O Brasil é racista… e você também.

Por Rodrigo Santaella

Somos um país racista. É totalmente inconcebível que ainda haja quem defenda que 1) não existe racismo no Brasil, 2) se existe, é uma coisa muito minoritária ou 3) existe, mas não é tão grave assim, é um problema secundário. Chega! Não é preciso ser nenhum estudioso do tema ou um grande conhecedor para perceber e admitir que não só existe racismo no Brasil como ele é estruturante da sociedade. Grande parte de nossos costumes, das nossas piadas, da nossa cultura, das opções do nosso Estado e das nossas decisões cotidianas são permeadas pelo racismo. Somos forjados na mácula da escravidão, que nos impõe padrões diversos até hoje.

O caso, muito discutido nos últimos dias, do professor norte-americano Carl Hart que ia dar uma palestra em um hotel em São Paulo e foi barrado é só uma pequena ilustração disso. Muito mais emblemático é o número de negros assassinados cotidianamente pela polícia brasileira, seja agindo em nome da lei e justificando-se nos chamados autos de resistência, alegando sempre que foram atacados primeiro, seja agindo deliberadamente fora da lei, como na chacina ocorrida recentemente em Osasco e Barueri, na região da grande São Paulo. Muito mais emblemáticas são as condições de vida da maioria dos negros e das negras do país, difíceis material e simbolicamente. Não à toa, Amarildo era negro. Não à toa, Adílio dos Santos, atropelado por um trem no mês passado no Rio de Janeiro, era negro. Não é à toa que muitos dos leitores desse texto – a maioria de classe média, e provavelmente branca, como eu – já atravessou a rua, fechou um vidro, ou pelo menos sentiu algum receio – mesmo que o tenha mantido sob controle, sem gerar nenhuma atitude concreta – ao passar perto de alguém negro na rua de uma grande cidade.

Pois bem, somos racistas. A esquerda, a direita, as classes populares e a classe trabalhadora. Para os que buscamos transformar a realidade, é preciso admitir isso todos os dias. É preciso entender que a única forma de ajudar a combater o racismo, no caso de nós, brancos, é aprender com a luta das negras e dos negros, compreendendo que somos sim racistas e buscar, a partir dessa compreensão, uma reconstrução cotidiana de nossa subjetividade. Não basta ser contra o racismo no programa: mesmo quando total e sinceramente convencidos de que o racismo é ruim e que devemos combatê-lo, é preciso perceber-se como parte do problema. Para a parte branca da esquerda que busca acabar com toda e qualquer forma de opressão, a missão é aprender a ouvir e aprender a aprender. Para além disso, construir alternativas concretas e materiais a todas as formas de exploração e opressão, tendo o papel estruturante do racismo em nossa sociedade sempre em mente.

Para combater algo que nos constitui culturalmente e que molda nossa subjetividade, o primeiro passo é admitir que somos parte disso. Para livrar-se dos condicionantes de uma formação social racista, como indivíduos brancos, precisamos estar abertos às coletividades negras. São elas, com todxs aquelxs que sofrem racismo organizadxs, que podem falar e compreender a questão com mais propriedade. É daí que devemos aprender, sob pena de reproduzirmos em nossas práticas o racismo com a mesma naturalidade que o combatemos em nosso discurso.

Atualização em 30/08/2015, 11:52:

O neurocientista Carl Hart esclareceu um pouco melhor o que aconteceu no Hotel. Seguem parte das palavras dele: “O que aconteceu foi que, assim que cheguei ao hotel, na quinta-feira, fui direto ao toalete. Quando saí, os organizadores do seminário vieram até mim para se desculpar por algo que teria acontecido assim que entrei no hotel. Segundo eles, um segurança iria me abordar porque eu não parecia pertencer ao lugar. Mas eu não presenciei nada disso, foi uma pessoa que me falou”. 

Isso não muda em nada o conteúdo do texto (até porque um segurança o iria abordar porque ele “não parecia pertencer ao lugar”), mas é importante esse esclarecimento sobre o caso específico. 

Carl Hart, professor norte-americano, especialista em política de drogas, que foi barrado no Hotel em que daria uma conferência em São Paulo.

