Uma face cruel da dependência

Por Helder Gomes

Dizem que a deterioração nas contas externas brasileiras resultaria da queda nos fluxos e nos preços das commodities. Porém, ocorreram outras alterações importantes no Balanço de Pagamentos nesses últimos 20 anos, desde a máxima do “exportar ou morrer”, de FHC. De um lado, o movimento de especialização produtiva travou a industrialização e a diversificação tecnológica interna, de outro, as grandes privatizações levaram ao aprofundamento da desnacionalização da produção brasileira. O governo Lula avançou com o projeto, ao lançar a Política de Desenvolvimento Produtivo, focada nas fusões e aquisições, com o objetivo de criar megaempreendimentos especializados em commodities.

Nesse processo, o BNDES passou a operar em outra escala (na América Latina, na África, na Ásia). Agigantou-se o poder da Vale, Votorantim, Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, JBS, MARFRIG etc. Com as transferências do Tesouro Nacional, que se endivida para emprestar às megaempresas com taxas subsidiadas, os desembolsos do BNDES passaram de R$ 37 bi, em 2002, para algo em torno de R$ 187 bi, em 2014.

Desnacionalizar significa alienação do patrimônio, mas, também, transferência para o exterior dos centros de decisão privada sobre novos investimentos internos, nível da produção, qualidade dos processos de inovação, entre outras deliberações sobre o futuro.

Resultado, depois de uma breve ascendência em nossa Balança Comercial, com seu ápice em 2006, agora o drama ficou mais explícito. A partir dos dados do Banco Central, sobre os saldos entre as entradas e as saídas de dólares do Brasil, percebe-se que, mesmo se voltássemos àquela folga na Balança Comercial, de 2005-2006, ela seria insuficiente para cobrir os rombos da chamada Conta de Serviços e Rendas.

Entre os Serviços, além do reflexo da euforia dos/as coxinhas com as viagens internacionais, percebe-se um crescimento assustador dos aluguéis de equipamentos.

Observa-se, também, a inversão nas remessas das chamadas rendas ao exterior. Até 2003, o pagamento de juros ganhava de lavada das remessas líquidas de lucros e dividendos, mas, a partir daí, aparecem os efeitos da desnacionalização produtiva, derivada das privatizações e das fusões e aquisições por estrangeiros.

Conclusões: a) estamos nos endividando, para abastecer as grandes potências com nosso patrimônio natural (minérios, soja, carnes, álcool, celulose…); b) essa tem sido a prioridade do governo federal, que corta serviços essenciais para garantir os crescentes recursos do BNDES; e, c) os resultados dos grandes investimentos não são mais usados na diversificação produtiva e tecnológica nacional, pois são enviados em volumes crescentes para o exterior, pelos novos donos do Brasil, na forma de juros, lucros, dividendos etc. Pior, vemos a formação de megaempresas que engrandecem o país, mas, enquanto os novos barões da carne esnobam a contratação de estrelas da TV, nos vemos tendo que comprar 1 quilo de patinho a peso de ouro.

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