No meio de Brasil e Palestina existe Israel

Por Cláudia Fávaro

Há algumas semanas o ministro Juca Ferreira se pronunciou a favor do movimento de boycott cultural a Israel que pede o cancelamento do show de Gilberto Gil e Caetano Veloso em Tel Aviv: “No lugar deles não iria.” Ao contrario de Gilberto, Caetano pelo menos admite dúvidas a respeito. Aqui vemos a retórica que não segue a prática.

O caso da Palestina entra totalmente na lógica de um governo que fala de pautas populares e nos territórios ataca os direitos. Parabéns ao Ministro de Cultura pelo seu posicionamento. Mas isso não pode esconder a falta de resposta aos pedidos desde a Palestina por um embargo militar a Israel, visto o impacto negativo que isso tem trazido não somente ao povo palestino mas também a nós brasileiros, que vivemos as favelas ocupadas e o extermínio de nossa juventude nas periferias urbanas.

Mês passado completamos dois anos desde os protestos de 2013 durante a Copa das Confederações. Na época a polícia federal utilizou pela primeira vez os ‘VANT’ israelenses, com o intuito de reprimir as manifestações. Desde então, os ‘vant’ tem monitorado as nossas cidades, nossas ações e movimentos afim de atingir maior controle sobre a organização dos que lutam. A partir daí, o Brasil se tornou um dos mais importantes importadores de VANT do mundo, além de já ser o quinto maior cliente da industria militar israelense.

Praticamente no mesmo período histórico, na Palestina, os mesmos VANT israelenses foram fundamentais instrumentos utilizados na matança de mais de 2200 palestinos durante o quarto massacre na sitiada Faixa de Gaza, que vem sendo atacada por Israel desde o 2006. Foi só acabar o massacre genocída e as empresas militares israelenses passaram a atestar como funcionaram perfeitamente seus equipamentos durante o massacre.

Mas a troca entre o complexo industrial-militar israelense e o Brasil não se limita a compra de armas – Israel exporta ao Brasil seu conceito de controle total não só da cidade, mas também da população, criando essa idéia da necessidade de uma cidade militarizada, gradeada e repressora, prometendo com isso resolver o problema da segurança. Nesse contexto, os megaeventos são elementos centrais. Desde 2010 no Brasil temos visto inúmeros seminários sobre ‘segurança em mega eventos’ para difundir, entre outros, o conceito israelense de “cidade segura”, se inspiram na vigilância de todas as chamadas telefônicas e conexões de web em Gaza e se completam com os VANT e os Centros Integrados de Controle e Comando que seguem reprimindo e controlando os movimentos populares.

Lamentavelmente a visão repressora da ‘segurança’ não é somente promovida pela direita que nesse momento pressiona pela redução da maioridade penal. Os governos do PT, embora de maneira mais silenciosa mas muito mais capilar estão promovendo a mesma lógica e sistematicamente rearmam o pais, não para se proteger contra possíveis inimigos externos, mas para reprimir sua própria população.

Olhando somente o orçamento federal de 2015 vemos que o ministério da defesa tem recursos de 17 bilhões de reais, o ministério de transportes 10 bilhões, o ministério de desenvolvimento agrário 1,8 bilhões e a previdência social 2.1 bilhões. Um país que em tempos de recessão gasta dez vezes mais na militarização que no desenvolvimento agrário anda caminhando de encontro ao confronto com o povo.

Com esses 17 bilhões, o governo está redistribuindo o dinheiro público para empresas e pior, para a industria militar israelense. No Rio Grande do Sul conseguimos, no ano passado, derrubar o projeto do governo Tarso Genro de financiamento público de um parque tecnológico com a subsidiária local da Elbit System, as custas de muita luta e muita denuncia. Mas entre Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro, temos ainda cinco subsidiárias de empresas militares israelenses no país. O ministro da defesa Jaques Wagner definiu Israel como ‘parceiro estratégico’ do ministério e está planejando a sua primeira viagem como ministro em Israel.

As ações e não as palavras fazem a essência da política. A ida de Jaques Wagner a Israel demonstra que o Brasil tem se tornado um país cada vez mais imperialista e já não representa os setores populares que historicamente tem se colocado ao lado do povo palestino. Nós, movimentos sociais, não podemos continuar a permitir que nosso suor seja gasto para alimentar a repressão do nosso povo e o complexo industrial-militar israelense que promove o continuo genocídio do povo Palestino. Palestina Livre!

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