Lições da crise grega para a política transnacional

Por Mariana Prandini Assis
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

O rechaço, pela maioria da população grega no dia 05 de julho, às condições de resgate inicialmente propostas pelos credores de sua dívida não constituiu apenas uma reafirmação simbólica da soberania popular. Mais do que isso, a vitória do NÃO no referendo e os acontecimentos que a sucederam, com a aceitação pelo parlamento grego dos parâmetros ditados pela Alemanha, expuseram a farsa da União Europeia, os limites da política transnacional e a continuada relevância do conceito de hegemonia para a compreensão da política mundial.

Primeiro, o projeto de União Europeia se sustentou, desde o início, como uma constelação pós-nacional, baseada em relações de solidariedade e apoio mútuo. Se já havia acusações acerca do caráter meramente ideológico de tal imagem tendo em vista as relações materiais de subordinação e dependência entre vários dos estados membros, os eventos recentes expuseram, de modo contundente, a falência política do Conselho Europeu. Como falar em princípios democráticos quando um estado membro é reduzido ao status de protetorado econômico? Como conciliar a noção de soberania popular sem fronteiras com a violenta imposição de medidas a um povo que explicitamente as havia rejeitado em um procedimento democrático? Como, finalmente, manter o discurso de que a União Europeia é um projeto político comum quando as relações de fato são de brutal exercício de poder econômico?

A tentativa de dar respostas às questões acima nos conduz, inevitavelmente, ao reconhecimento dos limites da política transnacional. Se por um lado o Syriza recorreu ao mecanismo do referendo como instrumento tanto de legitimação interna como de pressão política externa, o governo alemão, ao assumir uma postura mais draconiana que o próprio FMI, respondia a uma parcela do seu eleitorado nacional que não vê laços de solidariedade para além das fronteiras nacionais. Desse modo, o hiato entre decisões tomadas em nível transnacional e seu impacto em populações impedidas de participar do processo de deliberação constitui o principal desafio para uma política transnacional democrática.

Finalmente, a análise do contexto interno europeu e, mais especificamente, alemão, bem como a relação entre o governo nacional e seu eleitorado torna patente a atualidade do conceito de hegemonia. Ao dizer NÃO às medidas de seus credores, a população grega também colocou em questão a hegemonia da Alemanha no interior da Europa: um estado marginal na política mundial se levantava contra um potência regional. A agressiva resposta da Alemanha, portanto, não se explica por questões de ordem financeira, mas pela necessidade de disciplinar aqueles que ousam tentar subverter a ordem hegemônica. A União Europeia é um projeto comum contanto o comum não desestabilize as relações hierárquicas e excludentes que marcam o continente há séculos.

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