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A Agenda Brasil e a arte (histórica) de ignorar a alteridade

Por Julianna Malerba

Em meu último texto, denunciava o esvaziamento simbólico dos espaços que tem orientado as práticas de avaliação e licenciamento ambiental de grandes empreendimentos. Recentemente, em A arte de ignorar a natureza,  a Agência Pública apresentou uma série de evidências do quanto a dissimulação dos impactos tornou-se a tônica dos processos de licenciamento, orientados pela prerrogativa de que “para acelerar o início das obras, vale tudo”.

A despeito disso, a revisão da legislação de licenciamento ambiental segue na mira do Legislativo e Executivo conforme atestam 3 dos 29 pontos da Agenda Brasil, anunciada na semana passada como um plano de recuperação econômica para o país. Mas a Agenda também revela outra face à brasileira do que o filosofo Jacques Rancière chama de Estado de direito oligárquico.

Se vivemos em um “Estado em que o poder da oligarquia é limitado pelo duplo reconhecimento da soberania popular e das liberdades individuais” que caracterizariam, segundo Rancière, as democracias atuais, no Brasil os elementos que limitariam o poder das oligarquias estatais são neutralizados não apenas pela sua sólida e histórica aliança com setores econômicos (que resulta em todas as distorções que a pauta da Reforma Política denuncia). Elementos que conformam nossas desigualdades históricas – como o racismo – também cumprem um papel crucial na manutenção de privilégios e de um modelo de desenvolvimento que ignora a diversidade social brasileira. Ou melhor, que a considera um “entrave ao desenvolvimento”.

A Agenda evidencia isso ao propor “a revisão dos marcos jurídicos que regulam áreas indígenas, como forma de compatibiliza-las às atividades produtivas”. Compatibilizá-las com atividades produtivas significa ignorar que as terras indígenas – que junto com as Unidades de Conservação contabilizam 170 milhões de hectares dos 537 milhões de vegetação natural ainda existentes no país – representam, em algumas regiões, as áreas mais extensas de biodiversidade. O papel que esses territórios preservados cumprem na produção de chuvas e na regulação climática em um país que vive uma crise hídrica deveria ser um elemento suficientemente forte para que Estado e sociedade reconhecessem o papel crucial que esses povos têm para a manutenção de Bens Comuns. A garantia de seus direitos à terra e ao território deveria, portanto, ser objeto de interesse não apenas dos povos indígenas.

Entretanto, atualmente há mais de 150 ações contestando demarcações de Terras Indígenas no STF e também no Legislativo e Executivo, decretos, portarias, projetos de lei e de emendas constitucionais em debate ou tramitação visam impor limites às garantias constitucionais de terra para os índios. A máxima de que “há terra demais para poucos índios”  implica a perigosa aceitação por parte da sociedade de que o acesso aos direitos de determinados grupos pode ser flexibilizado em detrimento do suposto benefício do conjunto da sociedade. O resultado tende a ser o esgarçamento dos laços que unem a sociedade brasileira e a perda das bases sociais e ambientais que garantem a manutenção dos meios de vida, trabalho e reprodução social de inúmeros cidadãos que são alijados dos centros de poder.

A sistemática invisibilidade a que são submetidos seus modos de vida e projetos socioprodutivos pela ação autoritária do Estado, amparada em um imaginário racista ainda bastante presente na nossa sociedade, nega aos grupos historicamente vulnerabilizados – negrxs, pobres, índios, populações tradicionais, faveladxs, migrantes, sem terra/teto – o papel de sujeitos políticos. Isso em, grande medida, em nome de abstrações (como “às necessidades do desenvolvimento econômico” como quer a Agenda Brasil) que mascaram determinados interesses que não coincidem com os “da nação”, mas que interessam dar a impressão de que sim, coincidem.

O fato de que três empresas, no caso das grandes hidrelétricas, se revezem na elaboração dos estudos de impacto ambiental e depois participem do processo de construção dessas obras, como revela o artigo da Pública, evidencia quais interesses estão em jogo quando trata-se de “incentivar grandes investimentos em infra estrutura no Brasil”, um dos objetivos centrais da Agenda.

