Um país e suas cidades

Por Lúcio Gregori

Interessante observar o número de textos que falam em projeto de país como ideia fundamental para o Brasil.

Chico de Oliveira (Folha, 17/05/15), Bresser Pereira (Estadão de 31/05/15),  José Luis Fiori (Carta Maior, em 04/05/15), Leonardo Boff (Carta Maior, 03/06/15), entre outros, tratam de algum modo essa questão em textos recentes, o que indica que a crise que aí está a recoloca.

Em outras palavras, a crise, o modo de enfrentá-la e como está sendo conduzido o enfrentamento, via ajustes ao modo “Levi-rentista” trazem à tona, qual uma neurose o faz com seus sintomas, a ausência de  projeto de país, democraticamente construído com seu povo.

Há um componente dessa questão que merece ser olhado com mais atenção e que passa pela questão urbana e as cidades.

O urbano é tratado aqui como um conceito que decorre do modo de produção e a cidade é a materialização desse conceito.

Ao se discutir e desenvolver coletivamente um projeto de país, é essencial passar-se pela questão do conceito do urbano que queremos e que está associado diretamente ao projeto a ser adotado e às cidades que daí resultarão.

Destaca-se essa questão porque as cidades representam hoje o lugar onde se concretiza da forma mais impactante o resultado de um projeto, pois mais de 80% da população do Brasil vive no urbano, nas cidades.

Além disso, a questão ambiental está diretamente associada à urbanização e às cidades, posto que é para sua provisão/abastecimento que, em grande medida, se darão os impactos sobre o meio-ambiente. Na produção de alimentos, energia, matérias-primas e multiplos produtos e serviços que serão consumidos/apropriados pelos moradores no urbano/cidades.

Parte fundamental de um projeto passará pela questão cultural/artística/mídia e, novamente, as cidades serão o lugar de suas concretizações.

Em resumo, por qualquer lado que se considere, um projeto de país passa por uma ideia de que cidades iremos construir/modificar e que conceito de urbano está nele contido.

Para quem viveu sua juventude na década de 1960, da substituição de importações, dependente e calcada no mercado interno, da mobilidade pelo automóvel, para citar alguns aspectos desse projeto, é visível a tragédia do urbano que nele estava contido e das cidades que daí resultaram.

É escandaloso que cidades riquíssimas como S.Paulo e outras tantas, sejam verdadeiros depósitos de pessoas, com favelas enormes, condições péssimas de mobilidade e acesso a bens culturais e de lazer. Vergonha que foi desvelada ao longo do tempo, e que mostrou muito do engodo de projetos que não abranjam os aspectos aqui levantados, quanto à vida nas cidades.

Como no dito popular, “mostra-me tuas cidades e direi que espécie de país que és”.

Não há que iludir-se. Um projeto de país não é um projeto de economia pura e simples, de ajustes e desajustes periódicos na esfera da economia/finanças, o que não significa imaginar o país como uma ilha em tempos de forte globalização.

Churchill dizia que a guerra é assunto muito sério para ser entregue aos generais. Diria que projeto de país é assunto muito sério para ser entregue apenas  aos economistas e financistas, em particular os de plantão.

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Um comentário sobre “Um país e suas cidades

  1. Mauro Zilbovicius 16/06/2015 / 09:30

    Isto posto, que é verdade, daqui a 16 meses as cidades brasileiras escolhem novos projetos. São Paulo escolherá, passivamente, entre “o homem novo” (lembram-se? o “arco do futuro”, lembram-se? Troco todos os parklets por um projeto de arco), Russomano ou Marta, no partido do vice governador? Ou seremos capazes de dizer que ciclovias e mesmo um bom, vá lá, edital de contratação de ônibus constroem um projeto de cidade? A máquina de produzir renda financeira, que produz mais desigualdade, entregue à gestão social-democrata há mais de vinte anos no Brasil, esgotou-se. O PT, primeiro como sombra assustadora da direita, depois como gerente da máquina de produzir renda financeira, esgotou-se. E agora? O programa de esquerda, o programa civilizatório do Brasil continua atual. Mais do que nunca. Mas o PT não serve mais, Aliás a que ou a quem serve?

    A experiência única do PT transformou o Brasil em país de mais consumidores nos anos 2003 a 2014. Consumidores vorazes de bens duráveis, de alimentos, de automóveis, de educação superior, de lojas de miami, da 25 de março, de drogas, de imóveis, de tudo que é possível consumir com mais renda – mas sem serviço público = educação, transporte, saúde, segurança pública. Foi bom enquanto durou…

    A experiência única do PT foi a experiência do Estados Unidos do pós-guerra, com proporções menores, é claro. Só que sem a burguesia americana para investir capital. Nem para aproveitar oportunidades de mercado, com os capitalistas de Estado chineses que compraram a Volvo da Suécia, e os capitalistas indianos que compraram a Land Rover inglesa. A elite brasileira só compra os carros. Não as fábricas… e ignora que anda de carro chinês e indiano…

    Mas nem chegou a ser experiência da social-democracia européia, que construiu um Estado de Bem-estar social e cidades que são dignas de serem mostradas.

    Agora, temos um programa atual e não temos mais o instrumento político que usamos por 35 anos para levar à prática este programa. Com sucesso para chegar ao poder, mas não para mudar o Brasil.

    É hora de instrumento novo. Fizemos isso em 1980. Façamos de novo. Se o PT acaba, o que o fez o PT nascer não acabou (infelizmente). Barcelona parece apontar um futuro possível, e não só no futebol…

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