Crise do capital é isso aí!

Por Helder Gomes

“Este mundo de mierda está embarazado de otro!”

Eduardo Galeano

Os meses de maio se iniciam com um dia especial. Em vários momentos as classes trabalhadoras no Brasil deram demonstração de entender perfeitamente o sentido deste dia, mas, pelo menos desde Vargas, a tradição também tem sido de aproveitar a oportunidade para manifestações mais intensivas do oportunismo e do peleguismo. Diante dos reflexos internos das crises que assolam o planeta, entre o enfrentamento e a conciliação, nos últimos tempos vem ganhando espaço a segunda posição. Até quando as classes trabalhadoras irão tolerar o recuo da maioria de seus pretensos representantes frente ao maior rigor da superexploração do trabalho, exigido pela administração das crises atuais?

Ernest Mandel foi muito criticado no final dos anos 1960 quando publicou suas previsões sobre uma onda longa de crises que se formava no capitalismo mundial naquele período a partir da observação da evidente materialização da lei de tendência à queda das taxas gerais de lucros. De lá para cá, várias interpretações à esquerda tentaram dar conta de entender essas evidências sobre o aprofundamento dessas crises e os desafios que elas impõem à organização das classes trabalhadoras. Porém, boa parte dessas formulações esteve eivada de um keynesianismo perturbador, que trouxe grandes prejuízos ao pensamento revolucionário e, talvez, tenha sido de grande valia à fundamentação das posições conciliadoras que vemos se difundir por aí.

Enquanto predomina o consenso forjado em torno da administração das crises, a especulação parasitária impõe sua lógica a toda a sociedade. Para ela, importa cada vez menos a forma material da produção industrial, ou dos serviços, porque as apostas se voltam para o crescimento exponencial de uma forma fictícia de riqueza: aquela que supostamente poderia ser (ou não) produzida no futuro, pois o que interessa não é a sua realização em si, mas, a especulação em torno dessa possibilidade. Assim, a acumulação fictícia se reproduz numa lógica em si mesma, e cada vez mais depende da crença generalizada em sua capacidade de seguir se reproduzindo (pelo menos até que haja algum movimento brusco que abale essa fé).

Por que se tornou possível essa reprodução autônoma da lógica especulativa da acumulação? As proposições dos keynesianos parecem insuficientes para uma boa resposta a essa indagação. Encontramos entre os marxistas, os ensinamentos de Paulo Nakatani e do saudoso Reinaldo Carcanholo, e a partir deles podemos afirmar que o capitalismo alcançou um novo estágio de seu desenvolvimento, quando o capital fictício puramente especulativo passou a dominar as demais formas de capital (produtivo, comercial, a juros, rentista tradicional etc.). E mais, neste novo estágio de domínio da acumulação fictícia, a saída capitalista para as atuais crises, em nível mundial, exigiria pelo menos duas condições essenciais: uma derrota da dimensão especulativa parasitária do capital, em favor da regeneração de suas formas tradicionais e, ainda, uma derrota às classes trabalhadoras, impondo um regime ainda mais rigoroso de superexploração do trabalho que, inclusive, deveria alcançar as forças laborais organizadas nos países centrais, a fim de se recuperar as taxas de lucros reais.

A partir do aprofundamento da crise sistêmica, observado em 2008, ficou ainda mais nítido que a primeira dessas condições está longe do horizonte de cálculo dos Estados Nacionais. Muito pelo contrário, tem sido a ação de endividamento governamental a principal responsável pela salvação dos portadores dos títulos podres ameaçadores, com o argumento de que eles seriam muito grandes para quebrar. No entanto, os mesmos governantes não medem esforços para, doa a quem doer, impor o corte drástico de serviços públicos essenciais às classes trabalhadoras e para flexibillizar a proteção às relações de trabalho, sob o argumento de que não se faz omeletes sem quebrar ovos. E esse tem sido um fenômeno mundial (a Europa que o diga) que começa a ficar mais nítido aqui no Brasil.

Daí a retomada da questão inicial. Até que ponto as classes trabalhadoras suportarão a carga ampliada de superexploração exigida para regeneração do capitalismo? Seria possível ao capital manter o regime de cooptação das lideranças sindicais e populares para a realização desse projeto, diante de tantas evidências de que esse modelo se esgotou e promete promover uma barbárie ainda mais drástica do que estas que estamos assistindo cotidianamente? Ou podemos acreditar que esta pode ser uma nova oportunidade de reconstruir o mundo sobre outras bases de sociabilidade, a partir da superação de tão poderosos inimigos?

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Um comentário sobre “Crise do capital é isso aí!

  1. Valquiria Padilha 07/05/2015 / 14:58

    Olá, boa tarde! Tenho adorado os posts e vocês. Parabéns! Como sou professora universitária (sociologia), sempre gosto de salvar em PDF artigos interessantes para repassar aos alunos, usar em sala. Vocês teriam como criar um ícone em que a gente possa facilmente salvar os textos em PDF? Obrigada! _____________________________________ Profª. Drª. Valquíria Padilha Universidade de São Paulo (USP) Tel: 55(16) 3315.0510 – USP

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