Respostas demais

Por Philippe Campos* – em colaboração especial para o Brasil em 5
(participe também enviando seus textos aqui)

O filme e o livro O Guia do Mochileiro das Galáxias nos presenteia com uma sacada genial: a resposta ao Enigma Fundamental. Basicamente a história é a seguinte: constroem um computador, o Pensador Profundo que poderia responder a qualquer pergunta, então lhe fazem uma pergunta fundamental: “qual a resposta pra vida, o universo e tudo mais”, o Pensador Profundo diz: 42; insatisfeitos com a resposta, percebem que na verdade nunca souberam a pergunta exatamente.

Engraçado nisso é que essa estrutura de uma resposta sem uma pergunta é exatamente o que denominamos de sintoma em psicanálise. O sintoma nada mais é do que uma formação que sempre se manifesta, entretanto, nunca se tem clareza sobre o que é.

O que caracteriza uma forte construção sintomática no meio social (mas não só) é o ódio, a violência e as ‘soluções milagrosas’ (do tipo: “acabe com os judeus e o país será liberto”) e não vivemos isso no mundo de hoje? Se, por um lado, temos essas manifestações de ‘ódio aos comunistas’ se alastrando, por outro, temos essa postura reativa de time que está perdendo: fazemos uso de uma matriz conceitual já pré-montada que também nãos nos tem permitido boas perguntas. Se a resposta pelo ‘ódio aos comunistas’ é simples demais, as teses reativas à esquerda, o “recalque dos ricos”, “os coxinhas”, o “fiu-fiu”… não nos têm levado a boas perguntas.

Temos aí um erro que recorre tanto na direita quanto na esquerda. Por meio do par freudiano: interpretação/repetição, podemos indicar uma possível separação do campo, naquilo da ordem da reação, por um lado e da criação, por outro. A formação sintomática, no que ela tem de reativa, é uma estrutura que sempre tende a se replicar. O sintoma, assim, seria a matricialização do mundo; o sujeito, acometido com formações reativas, tende a ver o mundo a partir de signos, subintender demais, ‘vestir a carapuça’, ter muitas respostas. Sucintamente, o indício de que nos encontramos no cerne de uma estrutura fortemente sintomática é a excessiva “maniqueização” do mundo – “se você não está com nós, está contra nós” –, uma organização narrativa que só encontramos nas ficções mais baratas (de Ursinhos Carinhosos a novelas mexicanas).

Nesse sentido, a interpretação em Freud é o que rompe esse ciclo reprodutivo do sintoma, o sinal de que uma interpretação vai bem é quando ela produz efeitos na realidade, quando ela gera: perguntas da parte do analisando, quando ele volta a se colocar questões e não respostas, ou ainda, quando ela cria dúvidas sobre a realidade, permite ver as coisas sobre um novo ângulo.

O que chamamos direita é algo mais cabeça-dura mesmo, resistente à mudança, não é à toa que os chamam “conservadores”. Mas essa esquerda, acossada, igualmente movida por contrastes e signos de ódio não tem conseguido criar nada, se reinventar, pelo contrário, estamos somente perdendo campo. Acaso esse avanço da direita não se dá pela falta da recolocação da dúvida na agenda? Pela falta de boas perguntas ou de uma nova interpretação?

*Psicólogo, natural do sul de Minas, trabalha com pesquisas na área de filosofia e psicanálise e milita em movimentos sociais.

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