O sonho acabou: Baltimore Riots Special

Por Gustavo Capela
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Foram anos e anos de promessas. Ilusões literalmente vendidas em toda esquina. De Wall Street a Rodeo Drive. De Haight até o Las Vegas strip. O american dream virou sinônimo da prosperidade possível, o símbolo da capacidade individual de fazer seu próprio destino. E nada parecia abalá-lo. Foram bilhões e bilhões de dólares gastos com filmes, músicas, peças publicitárias e panfletos ideológicos que nos faziam acreditar que o esforço individual bastava.

Acontece que esse sonho vem definhando há décadas e, desde 2008, parece ter se esgotado não só em ato, como em discurso. Exemplo mais claro disso são as manifestações de Ferguson e, mais recentemente, de Baltimore. Engana-se quem acha que são fatos isolados. Que a raiva ali presente diz respeito “somente” à violência policial. A violência policial, assim como a seletividade penal, é um sintoma dessa sociedade doentia que não só envia negros e latinos para as prisões, mas os envia para guerras sem sentido do outro lado do mundo. Os Estados Unidos abrigam, hoje, uma população com “veteranos” de guerra aos 25 anos e com 2,4 milhões de pessoas encarceradas. Sendo que 1 milhão são homens negros. Mais negros presos do que havia escravos no auge de seu regime escravocrata.

As manifestações de Baltimore refletem problemas de injustiça social que acometem milhões de pessoas nesse ambiente hostil e competitivo que as culpa pelo próprio fracasso. Pelo próprio encarceramento. Pela própria morte. São pessoas traumatizadas, depressivas e desanimadas com uma economia que não sustenta mais aquelas pequenas exceções que enobreciam esse discurso cretino da escolha racional. E ainda são obrigadas a ouvir, da White America, que suas reclamações devem ser pacíficas. Parece piada, até. Um país com um arsenal militar maior do que a união de todas as forças armadas do mundo. Um país com uma polícia bestializada. Um país com um racismo perverso e assassino. Um país, portanto, no qual a palavra paz” é a última coisa que a cultura ensina. O que se prega, na verdade, é a conformação. A naturalização da desigualdade. E o silêncio. Porque quem tem juízo obedece.

A situação estadunidense é também um espelho dos problemas e das crises do capitalismo global, claro. O Bailout de lá são os juros altos e a ausência de auditoria da dívida pública aqui. Os lucros recordes dos bancos aqui são os bônus enormes pagos aos executivos de empresas que demitiram dezenas de milhares por lá. E os Baltimores e Fergusons de lá são os Paranás, Rocinhas e Marés daqui.

Não é dizer que inexistam particularidades em cada uma dessas nações. É óbvio que existem. E elas representam as diferentes posições de cada país na divisão internacional do trabalho. Por isso mesmo, porém, é também inegável a conexão entre os acontecimentos nessa sociedade cada vez mais global e conectada.

Não são meras coincidências as polícias despreparadas e abusivas, os impedimentos das manifestações contrárias ao poder instituído e todo o sangue que jorra nas ruas.

Não é mera coincidência a precarização do trabalho aqui e acolá, o avanço das agendas super conservadoras e a falta de utopias. Todos nós nos acostumamos a ver, nas ruas e nas televisões, um glamour quase absoluto da White America.

E não é mera coincidência o avanço do neoliberalismo, a desarticulação das lutas anti-sistêmicas e a consequente apropriação delas pela ideologia do consumo. São as conexões de um capitalismo perverso. Que não vê limites. Não enxerga pessoas. E passa por cima de sonhos. Até aquele sobre o qual ele se construiu.

2015-04-28t005951z1lynxmpeb3r00irtroptp4usa-police-baltimoreNational Guard Activated To Calm Tensions In Baltimore In Wake Of Riots After Death Of Freddie Gray

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Um comentário sobre “O sonho acabou: Baltimore Riots Special

  1. María del Pilar Tobar Acosta 03/05/2015 / 01:15

    O modelo de lá ressoa aqui.
    Querendo ou não, nossa polícia foi treinada nos idos de 64 pela de lá.
    Nossos políticos treinados igualmente no neoliberalismo.
    A equação de suprimir a seguridade social, retirar todo o subsídio à cultura e à educação e passa o dinheiro “economizado” para a segurança, na ideia de um Estado mínimo para o social e máximo para possibilitar as trocas mercantis, já foi “solucionada” no sangue que jorramos todos os dias…
    A luta segue, companheiro. Grata por ler sua análise.

    Curtido por 1 pessoa

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