Além da ultra-política e pós-política – parte 1

Mais do que falar das “ondas” de expressão política que vivenciamos no Brasil hoje, é preciso falar também da despolitização que as gera e alimenta. Mesmo que soe como um oxímoro, a despolitização tem tamanho impacto político a ponto de levar e tirar gente das ruas, mudar governos, e promover verdadeiros golpes militares.

A despolitização no Brasil não é recente nem tampouco podemos apontar um só culpado. Ela é complexa e apenas às vezes é encontrada na forma do “eu não gosto de política”; afinal, quem dera não gostar de política fosse sinônimo de não fazer política. Apenas em tal realidade a despolitização seria problema de ninguém. Acontece que a política, como diz Ranciére, é uma linha de diferença, e queira ou não queira, goste ou não goste, ela se dá nas relações e subjetividades que existem em uma sociedade.[i]

Zizek, complementando Ranciére, fala de dois tipos de política que são, ao mesmo tempo, geradas pela despolitização e alimentam mais despolitização. Tratemos brevemente então da ultra-política e da pós-política:

Ultra-política: método de conflito político baseado no “nós” contra “eles” e que gera uma real militarização da política. A direita muito tem se aproveitado desse método, o qual forma a base de seus pseudo-movimentos sociais. O campo governista também, apostando em sua renovação na base do medo do golpe. Para isso, a ultra-política pode se manter tanto com reais quanto com falsas polarizações. Nosso contexto atual pesa para o último caso, e mesmo que os protestos verde-e-amarelo deste ano tenham sido elitizados, a presença de classes mais proletarianizadas em menor número atesta para o perigo e alcance da despolitização a la ultra-política.[ii]

Pós-política: método de despolitização via uma suposta superação tecnocrática das diferenças ideológicas, como se estas fossem desvinculadas das relações sociais. Enquanto o “não me representa” de junho de 2013 progressivamente expôs uma crise de representatividade, sua expansão na negação da representação política e o coro à bandeira nacional como substituta das ideologias já comunicava a pós-política. Em 2014, Marina Silva muito simbolizou essa tática.[iii] Não funcionou. No campo da escolha maniqueísta que é a eleição, a ultra-política se dá bem melhor.

Por vezes, nossa melancolia de esquerda, na ânsia por um momento pré-revolucionário, misturamos tal potencial presente em junho com elementos despolitizados que podem até parecer o preço a se pagar por grandes protestos em massa. A realidade é que junho poderá ser um dia o prelúdio do que vemos e torcemos para que seja mudanças radicais via à esquerda como na Grécia e na Europa, ou como o que vimos e torcemos que fossem na Bolívia e Venezuela, mas quaisquer indicações se encontram emaranhadas na dialética da história. Para o resgate e a materialização que a esquerda pede de junho não é suficiente afirmar mantras do potencial, da singularidade, do evento de junho. A chave para decifrar a dialética se encontra em lidar com a ultra-política e a pós-política e não ceder a elas quando julgamos necessário (ou mesmo menosprezar seus estragos).

O maior problema para a esquerda hoje não é a onda conservadora, o ajuste fiscal, o dilema do PT, ou mesmo tamanha fragmentação que vemos atos políticos racharem ao meio por falta de mínimos acordos. O maior problema é a incapacidade de lidar com a despolitização politizando, em vez de pregarmos continuamente para nós mesmos de cima de carros de som. Os desafios que enfrentamos são reais e não podemos viver de ato em ato, nunca ultrapassando mais de 100 mil pessoas e voltando a estacas iniciais cada vez que os três poderes nos puxam o tapete.

[Continua…]

[i] Jacques Rancière. “Ten Thesis on Politics.” in: Theory & Event. Vol. 5, No. 3, 2001. http://www.egs.edu/faculty/jacques-ranciere/articles/ten-thesis-on-politics/

[ii] Para uma análise mais completa sobre a ultra-política em 2015: http://www.socialistproject.ca/bullet/1104.php

[iii] Sobre Marina Silva e pós-política: https://www.jacobinmag.com/2014/10/post-politics-in-brazil/

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