Referências:

Jacques Rancière. Ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2014

Artionka Capiberibe e Oiara Bonilla. A ocupação do Congresso: contra o quê lutam os índios? Revista Estudos avançados, 29(83), 2015.

Tópicos sobre a crise

Por Helder Gomes

1 – A semana tem sido marcada por mais um vendaval na economia mundial. Com ele veio uma chuva de falsas explicações e de recomendações dos especialistas de plantão, com suas receitas de manual. É incrível como essa gente consegue dizer tanta bobagem, tornando cada vez mais incoerente seus argumentos.

2 – Os consumidores são sempre atraídos para a ideia de que têm alguma influência no livre jogo das forças de mercado. Não é o que mostram os cortes na produção, a rigidez à queda dos preços dos meios de consumo amontoados nos estoques, a inflação, o desemprego etc.

3 – Existem pelo menos dois dos problemas para entender a crise econômica atual: acreditar que se trata de uma crise do momento; e misturar as formas funcionais do capital.

4 – Não se trata de uma crise financeira conjuntural (provocada pelo exagero de um ou outro agente) que gera repercussões sobre a esfera real da economia. Trata-se de uma crise estrutural, inaugurada no final dos anos 1960, resultante da superprodução do capital (nada a ver com subconsumo) que seguiu à reconstrução do Pós-Guerra. Para simplificar, o capital excedente não encontra oportunidades de investimento (produtivo) com as mesmas taxas de rentabilidade do período anterior.

5 – A dificuldade de destruir (com uma nova guerra) o capital excedente, motivou sua reciclagem via as oportunidades de especulação abertas com a quebra do padrão monetário internacional, entre 1971-72. Dali em diante, criou-se uma rede mundial de produção de riqueza fictícia, com a securitização de dívidas e a partir de apostas sobre a flutuação das taxas futuras de juros e de câmbio. A lógica da acumulação especulativa passou a dominar todas as outras formas de capital (bancária, produtiva, comercial etc.).

6 – A oligarquia parasitária (cortadora de cupom) do tempo de Lênin jamais sonharia que seus seguidores conseguiriam a façanha de produzir uma riqueza fictícia tão avolumada em títulos (centenas de trilhões de dólares, apenas em derivativos), que nada mais são do que um direito reconhecido socialmente aos seus portadores sobre uma riqueza que quase todo mundo acredita que pode existir no futuro.

7 – Daí a importância de entender a diferença entre ganhos advindos de empréstimos bancários (juros), daqueles oriundos da especulação com compra e venda de ações das empresas e daqueles vinculados a apostas sobre cotações futuras de taxas de juros e de câmbio.

8 – Foi possível perceber esta semana como uma decisão pode promover movimentos bruscos nos mercados especulativos em nível mundial. Não porque, no caso, os produtos chineses poderiam alcançar algum nível de competitividade diferenciada, mas, muito mais, porque alguns especuladores, posicionados com grandes volumes de títulos na perspectiva de estabilidade da moeda chinesa, se veem agora obrigados a procurar imediatamente formas de compensação pelas perdas daquele momento inicial.

9 – Esses ventos são apenas alguns poucos sintomas de uma doença muito mais grave.

China: Enriquecer é Doloroso

Por Hugo Albuquerque 
(conheça aqui nosso time de colunistas)

Enriquecer é glorioso — eis a frase que explica, e determina, o espírito da China atual. Ela foi dita por Deng Xiaoping o refundador da China comunista, alguém cuja influência prática já se emparelha à obra do fundador do país, Mao Tsé-Tung. Foram as políticas de Deng, que levaram a China a ser para o mundo de hoje aquilo que representou o ABC paulista para o Brasil pós-Juscelino e da Ditadura Militar: um gigantesco chão de fábrica, com direito a tudo de vida, violência e fúria que isso significa.

