Existe luta além do tsunami conservador? Uma plataforma ampla da esquerda – parte 1

Por André Takahashi

Uma das principais características do momento atual é a falta de um projeto guarda-chuva que organize as forças progressistas para a luta política na institucionalidade e na sociedade. Com o progressivo esgotamento do PT como dínamo mobilizador dos de baixo, e seu adequamento como braço esquerdo da ordem capitalista, o amplo campo progressista se fragmenta em dois eixos igualmente divididos: um vertical e outro horizontal. A divisão no eixo vertical se dá na falta de sintonia entre os grupos que fazem a disputa estatal e os que promovem a construção do poder popular por fora do estado; já no eixo horizontal presenciamos a fragmentação das lutas setoriais e a pouca conexão prática entre suas ações, se fechando em seus temas e grupos sociais de atuação. Tal cenário, combinado com a saída da direita às ruas e seu amplo apoio midiático, passa a impressão que os que querem mudanças democráticas são muito menores do que realmente são.

Essas divisões são, em parte, fruto de um vácuo no campo progressista relacionado à ausência de espaços comuns, amplamente legitimados e consensuais para discussão, análise, síntese e formulação estratégica. Tais espaços são necessários para a criação de visões de futuro mais amplas, que orientem a luta através de narrativas mobilizadoras adequadas à atual conjuntura. Outro sintoma desse vácuo é a profusão de iniciativas que buscam construir novos instrumentos político-partidários para a disputa eleitoral. Centenas de pessoas se engajam na construção desses novos partidos inspirados pelos exemplos do norte global, como o Podemos espanhol e o Syriza grego. Porém, diferente das organizações estrangeiras que os inspiram, as iniciativas brasileiras não conseguem quebrar a fronteira da esquerda, tampouco conseguem ter capilaridade na própria esquerda.

Há uma crise de legitimidade, de liderança ou de direção, não importa o nome, mas é evidente que nenhuma organização ou liderança atual consegue juntar um amplo campo progressista para conversar e elaborar um plano mínimo de ação que rompa o consenso transversal conservador. A aceitação de novas propostas é menor ainda quando estas já partem da ideia de montar um novo partido para disputar a institucionalidade, sem base social ampla ou conexão concreta com as diversas lutas.

Existe uma demanda por um novo instrumento político da esquerda? Evidente! Ele deve disputar o estado ou construir o poder popular? Em aberto, mas é certo que a esquerda continuará atuando nessas duas estratégias, estando unida ou desunida. Algo que é possível construir desde já e que é essencial tanto para a disputa do estado ou para a construção do poder popular é uma plataforma, um programa político que seja um reflexo orgânico das lutas sociais e aponte para as transformações necessárias na construção da democracia real. A construção dessa plataforma não implica necessariamente na construção de um partido, mas a mesma deve reunir elementos que a legitime perante a esquerda de forma mais ampla possível, partidária ou não.

E legitimidade no contexto da esquerda vem da luta social. Apenas um conjunto de movimentos sociais que se mostram combativos nesse contexto de cooptação e desorientação teriam força política para convocar a criação dessa plataforma ampla.

(continua no próximo texto deste colunista)

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