me decepcionei com as práticas da esquerda, por isso…” etc.

2°) Leia Veja, IstoÉ … porém a leitura pode ser entediante, então recorra: Willian Waack e Alexandre Garcia para política, Carlos Alberto Sardenberg e Mirian Leitão para economia, assuntos aleatórios, e nunca a propósito, Diogo Mainardi. Acabamentos e melhorias no repertório, assine Globo News.

3°) Curtidas nas redes sociais são fundamentais.  Incremente seu argumento com deixas homofóbicas, machistas e racistas. Se questionado, use as palavras mágicas: liberdade de expressão. Caso seja processado, procure um advogado que tenha na sua sala de espera as revistas citadas na lição anterior, não será difícil. Você pode ser condenado mas ganhará um amigo.

4°) Opiniões sobre relações internacionais geram boa impressão. Então seja direto, confiante. “Cuba, Venezuela e Bolívia são ditaduras”. Mas tenha cuidado; exclua de sua “aula de geopolítica” aqueles países que estiverem em processo eleitoral, senão o argumento fica prejudicado, mas talvez você não se preocupe com isso.

5°) “O socialismo acabou, mas vivemos sob o risco da instalação do comunismo no Brasil”. Repita a frase várias vezes ao dia até se convencer. Se não der certo, refaça sob uso de psicotrópicos. Você pode até não se sugestionar, mas terá alucinações com perfil mais congruente.

6°) Seja patriota, defenda o fim da corrupção com a privatização da Petrobrás, a abertura da saúde para o capital estrangeiro, a isenção de impostos sobre importações e a adesão completa ao livre mercado.

7°) Você deve ser contra o Bolsa Família. Contra o Mais Médicos. Contra a impunidade e contra “os do contra”.

8°) A economia explica tudo. Faça sua análise: “O crescimento baixo é causado pelos altos impostos”. “É necessário reduzir impostos e ampliar o investimento”.  “O Brasil tem a carga tributária mais alta do mundo”. Suas soluções econômicas podem desconsiderar a lógica e os dados, porém serão muito bem aceitas se terminarem com “reduzir impostos”.

9°) Importante utilizar a história a seu favor. Use o argumento em diferentes versões:

– Casual: “Reformas é coisa dos comunistas”.

– Intelectual: “O agronegócio tornou a reforma agrária uma pauta obsoleta. A Reforma Urbana é obra de dirigentes políticos demagógicos defensores de restrição à propriedade privada. A reforma tributária viável é aquela que se destina a reduzir impostos, o contrário é populismo. A mídia é o pilar da democracia, qualquer controle é ataque à liberdade de expressão. A universidade deve ser livre, leve e solta para se tornar uma filial de grandes empresas, com muita PM no campus. As questões sociais são de responsabilidade da sociedade e não da universidade”.

– Hipster: “ Reformas de base são coisas de marxistas”.

10°) Conjuntura: A terceirização irá tornar o Brasil mais competitivo, independente da produtividade do trabalho. A redução da maioridade penal irá tornar a sociedade mais segura, independente das experiências internacionais provarem o contrário.  O voto no sistema de “distritão”® (by PMDB) irá aperfeiçoar a democracia no Brasil, independentemente de ser utilizado apenas no Afeganistão, país ocupado pelos EUA, sem partidos políticos e comandado por chefes locais (PMDB, certo?).

Utilize as lições desconsiderando as consequências sobre sua própria vida, isso pode tornar o ato de ser de direita menos doloroso.

Existe luta além do tsunami conservador? Uma plataforma ampla da esquerda – parte 1

Por André Takahashi

Uma das principais características do momento atual é a falta de um projeto guarda-chuva que organize as forças progressistas para a luta política na institucionalidade e na sociedade. Com o progressivo esgotamento do PT como dínamo mobilizador dos de baixo, e seu adequamento como braço esquerdo da ordem capitalista, o amplo campo progressista se fragmenta em dois eixos igualmente divididos: um vertical e outro horizontal. A divisão no eixo vertical se dá na falta de sintonia entre os grupos que fazem a disputa estatal e os que promovem a construção do poder popular por fora do estado; já no eixo horizontal presenciamos a fragmentação das lutas setoriais e a pouca conexão prática entre suas ações, se fechando em seus temas e grupos sociais de atuação. Tal cenário, combinado com a saída da direita às ruas e seu amplo apoio midiático, passa a impressão que os que querem mudanças democráticas são muito menores do que realmente são.

