O maior problema não é o Cunha!

Por Rodrigo Santaella

Não há dúvidas de que Eduardo Cunha é um problema. Político tradicional, está mais preocupado com o crescimento de sua própria influência do que com o destino daqueles que o elegeram. Pior, é conservador nos valores e antidemocrático nos métodos e, na atual conjuntura, é um mestre em mobilizar cada uma de suas características nefastas para se utilizar da crise econômica e do desgaste do governo federal no intuito de fazer crescer sua influência e aprovar aquilo que bem entende. Os exemplos são conhecidos: manobrou como pôde para aprovar o financiamento empresarial nas campanhas e, na semana passada, usou a mesma tática para aprovar em primeiro turno na Câmara a redução da maioridade penal. A forma como atua, uma espécie de “dissimulação explícita”, e o conteúdo daquilo que defende, revoltam todos os que defendemos uma sociedade mais livre e socialmente justa.

O problema, entretanto, não é Eduardo Cunha! Podemos ver nossos principais problemas a partir dessa figura emblemática e caricatural, mas eles estão muito longe de se concentrarem nela. Ressalto aqui quatro aspectos. O primeiro se relaciona com o porquê de Cunha estar onde está, e quem ele representa: olhando para seus financiadores de campanha, fica claro que seu protagonismo na política se dá em nome de grandes corporações, empreiteiras e bancos. Está onde está e tem a força que tem porque representa interesses materiais concretos, de setores importantes da burguesia. Segundo, no campo dos valores, Cunha é um oportuno representante do crescimento da expressão do conservadorismo na política visto nos últimos anos no país. Atuando como uma espécie de populista dos valores (já que está longe de defender concessões materiais às massas), o deputado tem sua legitimidade reforçada por grande parte da população. Terceiro, Cunha é um exímio operador das regras da nossa democracia representativa: se passa dos limites, o faz apenas na medida “tolerada” pelo sistema democrático, e por isso não é parado (precisamos ver até quando). As manobras de Cunha e a impotência diante delas são sinais claros também dos limites de uma democracia representativa tão distante de sua base social.

Por fim, nós. A esquerda radical tem muita clareza das razões para ser contra a redução da maioridade penal, o financiamento empresarial de campanha ou as terceirizações. O que não temos claro é um projeto alternativo de país e de sociedade: sabemos o que queremos em longuíssimo prazo, mas temos pouca ideia do passo a passo. Isso nos cria muitas debilidades para construir um elemento fundamental da transformação radical: a construção, a partir dos de baixo, de novos valores e de um programa concreto.

O tamanho que tomou a figura de Cunha e as consequências disso expressam a força da burguesia na luta de classes, o crescimento do conservadorismo na sociedade, os limites de nossa democracia e a debilidade da esquerda como alternativa. Se consideramos que a luta de classes e a democracia não se resolverão sozinhas e que o conservadorismo cresce a partir de setores muito concretos, o que se destaca é nossa própria incapacidade de construir condições para a transformação. Se Cunha é um grande problema e temos que lutar para derrubá-lo, não podemos perder de vista o principal desafio da atual conjuntura, do qual somos parte central: superar a perplexidade pouco criativa da esquerda.

Eduardo Cunha

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