Contudo, neste exato instante, a engenhosa construção política e econômica de Deng, que levou a China ao posto de  maior economia nacional do mundo em números reais , está em xeque.  A Bolsa de Xangai está a desabar terrivelmente, levantando seríssimas dúvidas sobre o modelo chinês. Não é pouco, nem irrelevante seja pelo tamanho da China, mas por sua posição estratégica, do ponto de vista político e socioeconômico, que não é nada de se desprezar.

A glória do enriquecimento de Deng, sob a sombra da bandeira vermelha, esconde o fato de que a partir dos anos 80, do ponto de vista socioeconômico, a China se prestou a ser o tapete para baixo do qual o mundo capitalista varria sua sujeira. Ao prometer que o Ocidente teria os mais disciplinados operários fabris à sua disposição (e cumprir!), Pequim ajudou o neoliberalismo a se viabilizar por meio da realização da fantasia capitalista, a qual se baseia no mito da evolução tecnológica e da sucessão de etapas.

Ocorre que o capitalismo não funciona pela sucessão de etapas, mas sim pela sobreposição destas. Logo, os governos ocidentais estavam livres do risco de gerir o inferno fabril, a realidade sindical, greves e afins. A camada fabril foi exportada para o Oriente.

Ao proletarizar como operários fabris do século XIX os seus camponeses famélicos, o regime chinês se prestou a ser a exportadora global de bens industrializados: sem precisar construir um mercado interno próprio, os novos mandarins enfrentaram menos cobranças e pressões que seus congêneres ricos no pós-guerra: se quem produz não consome, não testemunha o consumo e não tem sequer tempo para fazer nada disso, significa que esse alguém dificilmente terá ideia do quanto é explorado.

Tudo parecia um jogo de contentes até 2008, quando as economias destino da China entram em colapso. A tentativa contornar isso por meio da realização de grandes obras, a piori deram algum rumo para o aço e os insumos encalhados. Mas isso chegou ao limite. Seja porque a infraestrutura necessária já foi construída ou, também, porque as metrópoles fantasma construídas no período se tornam, rapidamente, um problema econômico.

O New Deal que os burocratas de Pequim praticaram careceu, portanto, do essencial: distribuição de salários e renda — e poder político. Menos produção e mais consumo. O que se viu foi a continuidade do processo que conduziu a China, enriquecendo à la Deng, a ter, em trinta anos, uma desigualdade social latino-americana. É preciso voltar a ler Marx.

As veias abertas da ditadura militar

Por Sammer Siman

Definitivamente, o golpe civil-militar deixou marcas profundas na sociedade brasileira que ainda seguem expostas. Uma das expressões disso é vermos uma ampla base social, incluindo movimentos sociais que outrora enfrentaram o avanço neoliberal da década de 90, defenderem a democracia como um “ente abstrato” e, a pretexto de um suposto golpe, blindarem o governo Dilma enquanto ela e seu partido seguem entregando o país por meio de iniciativas como a (Contra) Agenda Brasil.

O que procuro nesse texto é, em 5 minutos, a partir de 5 argumentos, defender a ideia de que é chantagem barata retroalimentar o “fantasma” de 64 enquanto está em curso o aprofundamento de um modelo econômico genocida e promotor de violência.

1) Votar de dois em dois anos não tem sido suficiente para termos uma sociedade mais justa e menos desigual. Certo é que se a democracia é algo limitado do ponto de vista da participação popular mesmo em países centrais, no Brasil ela parece mais uma peça de ficção. A despeito da recuperação das liberdades constitucionais nosso regime político segue massacrando nossa gente, em especial o povo pobre, preto e de periferia. Para ficar num dado apenas, todo ano são mortos por homicídio no Brasil o equivalente ao número de mortos em um ano na guerra do Vietnã, um dado que varia pouco a despeito do PIB crescer 1 ou 3% ao ano.

2) Mais do que sequestrar liberdades formais, a ditadura civil-militar reforçou a supremacia das multinacionais. E, a despeito da retomada de liberdades formais, são os gringos que continuam dando as cartas. Da água que bebemos passando pelas sementes, pelos automóveis, pela indústria cultural… até chegar aos satélites, o “império” da gringolândia só se expande no Brasil.

