A parte já inventada da Roda.

Por Rodrigo Santaella

Vivemos um momento crítico. A esquerda está perplexa, ainda que não imobilizada. Há luta social e há resistência no país. Teremos paralisações no dia 29, há importantes e amplos setores mobilizando-se contra o ajuste econômico: sindicatos diversos, as mais importantes centrais sindicais, coletivos de juventude, entidades estudantis, movimentos sociais, etc. Não há dúvidas que haverá resistência, e se as mobilizações se efetivarem, podemos ter vitórias concretas. É possível a partir da luta social barrar o ajuste ou partes dele, e resistir.

Mas para mudar o curso das coisas, resistir não basta. E nenhum setor da esquerda ou progressista, nem partidos nem movimentos, conseguiu ainda apresentar uma proposta de programa/método com capacidade de disputar verdadeiramente hegemonia na sociedade brasileira hoje. É daí que vem a perplexidade e a angústia. No plano político, isso significa sem dúvida superar a polarização PT/PSDB e ressignificar a própria ideia de “política” na sociedade brasileira. Essa superação e essa ressignificação só se darão com a existência de um programa claro e de uma forma de construção democrática deste no plano social.

 Nos momentos mais difíceis, quando temos menos ideia do que fazer, um bom caminho a seguir é olhar para o óbvio. Não precisamos reinventar a roda inteira. Se não podemos repetir os erros do PT, sobretudo de nos deixar encantar pela institucionalidade, tampouco podemos esquecer que o PT deu certo durante muito tempo. Contra todas as expectativas da ciência política e toda a história de conciliação do Brasil, do seu surgimento até pelo menos a campanha de 1989 o PT foi um partido de massas, ancorado na sociedade organizada, capilarizado, radical e com um potencial transformador enorme: era a encarnação da transformação de que o Brasil precisava. Tudo isso porque era o primeiro e único partido no Brasil formado de baixo para cima, por fora do Estado e das instituições. Foram os setores subalternos da sociedade que, através do trabalho de base, emergiram do subsolo político[1] e transbordaram em forma de projeto através do PT.

Para sair da perplexidade, além de um programa radical e claro, a tarefa é articular e fortalecer os trabalhos de base. Articular o que já existe organizado e atrair o que não está organizado. O guarda-chuva necessário deve ser um espaço que articule movimentos sociais, partidos de esquerda e os mais diversos núcleos de base e de luta local ainda pouco articulados entre si. Precisa-se criar formas de aproximação atraentes e ágeis aos espaços de base, para superar a barreira da aversão à política e criar oportunidades para que na prática se perceba a importância de mobilizar-se. Essa grande articulação precisa de um núcleo comum que, diferente da época anterior, não será um partido político novo, pelo menos no curto prazo. Entretanto – e aí é que mora o perigo – não podemos prescindir dos partidos resistentes, porque precisamos pensar a totalidade para sair da resistência ao avanço, e precisamos de projeto de poder. Sem disputar para valer o poder, é possível resistir: mudar o mundo, infelizmente, não.

[1] A ideia de subsolo político tomo de Luis Tapia, pensador boliviano. A experiência de luta na Bolívia no início do século XXI, apesar de todas as diferenças, pode ajudar a refletir sobre alternativas para o momento. Vou desenvolver um pouco mais nas próximas contribuições por aqui.

:)

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3 comentários sobre “A parte já inventada da Roda.

  1. João 23/05/2015 / 15:34

    “Essa grande articulação precisa de um núcleo comum”.

    Que tipo de “núcleo comum” você quer dizer neste trecho?

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    • Rodrigo Santaella Gonçalves 24/05/2015 / 00:19

      Oi João. Vou trabalhar isso com mais calma em um próximo texto, mas em linhas gerais falo de um espaço de diálogo constante de representações de movimentos, coletivos e partidos. Um núcleo que converse periodicamente e troque experiências, acúmuloos e projete junto os próximos passos.

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  2. João Telésforo 24/05/2015 / 13:10

    Até quando, na sua visão, o PT teria “dado certo” (para usar sua expressão)? E por quais razões teria passado a “dar errado”?

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