Trajetórias de Bandung

por Paris Yeros

No mês de abril comemoramos os sessenta anos da Conferência de Bandung. Realizada em 1955, na Indonésia, a conferência reuniu pela primeira vez chefes de Estado do mundo afro-asiático recém-descolonizado, para fortalecer laços de amizade e definir estratégias de desenvolvimento pacífico. Cabe uma reflexão sobre este evento e as suas trajetórias.

Bandung foi um divisor de águas nas relações internacionais. Após meio milênio de dominação europeia, povos não europeus, ora soberanos, se reuniram de maneira autônoma para tomarem iniciativas próprias e estabelecerem novos princípios de conduta internacional. Nasceu em Bandung nada menos que um novo movimento civilizatório, anti-imperialista e antirracista, a partir das periferias.

Afirmou-se o princípio de autodeterminação nacional, exigiu-se a descolonização total e defendeu-se a resolução pacífica de disputas entre Estados. Também foi declarado o princípio de não alinhamento em relação ao imperialismo ocidental e à sua disputa nuclear com a União Soviética. Conforme a versão mais refinada, aceitou-se assistência econômica dos dois lados, mas evitou-se participação nos seus blocos militares. A estratégia juntou pragmatismo e idealismo, visando à sobrevivência dos novos Estados na Guerra Fria e à sua industrialização acelerada. Na maioria dos casos, a estratégia se submeteu à liderança das burguesias nacionais nascentes, embora não se excluíssem caminhos mais radicais como o maoísta.

O movimento alcançou as Américas pela adesão de Cuba e foi se tensionando pelas lutas armadas de libertação no Vietnã e na África. Ao longo desses anos, foi bem sucedido em levar a cabo a descolonização, com a exceção da Palestina. O seu nacionalismo econômico também estabeleceu um novo patamar de relações com os centros imperialistas. No entanto, o acirramento das contradições e a diferenciação do Terceiro Mundo pela emergência das semiperiferias ampliaram as fissuras do movimento frente ao imperialismo e seu militarismo. A decadência do movimento se deu em meio a crise da dívida do Terceiro Mundo e a queda do contrapeso soviético.

Porém, não foi esse o fim da história. As tendências orgânicas da emergência do Sul evoluíram, configurando trajetórias que hoje possibilitam um novo Bandung, embora cheio de novas contradições. A primeira trajetória consiste no avanço das semiperiferias e na formação do BRICS, sob a liderança chinesa. A sua força motriz não é uma nova mobilização popular e, sim, empresas monopolistas da própria semiperiferia. Trata-se de uma faca de dois gumes: o seu interesse básico é a ampliação do clube monopolista, porém chega a desafiar o monopólio financeiro estadunidense e, no caso da China e da Rússia, à nova onda militarista.

A segunda trajetória diz respeito ao nacionalismo anticolonial e antirracista, que vem recuperando a sua força na mobilização das classes populares, negras e indígenas. Do Zimbábue à Bolívia, as duas experiências mais avançadas hoje, está em curso uma mobilização mais profunda, com consciência histórica e sentido de solidariedade Sul-Sul. No Brasil, o novo movimento negro acarreta enorme potencial.

A terceira trajetória consiste justamente na difusão do espírito de Bandung às Américas, criando a possibilidade de se sustentar uma aliança tri-continental mais duradoura. Já houve certo afastamento da América do Sul da esfera de influência estadunidense. Mas os desafios permanecem. Além da diferenciação regional avançada, pesa o problema da negação do mundo não europeu nas Américas.

Anúncios

Um comentário sobre “Trajetórias de Bandung

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s