E agora, Cunha?

Por Sammer Siman

A regulamentação do casamento gay nos Estados Unidos cria um embaraço para a classe política brasileira que já não pode mais surfar de maneira tão tranquila no mar revolto da tal onda conservadora.

A pergunta é: E agora, Cunha?

Nossa classe política, via de regra, é alinhada, seja hoje ou historicamente, com aquilo que vem de cima. Assim se forjou nos tempos idos da metrópole, assim se fez na ascensão inglesa do século XIX e assim se faz no tempo presente, com a dominância cultural do way of life.

Vamos combinar, nossa classe política até curte um rolezinho na concretude fria de Brasília ou nos jardins de São Paulo, mas seu barato mesmo é Miami, New York e algumas outras quebradas que seguem como quintal do grande irmão, como a linda e mercantil Cancun, uma ilha de prosperidade (?) em meio ao triste e massacrado México.

Vamos combinar, parte 2. As maiorias sociais não estão alheias ao padrão de dominação cultural que vem do norte. Também pudera, com tanto tempo de Tela Quente, Sessão da tarde e Caldeirão do Hulk introjetando em nossas mentes um padrão estético e cultural alheio a nossa realidade periférica não poderia dar diferente.

E combinemos, parte 3. Nossa academia não vai num rumo diferente. Adora um Foucault (e não se trata aqui de negar suas contribuições) mas, via de regra, não sabe nem por onde passou brasileiros e brasileiras como Rui Mauro Marini, Vânia Bambirra, Clóvis Moura, Carolina de Jesus, dentre outros(as).

A regulamentação do casamento gay nos EUA deve ser celebrada. Mais do que massacrar subjetividades, o padrão heteronormativo mata milhares de gays, lésbicas e transexuais todo ano no Brasil. Para ficar num exemplo, tem sido reiterado o assassinato de jovens gays pelo simples fato de serem…gays(!). E o pior? Muitas vezes são jovens pobres mortos por jovens pobres.

E aí reside nosso desafio, o salto de qualidade ainda por vir: Nesta altura da vida não podemos nos contentar com a conquista de garantias formais. Não basta ter leis progressistas se a nossa ordem econômica segue massacrando nossa gente. Em breve completaremos 27 anos com uma bela constituição federal que estabelece um monte de garantias sociais e, na prática, o povo segue na senzala servindo a casa grande, ainda que avanços tenham ocorrido.

Cunha’s, Maluf’s, Sarney’s, Calheiros e calhordas não passam de uma expressão de tudo isso. Não são apenas conservadores nos costumes, mas concentradores do estoque de riqueza do país. É aí que temos que avançar também: dividir a terra, democratizar as cidades, democratizar a vida.

Precisamos de uma Frente Social e Política no Brasil, sendo este um debate que começa a ganhar corpo entre várias organizações sociais e políticas. Não falo da frente que o governismo propõe agora para o Lula voltar em 2018, sendo essa a única “carta na manga” para tentar “salvar” PT.

Falo de uma frente constituída por movimentos sociais, partidos, sindicatos, movimento negro e o conjunto das forças sociais e políticas dispostas a romper com essa ordem econômica, política, social e cultural massacrante que segue enlatando nossa gente.

Uma frente que rompa com o marasmo da política brasileira e não se balize pelo calendário eleitoral. Que enfrente o pacote de maldades de Dilma e que a derrube se for preciso, sem conceder para Temer, Cunha, Aécio ou qualquer canalha branca e rica que só sabe lucrar com a miséria do povo.

Uma frente pautada na diversidade sexual e feita por negros e não negros, mulheres e homens, jovens e adultos que já não podem mais conceder para a mediocridade política que domina hoje o país.

Uma frente feita por gente do povo, com cara de povo e que se balize pelo compromisso de retomar os trilhos de uma pátria livre e uma América Latina integrada, pintada de arco íris e com uma forte tonalidade negra e ameríndia.

LGBT

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