3) O Brasil não é o Paraguai. Neste último país a condição de dependência é extrema; para ficar em dois exemplos: metade (!) da renda nacional do Paraguai vem da usina de Itaipu, e pelo menos 38% de suas terras agricultáveis de hoje são de propriedade chinesa. Portanto, se no Paraguai um golpe se deu com pouca reação da “comunidade internacional”, no Brasil o “buraco é mais em baixo”, pois o tecido social e econômico é mais complexo e segmentos diversos da sociedade política se mobilizariam prontamente contra iniciativas golpistas reais, afinal, a memória coletiva que se opõe a golpes e ditaduras tem sido positivamente mobilizada nos últimos anos.

4) Em 1964 a hegemonia norte-americana estava em seu auge. Naquele país havia coesão interna que permitiu sua escalada militar mundo afora e o apoio de golpes em países da América Latina. Hoje sua hegemonia está, se não em declínio, abalada. O avanço de experiências como a venezuelana e boliviana se deu em oposição aos interesses dos EUA, portanto, o momento segue favorável para uma ofensiva de um projeto popular no Brasil.

5) Se Lula representa num imaginário popular o que há de mais avançado, cabe a nós romper com isso e produzir um novo campo social e político, o que significa produzir novas lideranças. Para ficar num exemplo, a mesma mão que acenou para a Marcha das Margaridas em Brasília foi ao senado costurar a (Contra) Agenda Brasil, tudo num mesmo dia. Afinal, Lula não foi construído “por si”, se não ao custo de muito suor e sangue.

Nos falta uma movimentação decidida em torno da construção de um campo social e político que se organize a partir da divisão da riqueza agrária, urbana, tributária, dentre outras. Do contrário, é continuar servindo ao mesmo campo político de “camaradas” como Roberto Setúbal, presidente do Itaú e mais novo defensor declarado do governo petista.

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Mais Marx, menos Mises: a previsibilidade por trás da queda imprevisível dos mercados

Por Edemilson Paraná

Poucas coisas misturam de modo mais intrigante caos e determinação como os mercados financeiros. Se é quase impossível prever quando vem o próximo tsunami, é praticamente um consenso (não importa a matriz de pensamento) que ele inescapavelmente virá de tempos em tempos. O jogo dá-se, portanto, entre aqueles que acertam e erram em suas apostas a respeito. O que alguns chamam de “comportamento dos atores” outros definem como “lógica intrínseca ao sistema”. É o que parece estar acontecendo hoje em mais uma dentre as várias “black mondays” que vimos ao longo da história (lembremos que os mercados dormem em pânico desde a última sexta-feira): uma previsível queda imprevisível.

A despeito de suas consequências afetarem o destino de bilhões de pessoas, sabemos que esse jogo é realmente jogado por um grupo pequeno de atores – o que não quer dizer que o clubinho esteja completamente imune às agruras desse caos de determinações. Em resumo, o jogo não é “neutro” e “impessoal” em suas regras e lógicas de funcionamento: uns mandam (e ganham) muito mais do que outros. Mas ainda é um jogo.

Onde quero chegar? Ao espetáculo previsível do imprevisível no capitalismo financeirizado de nosso tempo. Em abstrato, quase sempre há crises após períodos de forte crescimento nas economias. Mas o que caracteriza o pânico de agora? Os comentaristas falarão da desaceleração da China, das políticas de expansão monetária, do excesso de liquidez nos mercados, do endividamento dos Estados e da irresponsabilidade fiscal, enfim… O fato é que há algo de profundo (e bem mais simples) nessa história toda – e que pouca gente gosta de lembrar, por óbvio: desde o cataclismo de 2008, pouco ou quase nada mudou realmente. As coisas seguem sendo feitas exatamente como antes. As regras (ou a falta delas), os consensos teóricos, as dinâmicas de funcionamento, o papel dos Estados na jogada…

É verdade que o salvamento e a pseudo-nacionalização de bancos e grandes empresas à época, as políticas de injeção de bilhões na economia e tudo isso não são, de fato, políticas neoliberais stricto sensu. Assim como a tragédia da queda dos salários diretos e indiretos e do poder de compra dos trabalhadores bem como os demais aspectos do pacote de maldades que avança já há um bom tempo não são políticas propriamente “keynesianas” ou “heterodoxas”. Em um cenário a combinar o pior dos dois mundos, essa querela faz pouco ou nenhum sentido: pragmático que é, o capitalismo serve-se do que há de “melhor” na praça. Apego a pacotes “bem acabados” de conceitos é coisa de intelectuais – e a vários deles se paga muito bem para mudar de ideia de tempos em tempos.