Essas divisões são, em parte, fruto de um vácuo no campo progressista relacionado à ausência de espaços comuns, amplamente legitimados e consensuais para discussão, análise, síntese e formulação estratégica. Tais espaços são necessários para a criação de visões de futuro mais amplas, que orientem a luta através de narrativas mobilizadoras adequadas à atual conjuntura. Outro sintoma desse vácuo é a profusão de iniciativas que buscam construir novos instrumentos político-partidários para a disputa eleitoral. Centenas de pessoas se engajam na construção desses novos partidos inspirados pelos exemplos do norte global, como o Podemos espanhol e o Syriza grego. Porém, diferente das organizações estrangeiras que os inspiram, as iniciativas brasileiras não conseguem quebrar a fronteira da esquerda, tampouco conseguem ter capilaridade na própria esquerda.

Há uma crise de legitimidade, de liderança ou de direção, não importa o nome, mas é evidente que nenhuma organização ou liderança atual consegue juntar um amplo campo progressista para conversar e elaborar um plano mínimo de ação que rompa o consenso transversal conservador. A aceitação de novas propostas é menor ainda quando estas já partem da ideia de montar um novo partido para disputar a institucionalidade, sem base social ampla ou conexão concreta com as diversas lutas.

Existe uma demanda por um novo instrumento político da esquerda? Evidente! Ele deve disputar o estado ou construir o poder popular? Em aberto, mas é certo que a esquerda continuará atuando nessas duas estratégias, estando unida ou desunida. Algo que é possível construir desde já e que é essencial tanto para a disputa do estado ou para a construção do poder popular é uma plataforma, um programa político que seja um reflexo orgânico das lutas sociais e aponte para as transformações necessárias na construção da democracia real. A construção dessa plataforma não implica necessariamente na construção de um partido, mas a mesma deve reunir elementos que a legitime perante a esquerda de forma mais ampla possível, partidária ou não.

E legitimidade no contexto da esquerda vem da luta social. Apenas um conjunto de movimentos sociais que se mostram combativos nesse contexto de cooptação e desorientação teriam força política para convocar a criação dessa plataforma ampla.

(continua no próximo texto deste colunista)

Autoritários, escravistas e… liberais

Por João Telésforo

Em homenagem à I Ocupação Negra da Faculdade de Direito da UnB.

“Entre as desditas brasileiras estão seus liberais. No Brasil, desgraçadamente, os liberais apoiaram a escravidão e a ditadura. Jamais compreenderam e abraçaram a matriz axiológica que formou a filosofia política com a qual, supostamente, identificam-se. Por isso, agem e pensam como falcões conservadores e autoritários”. Luiz Eduardo Soares, Abril de 2015 (ver a íntegra do comentário aqui).

Será mesmo que o predomínio desse liberalismo é uma particularidade do Brasil?

John Locke, o pai do liberalismo, considerava branda a punição do corte da metade da orelha de criminosos reincidentes, vigente em sua época. O filósofo inglês propunha a pena de corte das duas orelhas, inclusive para réus primários. Terá vindo daí a inspiração para os fascistas que cortaram à faca a orelha de um adolescente negro no ano passado?

Ainda segundo Mészáros, Locke pregava que as crianças filhas dos trabalhadores pobres deveriam ser obrigadas a ir à Igreja todos os domingos, para lá aprenderem seus deveres e não serem criadas “no ócio e sem rédeas”. Liberdade religiosa? Só para os bem-nascidos…

E a liberdade de ir e vir? Locke defendia que “todos os homens que mendiguem sem passes (…) devem ser enviados para uma casa de correção próxima e nela mantidos em trabalhos forçados durante três anos”. Qualquer semelhança com posições contemporâneas de muitos liberais sobre “rolezinhos”, no Brasil, ou imigrantes, em toda parte, não é mera coincidência.

Locke era acionista da “Real Companhia Africana”, que utilizava massivamente o trabalho escravo em plantações no Novo Mundo. O filósofo era “ferrenho defensor de seu empreendimento”, segundo a historiadora Susan Buck-Morss, que complementa: “Locke foi autor das Constituições Fundamentais da Carolina e membro de seu Conselho de Comércio e Plantações, tendo sido seu secretário entre 1673 e 1675. As constituições da Carolina proclamavam: ‘todo homem livre da Carolina deve ter poder e autoridade absolutos sobre seus escravos negros’”.

