“Elegeu, tem que engolir!” O acordo petucano sobre o impeachment.

Por Vitor Hugo Tonin* – em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

O governo tucano de FHC deixou um legado de quatro derrotas nacionais consecutivas para seu partido. O desgaste é tal, que mesmo com a atual crise do seu aparente opositor (PT), o PSDB não consegue se apresentar como alternativa à insatisfação popular existente. Ainda assim, Cardoso foi o primeiro a afastar a ideia de um impeachment contra atual presidenta. O sumo pontífice do petucanismo sabe que não adianta tirá-la do poder sem hegemonia. Seria um caos, para eles. E vai que o povo gosta dessa história e começa a querer outro, e outro…até não sobrar ninguém?

Mas o PSDB foi bem recompensado. O tucano Beto Richa, versão sulista de Aécio Neves, surpreendeu o Brasil ao “controlar” manifestações dos professores com pitubulls e bombas voadoras (sim, elas eram atiradas de cima dos helicópteros) para tentar abocanhar as aposentadorias do funcionalismo público e outros direitos dos trabalhadores e do povo paranaense. E isso tudo para preencher o buraco fiscal deixado por ele mesmo!  No Paraná, nos  últimos dias, caíram três figuras do alto escalão. Há uma profunda crise de legitimidade. A insastisfação popular é gigantesca e, assim como Rousseff, Richa foi eleito sem apresentar o verdadeiro programa que está implantando. Mesmo assim, todas as lideranças da oposição paranaense se pronunciaram contra qualquer hipótese de impeachment.

Essa sagrada aliança em torno da estabilidade do mandato, mesmo diante de flagrantes estelionatos eleitorais, não é nova. Em 1999, o estouro da crise cambial logo após a reeleição (comprada pelo mensalão tucano) de FHC também trouxe este debate nas fileiras petistas. Lula e Dirceu salvaram FHC.  O que FHC em 1999, Dilma e Beto Richa tem em comum é que seus mandatos impopulares estão sustentados formalmente, pela lei, e não mais pela vontade popular. Não se trata, portanto, de um tema jurídico, pois não é isto que está em jogo. Afinal, Collor foi impedido, mas depois absolvido de todas as acusações. Ora, se era inocente porque ele caiu? Justamente porque o recurso jurídico é na verdade um recurso político. Portanto, não venham com balela. Ninguém quer o impeachment porque se gritar “pega ladrão” não fica um!

No atual sistema eleitoral as campanhas são propagandas publicitárias e os candidatos uma mercadoria muito cara, mas muito vagabunda. Tão vagabunda que não duram nem alguns meses e já caem na insatisfação popular. Os verdadeiros acordos e interesses políticos são realizados em gabinetes fechados com os financiadores de campanha, tal como tem sido exposto nas investigações da Petrobrás. Eles não aparecem na TV! O problema do caixa dois, portanto, também não é jurídico.  Seu verdadeiro crime é  político. A mentira contábil do caixa 2 é a forma com que se ocultam os verdadeiros interesses políticos dos candidatos.

Isso ocorre porque os consumidores, neste caso, nós, o povo, não temos direito à devolução. Ao contrário, a garantia é do vendedor! Vendem-nos uma mercadoria vagabunda com a garantia de que teremos que aturá-la por quatro anos. Mas isso poderia ser diferente.

Na Venezuela, com uma coleta de assinaturas o povo pode convocar um referendo para julgar o eleito na metade do mandato. A oposição fez isso para remover Chávez do poder em 2004, mas perdeu a eleição.

A refundação da república brasileira que haverá de sobressair, mais cedo ou mais tarde, da atual crise política, terá que aproximar a fonte do poder (o povo) dos seus representantes (os eleitos) o máximo possível.   Candidato caô terá vida curta!

*Vitor Hugo Tonin é Doutorando em Desenvolvimento Econômico na Unicamp.

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