“Neste ritmo, haverá um desastre econômico difícil de esquecer”

Por Edemilson Paraná

A frase acima, que dá título a esse texto, não foi dita por algum militante empedernido ou por mais um esquerdista de cátedra; as aspas são de Benjamin Steinbruch, vice presidente da FIESP, a maior federação de industriais do Brasil, sobre o pacote de “ajustes” recém aprovado na Câmara dos Deputados.

Se é verdade que Benjamin passa longe das fileiras daqueles que a esquerda ousaria chamar de “companheiros”, é certo que sua afirmação denuncia algo inconteste: o plano é desastroso para os trabalhadores, mas também uma hecatombe para a já cambaleante indústria nacional. A indústria, por sua vez, passa longe de ser apenas umas “vítima”. Mas isso é papo para depois. O certo é que, além de um estelionato político, o “plano” tem grandes vocações para o fracasso econômico.

Quando se trata de capitalismo, a dor de uns geralmente tem seu correlato na alegria de outros: atividade industrial em queda, desemprego começando a dar o ar da graça; e eis que os bancos e instituições financeiras acumulam lucro recordes. Alguns, como o Bradesco, de onde vem o atual ministro, somam crescimento de dois dígitos: no primeiro trimestre de 2015 viu seu lucro líquido crescer 23,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. Para termos de parametrização, o crescimento do PIB brasileiro em 2014 foi de 0,1%. A projeção para 2015 é negativa.

Não seria para menos: a alta desses que já são os maiores juros reais do mundo mantém as vacas em regime de interminável engorda. O tragicômico mora na constatação de que os “cortes” realizados, sobretudo às custas dos trabalhadores, não tem servido de muita coisa: a alta da Selic fez crescer o fosso e a dívida pública federal subiu 4,79% em março. Traduzindo: estão transferindo dinheiro de seu bolso para as já abarrotadas carteiras dos banqueiros. Justiça social às avessas sob o comando de um governo dito dos trabalhadores.

As medidas em questão não apontam para a melhora da situação econômica, mas justamente para um quadro de aprofundamento recessivo: choque de câmbio, choque de custos e corte de gastos tendem a derrubar a já baixa taxa de investimento. Os bancos já estão cortando crédito, e os juros continuam subindo. A terceirização, se aprovada, tende a achatar o mercado de trabalho, desestruturando e jogando para baixo os salários, o que pode deprimir o comércio. Nesse quadro de recessão, a arrecadação já combalida despenca e com isso o ajuste se torna ainda mais longo e doloroso.

No polo da inflação a coisa tampouco é animadora. Dado o elevado grau de oligopolização e concentração da economia brasileira, quedas de demanda podem vir acompanhadas de aumento de preço em busca de manter ou elevar as margens, algo que tenderá a deteriorar ainda mais a já penosa situação dos trabalhadores e trabalhadoras, os principais afetados pelo pacote de maldades.

Tudo somado, após o governo ter cedido à chantagem do mercado financeiro com a ameaça da perda do grau de investimento, a direção não parece ser outra senão uma estrada para a recessão. Aceitaremos seguir pagando essa conta?

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