Resumindo. Os “to big to fail” foram salvos, outros, nem tão amigos do rei, afundaram; injetou-se bilhões na economia mundial e a farra estaria mantida às custas do acelerado e celebrado crescimento Chinês combinado à pilhagem aos Estados ora “salvadores”. Enquanto isso, lá e cá, porrada e carestia aos devedores, trabalhadores, consumidores, pagadores de impostos. Apesar de “imprevisível”, parece um tanto óbvio onde isso nos levaria, não? Teria enfim estourado a afamada bolha chinesa?

Eis do que são feitas as sístoles e diástoles que bombeiam de vida o capitalismo mundial: crescimento do lucro (e investimento) de um lado, necessidade de consumo crescente do outro. A conta parece não fechar, mas, à fórceps, numa verdadeira contabilidade criativa de barbáries, acaba fechando: destruição do meio ambiente, crescimento das desigualdades, aumento da exploração, conflitos bélicos. “There’s no free lunch”. A bem da verdade, a terra já tremia e alguns dos sinais apareciam no horizonte: queda do preço do petróleo e de outras commodities, desaceleração dos emergentes (e da própria China), os atoleiros europeu e japonês, a alta no preço das ações em desacordo com os fundamentos das empresas e economias nacionais, e assim por diante.

Parece que este será um intrigante momento para a China mostrar a que veio de fato. Até onde irá o movimento de “voltar-se para dentro”? O tombo parece considerável. Para se ter uma ideia, o país consome 11% de todo o petróleo mundial, 57% do cobre e importou dois terços de todo o minério de ferro produzido no planeta em 2013. As opções políticas não são poucas, e subestimá-la, portanto, faz pouco sentido agora. A ver.

Tudo somado, de tempos em tempos, algo ou alguém precisa salvar o capitalismo dos capitalistas. A nova estrutura de funcionamento da economia global, no entanto, fez eliminar, como antígenos perigosos vários dos elementos que, na verdade, eram vacinas. Onde isso vai parar? Até que ponto é reversível? Difícil saber. Mas não nos enganemos, é da mistura de previsibilidade com imprevisibilidade que o jogo segue, para a sorte de uns e desgraça de outros.

Pánico

Refundar as instituições através de uma Constituinte popular e democrática

Por Luciana Genro

Nos últimos dias alguns dos principais representantes da burguesia vieram à público declarar-se contra o impeachment de Dilma, confirmando o que eu e outros dirigentes do PSOL temos afirmado. No último domingo, foi a vez do banqueiro Roberto Setúbal, presidente do Itaú Unibanco, dizer que “não há motivos para tirar Dilma do cargo”. Não é de causar surpresa, visto que os bancos, apesar da crise, têm aumentado seus lucros e, como sempre, ficado de fora de qualquer medida de ajuste. A burguesia está bem servida e quer que o governo leve adiante o ajuste nas costas do povo.

Diante da insistência dos governistas em tentar atrair o PSOL para uma frente contra um suposto golpe, temos afirmado que o único caminho para conter o crescimento da direita e do PSDB é construindo um terceiro campo, nas lutas por emprego, salário, moradia e contra o ajuste de Dilma e Levy, apoiado pelo PSDB. Neste processo é preciso, também, apontar uma saída política para a crise. Acredito que é preciso lutar pela convocação de uma Assembleia Constituinte que seja capaz de refundar as instituições da República e aproximá-las dos anseios populares.

As instituições não representam os interesses da maioria do povo. Existem para manter e reproduzir privilégios e concentrar muito poder nas mãos de um punhado de pessoas e grupos políticos. Somente com a ampla participação popular na política será possível tornar as instituições da República mais permeáveis às necessidades reais da população.

