Os buracos de minhoca da esquerda

Por Sabrina Fernandes
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Uma jogada diferente com o “marxismo científico”

O filósofo marxista Leszek Kolakowski formula a Esquerda como uma característica, e assim argumenta que nenhuma organização poderá encorpá-la em totalidade, já que toda característica necessita de ser mediada de forma dialética por teoria e prática. Se considerarmos essa visão, entendemos que a característica se apresenta em diferentes intensidades no continuum ideológico da esquerda, porém não necessariamente de forma linear, do maior para o menor. A proposta de Kolakowski pode ser ilustrada por figuras de linguagem da astrofísica, em que o campo ideológico é maleável como o espaço-tempo e a característica (de Esquerda ou Direita) funciona como a gravidade.

A manifestação da característica se dá através de um espectro de diálogo e de projeto de intervenção na realidade, de forma que projetos colocados como inteiramente de esquerda podem apresentar buracos que, como na física do espaço-tempo, curvam o tecido da realidade a ponto de que uma política no campo de esquerda possa ser defendida da mesma forma que é feita no campo da direita. Essa junção opera como verdadeiros buracos de minhoca (wormholes, no original em inglês) político-ideológicos, em que duas realidades e políticas supostamente distintas se unem devido a equívocos na esquerda. Tanto na astrofísica quanto na política, wormholes encurtam trajetos. Como atalhos políticos, passam a impressão de grandes vitórias (ou da possibilidade delas) através do comprometimento de programas ou a secundarização de pautas tão necessárias quanto a central luta de classes para a transformação da totalidade. Wormholes não implicam em total capitulação, porém a adequação de um conjunto de práticas da esquerda para buscar e permanecer em uma trajetória de atalhos pode resultar em uma guinada sem volta.

Dentre os principais wormholes da esquerda estão:

Institucionalidade – desafio real para a esquerda na disputa por formas de intervenção social. Como atalho, carrega a esquerda para a direita, até porque o modelo instalado de democracia é o da democracia liberal burguesa.

Governismo – estágio mais avançado da institucionalidade, em que há uma transição da disputa pelo poder institucional para a manutenção do poder alcançado. O atalho é transformado em caminho principal (e permanente), aumentando a probabilidade de guinada radical.

Secundarização das opressões – enquanto parte da esquerda negar a importância da luta contra as opressões, alegando que a transformação central da realidade consiste simplesmente da tomada dos meios de produção para um sujeito revolucionário fixo, tanto o discurso quanto a prática dessa esquerda contribuirá para a reafirmação de uma totalidade opressora e o contínuo fortalecimento do capital através da violência e desapropriação das mulheres, negras e negros, LGBTs, imigrantes, e indígenas.

Punitivismo – o caminho tomado no combate às opressões é um atalho se revolve em torno da crescente criminalização dessas opressões, já que a ação é tipificada como crime, mas a criminalização é de pessoas (em especial as já marginalizadas e vulneráveis). Iremos encher cadeias construídas com o intuito de desumanizar e lucrar. O mesmo vale para o proibicionismo (por secundarização, falhas teóricas, ou conservadorismo moral).

Negacionismo produtivista – a defesa do trabalhador da indústria não pode ser o equivalente da defesa do trabalho industrial. A sustentabilidade de qualquer revolução está intrinsecamente ligada à sustentabilidade da vida na Terra. O negacionismo é um atalho para uma revolução mecânica, destrutiva, ineficaz, e fatal.

blackholes_wormhole


Kolakowski, L. (1968). Toward a Marxist Humanism. New York: Grove Press.

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3 comentários sobre “Os buracos de minhoca da esquerda

  1. Fernando Nogueira 12/06/2015 / 15:40

    Parabéns pelo texto, concordo com ele por completo.

    Só um comentariozinho: Leszek Kolakowski é um filósofo marxista? Sei não, hein… Talvez tenha sido (há muuuuuuuito tempo atrás), mas deixou de ser há várias décadas, não?

    Curtido por 1 pessoa

    • sabrinafernandes 15/06/2015 / 17:23

      Concordo com a colocação. Deixou de ser sim, mas como era na época desse texto (e era quando Kolakowski produzia um trabalho de qualidade) prefiro lembrá-lo assim.

      Seus revisionismos futuros, assim como os de Lukacs, prefiro não lembrar por vergonha alheia 😉
      Sabrina

      Curtido por 1 pessoa

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