Não se trata apenas de contradição entre o discurso e a prática. O buraco é mais embaixo, alcança o âmago da ética liberal de Locke: “a liberdade britânica significava a proteção da propriedade privada, e os escravos eram propriedade privada”, observa Buck-Morss. A velha “liberdade” do homem branco burguês possuir terras (natureza), escravos/as e famílias (mulheres e crianças)…

Locke não é um caso isolado. É interminável, ao longo dos séculos e até hoje, a lista de “grandes” políticos e pensadores liberais, nas mais diversas partes do mundo, sustentando políticas e regimes autoritários, coloniais e racistas. Trata-se de traço fundante e sistemático dessa corrente política, conforme expõe Domenico Losurdo em sua “Contra-História do Liberalismo”.

Obviamente, há exceções à regra. O discurso liberal foi subvertido, apropriado criticamente em suas contradições, e estrategicamente manejado em diversos combates políticos que levantaram a bandeira da igualdade e da liberdade real para nações colonizadas, classes populares, mulheres, negros/as…

É um grave equívoco, porém, menosprezar o histórico de relações sistêmicas de dominação promovidas e legitimadas pelos liberais ao longo da história mundial. Essencializar o liberalismo como uma “matriz axiológica” comprometida com a universalização dos direitos humanos nos desarma para o necessário enfrentamento ao modo de produção capitalista, que continua promovendo autoritarismo, escravidão, genocídio e devastação no Brasil e no mundo inteiro.

Ajuste fiscal e luta social

Por Guilherme Boulos
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

A política de ajuste fiscal já é a grande marca dos governos neste ano de 2015. Comandado por Dilma e Levy na esfera federal e seguido fielmente por governadores e prefeitos, o atual ajuste sinaliza para uma grande recessão na economia brasileira.

A receita é a mesma de sempre. A mesma que foi aplicada na década de 1990 por aqui e que anda sendo aplicada – com resultados dramáticos – na Europa desde 2008. Ajustar as contas em cima dos mais pobres, cortando investimentos públicos e atacando direitos sociais.

E parece estar apenas começando. As MPs 664 e 665, que dificultam o seguro-desemprego, o abono salarial e as pensões, são uma das facetas desse ajuste. Longe de ser a única, mas curiosa. Numa entrevista à Folha de São Paulo em 1 de setembro de 2014, no auge da campanha eleitoral, Armínio Fraga defendeu um ajuste baseado em cortes no seguro-desemprego e nas pensões. Seu candidato perdeu, mas sua receita parece ter vencido literalmente.

Junto a isso, a política de aumento de juros parece ser compulsiva no governo Dilma 2. Todo mês é 0,5% na Selic, agravando o comprometimento de recursos com  o pagamento da dívida pública e dificultando a recuperação da economia. Se juros altos gerassem crescimento, o Brasil teria crescido 10% ao ano com FHC.  Juros altos geram estagnação e desemprego.

Mas o ajuste não pára por aí. O corte de investimentos no Orçamento Federal pode ultrapassar R$100 bilhões, incluindo áreas “prioritárias”. A educação foi a primeira a ser ceifada, o Fies passou por dificuldades e o Minha Casa Minha Vida, programa vitrine do governo, permanece suspenso desde fins de 2014. A terceira etapa do programa – prevista inicialmente para ser lançada ainda em 2014 – permanece em fase de “estudos”.

O ajuste vem com força e a única forma de barrá-lo será com ampla mobilização social. Não dá pra apostar um real em que o Congresso barre as medidas. A oposição do PSDB às MPs é ridícula, principalmente vendo como os governadores tucanos – Beto Richa à frente – têm aplicado o ajuste e ataques aos direitos.

Para exigir a liberação imediata dos recursos para moradia popular, o MTST iniciou neste fim de semana uma jornada de ocupações. Foram duas na região metropolitana de São Paulo, que já envolvem mais de 2.500 famílias. Outras novas ocorrerão, tanto em São Paulo quanto em outros estados. Nossa resposta será com luta e ocupações.

Mas é preciso avançar na unidade do movimento social para obter vitórias. O dia 29 de maio será uma oportunidade de juntar paralisações nos locais de trabalho, organizadas pelo movimento sindical, com bloqueios de grandes vias pelo movimento popular e a juventude organizada.

No 15 de abril, a partir da luta contra a terceirização, conseguimos juntar um campo amplo e o resultado foi bastante positivo. Se esta mesma unidade se expressar no 29 de maio estaremos trilhando um bom caminho para resistir àqueles que querem jogar a conta da crise no colo dos trabalhadores mais pobres.