O excepcionalismo americano

por Paris Yeros

A propósito do aniversário da independência dos EUA, cabe uma reflexão sobre os caminhos e descaminhos dessa nação. Salta à vista, em particular, a trajetória da sua ideologia de “excepcionalismo”. É uma ideologia com raízes antigas, que floresceu sobretudo no século XX para sustentar contradições profundas e uma postura bélica sem fim ou mesmo remorso.

Cabe perguntar, por exemplo, como é possível uma nação lamentar e condenar coletivamente um massacre em uma igreja motivado pelo ódio racista e pela intenção de propagar insegurança e terror e, ao mesmo tempo, empregar tecnologia de ponta para bombardear populações cíveis não europeias com a intenção de causar choque e pavor?

Como é possível a indústria cultural dessa nação fazer questão de apresentar ao mundo, e a si mesma, uma fachada de paz pós-racial e, ao mesmo tempo, banalizar a violência sistematicamente, seja contra jovens negros, seja contra povos não europeus que o país invade e ocupa?

E ainda mais grave, como é possível sustentar até hoje a ilusão que o uso da bomba atômica contra duas cidades japonesas, já destruídas por bombas convencionais, era para salvar vidas americanas?

De fato, estamos falando de uma contradição gravíssima instalada no centro nervoso do capitalismo mundial. Permite tornar sistematicamente a regra da violência racista em exceção ou mesmo em legitima defesa. Permite aos EUA se colocarem acima da lei, intocáveis por qualquer julgamento moral.

No nível das ideias, o cerne da contradição é a noção do “excepcionalismo americano”. Cunhado em meados do século XIX por Alexis de Toqueville, o seu sentido original era inteiramente outro. O filósofo francês via naquela sociedade uma Europa estranha: dedicada ao comércio mas não à cultura, à Deus mas não ao obscurantismo e ao projeto europeu mas não ao continente europeu.

Passou por cima da escravatura, mas logo foram as premissas da mesma que deram corpo à noção do excepcionalismo. Juntou-se a ela outra noção, a do “destino manifesto”, que tornou os norte-americanos de origem europeia em um povo “escolhido por Deus” para povoar, dominar e civilizar aquele território, de costa a costa.

Mesmo assim, os EUA não parecem ter nada de muito excepcional nesse sentido, sendo um país entre tantos outros, nas Américas, na África Austral e na Austrália, fundados no mito do bom colono. O seu mito tem costura própria, mas o tecido final é de um gênero conhecido.

Afinal, o que tornou esse país realmente excepcional não foi a costura particular do seu mito nacional e, sim, a sua capacidade de reproduzi-lo e propagá-lo. Se o mito do bom colono carrega poder subliminar em todo lugar, a sua projeção singular a partir dos EUA é fruto de uma estrutura econômica excepcional, altamente monopolizada e compulsivamente agressiva. O sistema de empresas gigantes, que hoje concentra a riqueza do “1%” e organiza a sociedade de ponta a pé, é a base tanto da produção e do consumo quanto da produção de material bélico, de cultura e de comunicação.

Certa vez, no auge da Guerra Fria, o Presidente Eisenhower alertou contra o perigo de a sociedade norte-americana passar a ser gerida por um “complexo militar-industrial”. De fato, já era, e nunca deixou de ser. O mesmo complexo hoje é peça fundamental de um sistema monopolista financeirizado, cada vez mais bélico; de uma indústria cultural sem rumo; e de um sistema de vigilância cibernética que supera, por muito, as experiências mais retrogradas de estados policiais do século passado.

É neste sistema excepcional que a ideologia do excepcionalismo caiu como luva.

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