A crítica e a negação: o que a esquerda deve aprender com Hegel

Por Gustavo Capela

Toda existência humana é inquieta, conflituosa e angustiada. Essa é uma das premissas básicas de Hegel quando ele elabora a teoria da dialética. Nossa consciência, enquanto tal, só é capaz de pensar e refletir porque vivemos em um mundo de conceitos, onde nos sentimos obrigados a nos encaixarmos em caixinhas não-ordenadas, pré-determinadas e, quase sempre, desformes em relação ao que queremos – e o que podemos – ser.

A esquerda tem muito o que aprender com essa tese. Pois, afinal, é ela que encabeça a visão básica de mudança social. Isto é: precisamos desconfiar, sempre, de absolutamente tudo. De tudo. Do nosso ambiente, de nossas premissas, de nossa visão. É a tese que se opõe à naturalização da vida social e instaura o ceticismo enquanto postura necessária de um pensamento crítico.

Ora, a esquerda que “não-deve-temer-dizer-seu-nome” existe enquanto símbolo, se nada mais. Enquanto símbolo de algo que está porvir. Como uma profecia de momentos diferentes – se não melhores. E, como tal, precisa estar aberta e atenta, mais do que qualquer outra linha de pensamento, à constante e premente autocrítica.

Não, as críticas, para nós, não devem ser vistas como ataques. E tampouco devem ser utilizadas como tal. A crítica, em última instância, deve servir como método de solidariedade radical. Aquele que preza pela mudança possível e entende (nos entende) como partícipes de um processo que não possui início-meio-fim, mas que se constrói e se deturpa no dia-a-dia. Porque nada está pronto, no que tange à mudança. E aquilo que se encontra pronto, de tão pronto, já apodreceu.

A hiper-fragmentação e os anseios por ainda-mais-fragmentação revelam uma vontade de sumiço, de escapismo premente. Que não vislumbra a unidade por falta de uma suposta identidade, mas encontra, no fragmento, um espaço que nos permite respirar. Afinal, o desejo de conservação também existe dentro de nós. Não somos tão diferentes assim de nossos inimigos. Isso é importante perceber. A identidade, nesse sentido, parece realmente inexistir. Principalmente quando a entendemos enquanto substância, enquanto essência. Mas, parece-me, é completamente possível enquanto processo de construção.

A maneira como esse processo se constrói é a grande questão, porém. E não ter resposta para ela parece-me inteiramente coerente com essa visão dialética de um mundo que se transforma e muda a cada passo que damos. Porque agimos sobre objetos e, ao agirmos, os mudamos e – sobretudo – nos mudamos. O reconhecimento, e a suposta inclinação ao outro enquanto partícipe necessário de minha própria constituição, nada mais é que o “conhecimento afirmativo de si…no outro”.

Como enunciava Marx, a pessoa, para ser livre, precisa ser capaz de se contemplar, de conseguir enxergar-se nessa totalidade que nos une enquanto “outros” e, ao mesmo tempo, “eu”s. Essa tese precisa ser atualizada, dando conta das mudanças que agiram e agem sobre nós na contemporaneidade. Mas ela ainda guarda um quê reflexivo quando entendemos que, ainda hoje, toda nossa realidade está mediada pelo trabalho, pelas relações de opressão, pela exploração do polo mais frágil. E nada nos resgatará dessa roda-viva enquanto verdade-auto-evidente ou absoluta. Não podemos ser a negação incapaz de negar-se.

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