A Grécia depois do NÃO

Por Edemilson Paraná

Ou a liberdade ou a tranquilidade; tens de escolher. Ou vives livre, ou vives tranquilo.” – Tucídides

Passada a euforia da pequena mas importante vitória, um duro período começa para a Grécia: a batalha está longe do seu fim (ele existe?). Em tempos de capitulação quase total aqui e alhures, é notável o misto de firmeza de princípios com inteligência tática que os gregos demonstraram até aqui, algo, diga-se, que tantos latino-americanos tem igualmente mostrado nas últimas décadas. O cerco, lá como cá, deve ser quase total. O grande capital financeiro, como repetição farsesca dos velhos algozes do povo, fará de tudo para que não sirva de exemplo. Como bem lembrou Gustavo Gindre: “hoje, no mundo inteiro, milhões estão se perguntando: se a pequena Grécia pode, por que nós não podemos?”

Eis o nó-górdio. Como em outras encruzilhadas histórias, o povo grego terá pouca margem de manobra se continuar isolado geopoliticamente. Será necessário mais do que solidariedade internacional. É preciso que ela se espalhe e se afirme como alternativa política real. Para além do avanço da luta anti-austeridade em Portugal, Espanha, Irlanda e mesmo nos países “centrais” da Europa, será preciso algum tipo de novo alinhamento. Qual? A Rússia já ofereceu à Grécia participação no Banco dos Brics (iniciativa de U$ 100 bilhões que reúne Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul). As saídas, no entanto, não parecem simples e tudo caminha para um acordo: a Troika tem muito (bilhões) a perder com a saída da Grécia e isso não é um mero detalhe diante do sentimento “europeísta” majoritariamente presente na retórica de governo e na maioria da população. A saída do ministro das finanças Yanis Varaoufakis serviria como indício de algum dos caminhos? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Elas transcorrerão em alta velocidade.

Ao povo grego: um breve excurso sobre a coragem

A coragem é uma força irresistível: afronta, amedronta, inspira e nos impulsiona para além. Como toda força, não escapa de seu paradoxo: é também fraqueza. Daí porque não raro a coragem, para além de um ato inaugural, ser sempre chamada a uma escalada, uma trajetória que exige tenacidade sobre-humana: quanto mais coragem se tem, mais se precisa ter. É que essa forma de ousadia, de negação positiva, de afirmação negativa, simplesmente não pode ser ignorada por ninguém que a presencia. É, portanto, sempre um risco fatal.

Não é o oposto do medo, mas sua aceitação madura. Não é uma esperança ingênua, mas o irromper incondicional da passividade. Não é uma certeza, mas o poder da dúvida radical, um salto no abismo do absurdo. Mas sem coragem a vida simplesmente não vale a pena ser vivida, se arrasta como zumbi.

Coragem ao povo grego! E que retiremos dele a inspiração para a nossa aposta. Esse é apenas o começo de uma longa batalha que não tem como prêmio outra coisa que não apenas a dignidade da própria batalha.

tsipras

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