A esquerda coerente precisa levar a corrupção a sério

Por Sabrina Fernandes
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Na tentativa de se separar da esquerda moderada e da desastrosa experiência do PT, o restante da esquerda busca trazer uma nova classificação, pois muitas vezes a menção de esquerda autêntica ou verdadeira não é suficiente. Surgem novos e velhos termos. Esquerda socialista (somos todos?); esquerda radical (nos separa dessa esquerda “da ordem”, mas o quanto o termo dialoga além dos nossos próprios círculos militantes e acadêmicos, ainda é incerto); e esquerda coerente. O interessante de se posicionar como esquerda coerente é que a coerência depende não somente da promoção de discursos e práticas alinhados, ao contrário da ambiguidade forjada pelo lulopetismo, mas também nos traz a necessidade de lidar diretamente com um dos problemas no centro da ultra-política e da crise de representação: a corrupção.

Ser coerente implica em uma série de valores e qualidades que precisam ser exercitados e aplicados no dia a dia, não apenas na oposição a um ataque a direitos trabalhistas ou sociais. É necessária uma práxis capaz de unificar a luta que fazemos nas ruas com o comportamento de cada militante em relação às bandeiras levantadas e a maneira como as organizações lidam com as falhas e desafios que no PT foram normalizadas ou empurradas para debaixo do tapete. E é justamente por isso que precisamos complementar nosso debate e ação sobre luta de classes, fim das opressões e demais, com posicionamentos concretos sobre a corrupção que vão além do “Fora todos os corruptos!” que apela para a mega-corrupção, mas frequentemente negligencia outras práticas corruptas na política.

A esquerda coerente precisa demonstrar de onde vem a corrupção e, principalmente, como pretende combatê-la externa e internamente. Não é suficiente apenas declarar que a corrupção é fruto do capital, quando experiências de esquerda já sofreram com esse problema mundialmente, devido à burocratização, personalismo, e outros, o que demonstra que forma e método podem sim fazer a diferença quanto aos valores forjados no interior da esquerda. O foco moralista na corrupção provindo de uma direita hipócrita não nos isenta de incluir a luta contra a corrupção como pauta prioritária. Além de ser um dos fatores que mais dialoga com a frustração geral da sociedade que hoje se expressa em uma falsa polarização, levar o problema da corrupção a sério significa também impor autocrítica contínua dentro das organizações de esquerda. Degenerações políticas de indivíduos ou grupos, fraudes congressuais, agressões e acordos insípidos dentro da esquerda devem ser tratados com o mesmo repúdio que dedicamos a tais práticas no PT e na direita, a ponto de possibilitar que a autocrítica nutra disciplina organizacional.

É insuficiente propor um projeto alternativo de sociedade, especialmente em um contexto de grande despolitização, sem a construção ativa, já de imediato, de novos valores sociais, políticos, e pessoais. Práticas éticas e autocrítica constante são elementos essenciais para impedir a reprodução por militantes de esquerda de formas de opressão e exploração implícitas no senso comum. Tanto a politização quanto a construção de uma práxis revolucionária dependem disso.

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