A “unidade” e a “ideia de nação” abandonadas: impasses das esquerdas na história recente do Brasil

Por Bernardo Rocha Carvalho* – em colaboração especial para o Brasil em 5

Ao longo de mais de duas décadas de ditadura no Brasil (1964-1985) as esquerdas brasileiras foram perseguidas, divididas, sabotadas, torturadas e aniquiladas. Três décadas depois (1985-2015), ainda não nos recuperamos do trauma, e calcular os danos é tarefa difícil.

No entanto, basicamente, duas características importantes diferenciam as organizações e movimentos de esquerda de antes do golpe de 64, e de depois do regime militar: 1) antes do golpe, as esquerdas possuíam algum grau minimamente significativo de unidade entre si, convergindo especialmente em nível nacional; e 2) este grau de unidade se estabeleceu entre as esquerdas em torno de uma certa ideia de nação. Hoje, nota-se sem dificuldades que ao longo das últimas décadas estas características deixaram de existir no perfil das organizações e movimentos de esquerda no país.

Em busca de uma singela reconstrução do quadro histórico anterior a 64, há um exemplo um pouco longínquo, porém, bastante oportuno, se considerarmos a conjuntura brasileira atual. Trata-se da Campanha do Petróleo, iniciada em 1947, e que ficou conhecida pelo lema “O petróleo é nosso!”. Uma iniciativa profundamente nacionalista, que teve adesão dos mais diversos setores e atores da cena pública brasileira; muito bem assimilada, posteriormente, por Vargas, que em dezembro de 1951 apresentou ao parlamento o projeto de criação da Petróleo Brasileiro S.A. – a Petrobras. O monopólio estatal de um recurso tão estratégico geopoliticamente durou, então, até 1997, quando os princípios de soberania que motivaram a Campanha encontravam-se cada vez mais em desuso.

Mas o caso que mais nos interessa, na intenção de ressaltarmos a unidade das esquerdas brasileiras em torno de projetos concretos e de um sentido de nação, é a síntese de demandas históricas das esquerdas surgida no governo João Goulart (1961-1964), chamada de reformas de base. Apesar de sempre terem existido divergências sensíveis entre as organizações, movimentos e entidades de classe à esquerda (de estudantes, camponeses, trabalhadores urbanos, militares subalternos, etc.), o surgimento, em princípios de 1963, da Frente de Mobilização Popular (FMP), é bastante significativo – tendo reunido representantes de todos os setores mencionados acima, além de parlamentares de partidos desde o centro à esquerda mais radical.

O objetivo da Frente era de ser o sustentáculo político-popular para que Goulart avançasse seguramente na proposta das reformas, e serviu como um importante instrumento de pressão política e disputa de hegemonia. Entretanto, sua atuação não transcorreu – em nossa opinião – sem erros, e algumas posições da FMP foram assumidas dispensando-se, equivocadamente, um trabalho político-pedagógico mais sólido e prolongado entre a população.

Ainda assim, acreditamos na importância de se reler a consolidação da FMP como momento de criatividade das esquerdas brasileiras frente à fragmentação e ao sectarismo, e destacamos, com especial interesse, o aspecto de unidade em torno de discussões vivas a respeito de quais são os interesses da nação, e de como se conectam aos interesses do povo.

*Historiador pela UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei).

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