Para não repetir o PT, autonomia como estratégia

Por Rodrigo Santaella

Nesta semana, o PT lançou um programa na TV buscando dialogar diretamente com os trabalhadores e mostrar-se mais militante. No dia seguinte, confirmou ao PMDB o apoio ao ajuste econômico que tende a retirar direitos e arrochar a vida dos trabalhadores. Há tempos, a dicotomia ‘adequação à ordem burguesa x luta de massas’ está resolvida no PT. Seus lampejos de diálogo com a dinâmica da luta dos movimentos sociais e dos trabalhadores são táticos, calculados como forma de dar mais sustento à dinâmica institucional do partido no poder.

Para xs socialistas, é fundamental o debate sobre como lidar com as instituições da democracia burguesa. O debate sobre a estratégia da pinça, feito no início da década de 1990 no PT, afirmava que “a ruptura com a ordem burguesa será o resultado de um movimento articulado, em pinça, dos trabalhadores sobre o centro de poder burguês – isto é, pela combinação do avanço sobre a institucionalidade com a criação do poder popular”. O principal mérito dessa tese é superar um etapismo que defenderia ocupar espaços na institucionalidade burguesa antes, para construir as condições de um movimento de poder popular.

A estratégia falhou. A tese de Francisco Weffort, ainda em 1965, sobre os nacionalistas no período pré-64 poderia ser aplicada para explicar o PT: “não apenas se fascinaram pelo Estado como tal, mas também (…) tentaram representar as massas jogando oligarquicamente sobre elas, e assim preparam a sua própria ‘traição’ pelas massas”. O braço estatal da pinça fica cada vez mais forte, enquanto o braço social definha.

Parte da esquerda atribui à opção por disputar a sério a institucionalidade a derrocada do projeto petista.  É uma crítica potente, mas incompleta, porque não supera a ideia de um ‘dentro’ e um ‘fora’ do Estado, que operariam com lógicas distintas. Sem superar essa dicotomia, tende-se a cair em um movimentismo particularista – “mudar o mundo sem tomar o poder” – ou numa aposta na autoconstrução de organizações que, com clareza programática invejável e muita centralização, não permitiriam a cooptação, orientando seus militantes e os movimentos em que atuam para a política correta.

O Estado capitalista tem poder de atração, e perpassa os mais diversos aspectos da vida social. Nossa tarefa é contribuir com a criação de condições para um sistema ainda mais atrativo, disputando hegemonia – institucionalidade e movimentos, aparelhos e consciências – a partir de uma só lógica, que tenha como princípio o empoderamento popular. O único horizonte possível é a autonomia como estratégia: uma totalidade social mais atrativa é aquela na qual exploradxs e oprimidxs são empoderadxs.

Se pensarmos a disputa a partir de duas lógicas, a de dentro do Estado sempre passará por cima da de fora, o que a história recente do PT ilustra muito bem. Por outro lado, se acreditarmos que centralização e clareza programática trarão as respostas e evitarão a cooptação, repetiremos erros e nos isolaremos mais. Sem abrir mão da disputa pela totalidade, precisamos apostar na autonomia como construtora de sínteses. A esquerda radical partidária continua sendo necessária para a transformação social, mas precisa ousar transformar-se em articuladora de protagonismos autônomos nas mais diversas frentes da luta social. Esse é o desafio dos partidos de esquerda no Brasil contemporâneo.

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