Apatia ou falsidade? O discurso contra o BDS

Por Mariana Prandini Assis

Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
(Panis et circenses)

Com essas palavras, Gilberto Gil e Caetano Veloso denunciaram, na década de 60, a acomodação e apatia da sociedade brasileira, inaugurando um movimento transformador não apenas da música e da estética, mas da própria política nacional, a Tropicália.

Nas últimas semanas, o duo esteve mais uma vez no centro do debate político internacional. A razão, contudo, não foi mais uma contribuição radical para a desestabilização do status quo. Ao contrário, eles foram questionados sobre um show que farão em Tel Aviv, no próximo dia 28 de julho, data que coincide com o aniversário de um ano dos brutais ataques israelenses à Faixa de Gaza. Os autores do questionamento incluem, além de figuras históricas como o sul-africano Desmond Tutu, o ex-Pink Floyd Roger Waters e o ex-ministro de Direitos Humanos do Brasil Paulo Sérgio Pinheiro, representantes da Campanha Global Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) na América Latina.

O BDS surgiu em 2005 a partir de uma grande coalizão de grupos palestinos que decidiu convocar “as pessoas de consciência em todo o mundo a impor amplos boicotes e implementar iniciativas de desinvestimento contra Israel, similares àquelas aplicadas à África do Sul no período do apartheid.”[1] E as razões pela quais tal chamado se fez necessário são várias e profundamente legítimas.

Primeiro, desde 1948, as ações de Israel contra o povo palestino – medidas coloniais e discriminatórias – vêm sendo condenadas por inúmeras resoluções das Nações Unidas, sistematicamente ignoradas pelo governo israelense. E segundo, todas as tentativas de convencer e compelir o estado de Israel a respeitar as normas humanitárias e de direitos humanos, pondo fim à opressão do povo palestino e à ocupação de seu território, falharam.

O BDS é, portanto, uma tática econômica punitiva e não violenta, que pode ser efetiva, como nos mostra o caso da África do Sul, quando ações menos contundentes, tais como protestos, petições e pressão a autoridades, fracassam. E a campanha tem data para acabar. Como previsto no chamado feito em 2005, as sanções a Israel devem ter fim quando esse estado “reconheça o direito inalienável do povo palestino à autodeterminação e cumpra integralmente com os preceitos de direito internacional”.[2]

O problema é que, diferentemente do que se deu no caso da África do Sul, em que o chamado para o boicote recebeu ampla e irrestrita adesão, o mesmo não aconteceu com Israel. É comum afirmações como a de Caetano de que “a complicada situação no Oriente Médio não mostra o mesmo tipo de imagem preto-no-branco que o racismo oficial, aberto, da África do Sul”[3]. Assertivas como essa, que pretendem deslegitimar o BDS, são profundamente equivocadas, para não dizer de má-fé. As semelhanças entre o apartheid sul-africano e a política opressora imposta ao povo palestino abundam: as identidades codificadas pela cor e a necessidade de permissão de viagem; as casas demolidas e o deslocamento forçado; as vias destinadas apenas a colonos; a maior prisão a céu aberto do mundo, que é Gaza.

Mas, como nos ensinaram nos anos 60, as pessoas na sala de jantar, são ocupadas em nascer e morrer….

resistencia-palestina-fuerte-nunca_1_1942832

[1] A íntegra do chamado global para adesão à campanha de BDS, além de vários outros textos informativos sobre a tática, pode ser lida aqui: https://bamdadi.files.wordpress.com/2014/08/the-case-for-sanctions-against-israel-bamdadi-com.pdf.

[2] Idem.

[3] A carta de Caetano em resposta a Roger Waters pode ser lida aqui: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/40786/caetano+responde+carta+de+waters+sobre+boicote+a+show+em+israel+ex-pink+floyd+se+diz+disposto+a+conversar.shtml

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s