Autenticidade: o prêmio da ideologia individualista

Por Gustavo Capela

Um dos mitos que frequenta nosso inconsciente social com bastante rigor é o da autenticidade. Supomos, com muita clareza, que há algo dentro de nós tão único e tão absolutamente diferente dos outros que é isso, essa essência interna, que nos faz “quem somos”.

Esse mito está diretamente vinculado à noção individualista, na qual supomos que cada pessoa nasce com uma diferença embutida e preponderante sobre nossos rumos na vida. Chamamos isso de “ter personalidade”. Ou seja, de ser capaz de requerer e expor seus desejos internos e pessoais-personalíssimos e buscá-los a todo custo. Nesse discurso está embutido uma visão de poder.

Por exemplo, quando pensamos em contribuições científicas, não pensamos no grupo Olympia Academy, do qual Einstein fez parte. Ou do grupo liderado por Durkheim na Escola Sociológica Francesa. Os feitos e elaborações são atribuídas a indivíduos e pressupomos, assim, que coube a eles a contribuição, em detrimento do grupo. E fazemos esse recorte dizendo que, afinal de contas, são os indivíduos e força de vontade desses que contribuem para o mundo. É a ideologia da solidão. Onde vivemos e morremos sozinhos, sendo a trajetória dela um grande caminhar “apesar” dos outros. Valoriza-se a esfera daquilo que é interno, único, rico na diferença.

Nesse cenário, a hiper fragmentação parece ser uma consequência óbvia. Se privilegiamos a “essência” interna, a consequência é buscar e olhar sempre pra ela. Para dentro.

E é essa ideologia que corrobora a tese vivida por todos nós: de que a competição entre diferentes atores ilustra quem é melhor, quem é mais forte, quem foi mais capaz. Quem tem mais potência interna para fazer valer seus valores e suas vontades. Numa lógica de desunião. Numa lógica que pressupõe uma tábula rasa. Numa lógica que nao contempla a possibilidade da diferença ser construída, elaborada e sobreposta justamente para legitimar muitos dos discursos que oprimem e impõem desigualdade.

É claro que isso é muito mais fácil ser dito do que feito. Até porque, a ideologia dominante (esses pressupostos com os quais nascemos e interpretamos a vida sem pensar muito) preza muito pela individualidade enquanto essência do autêntico, do diferente e do criativo. Enquanto essência do que pode ser mudado. Enquanto essência daquilo que é capaz de mudar. Sem indivíduos, diria essa visão, não há mudança.

E vemos isso na esquerda com frequência. Ou não endeusamos as individualidades-heróicas de revolucionários e revolucionárias? Lemos biografias e histórias íntimas dessas pessoas para que talvez possamos entender melhor o que está presente nessa autêntica-existência e, assim, apreciá-la, exaltá-la, idealizá-la.

A provocação é complicada, claro. Porque muitos entendem que uma ideologia que não preza e não está atenta às diferenças totaliza, simplifica e – portanto – domina. O que precisamos entender, parece-me, é como as diferenças são construídas e em quais sentidos elas são abarcadas. Elas são internas e naturais aos grupos e às pessoas? Ou elas são históricas e vinculadas a elaborações preconceituosas, etnocêntricas e depreciativas?

O discurso da diferença, pois, precisa de uma boa dose de ceticismo. Não para negá-la ou para impedi-la de se manifestar. Mas para que possamos entender melhor como elas são elaboradas e desenvolvidas. E para que não caiamos na armadilha frequente, constante e doentia da internalização.

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