A Assembleia Constituinte que defendemos não poderia ser eleita com base no atual sistema político-eleitoral do país. Esse sistema privilegia as candidaturas com vultuosas doações das grandes empresas, dos bancos e das empreiteiras e acaba elegendo, na grande maioria, políticos que representam esses setores – e não a maioria da população.

Defendo a necessidade de uma Assembleia Constituinte eleita sob novas bases, que permitam a candidatura de pessoas sem partido político, que distribua de forma mais democrática o tempo de televisão e que proíba a doação de empresas aos candidatos e partidos. Neste cenário teríamos uma oportunidade para quebrar a casta que domina a política e possibilitar ao povo que tome em suas mãos os destinos da nação.

Reafirmar a saída à esquerda é preciso!

Por Cláudia Fávaro

Vivemos no Brasil um clima de tensão política. Se por um lado vimos esta semana uma massa de alienados vestidos de verde amarelo, fazendo coro a argumentos que nem eles mesmos concordam ou entendem, por outro lado temos uma base de CC´s e militantes governistas sedentos em construir argumentos superficiais para defender um governo que está disposto a tudo para se manter no poder, da conciliação de classe ao ataque sistemático aos direitos dos trabalhadores.

No entanto, há outros atores que engendram a tensão política atual e ela não tem apenas dois lados. Para quem acompanha o cenário político pela mídia, essa tensão parece causada por uma polarização entre os que defendem o governo e os que querem derrubá-lo. De um lado, temos um governo, que se mantém no poder por um complexo e ingovernável jogo de alianças, troca de favores e cargos, entre partidos com grandes diferenças ideológicas.

Um governo que por sua paliativa política social conseguiu incluir uma grande parcela da população na lista dos que comem três vezes ao dia; mas por sua política econômica, transformou a questão social numa questão de mercado, a pobreza em questão administrativa e que entregou importantes setores da economia e do patrimônio público às empresas privadas. No último período o Brasil se desenvolveu, muitas obras através das quais os donos dos meios de produção e do capital especulativo lucraram muito e por outro lado, nós, os debaixo, recebemos apenas o mínimo para desfrutar um pouco das mais simples mordomias dos poderosos.

E são justamente essas poucas conquistas que incomodam tanto o outro lado que historicamente se incomoda quando precisa dividir o mesmo espaço com um pobre ou com um negro. Uma pequena burguesia interessada em manter seus privilégios de classe e que vê no que chama de “comunismo” a ameaça aos seus objetivos de manter o status quo.  Uma direita fascista e preconceituosa que tem utilizado seus aparelhos privados de hegemonia (igrejas, jornais, sindicatos) para incitar o ódio e a violência enquanto em seus discursos falam de democracia e paz!

No entanto, entre esses ainda há lutadores e lutadoras que calçam o pé, e que estão dispostos a  travar as engrenagens que reproduzem esses sistema de opressões com luta e com enfrentamento a TODOS os que representam ameaça ao povo trabalhador e aos que defendem a retirada de direitos. Por isso, o ato convocado pelo MTST em São Paulo para o próximo dia 20 de agosto tem por objetivo contrapor e se posicionar, sim, frente essa direita fascista, que tem manipulado uma massa indignada com o governo pela perda de direitos.

Mas mais que isso, tem por objetivo por em cheque a posição do governo Dilma em governar para os de cima, fazendo com que o povo brasileiro mais pobre pague a conta desta crise. Foram inúmeros ataques desde o início deste ano culminando recentemente na aprovação na Câmara da chamada “lei do terrorismo”, uma afronta aos movimentos sociais organizados. Tenho certeza que o MTST em São Paulo terá condições de se impor sobre a onda governista de nomear o ato do dia 20 como um ato em defesa do governo.

No Rio de janeiro, Salvador e Fortaleza acontecerão dois atos e convido aos companheiros e companheiras de luta, dispostos a enfrentar os governos e os patrões a se somarem às trincheiras dos que lutam por direitos e independência de classe e tem propostas para o Brasil.

O MTST não está disposto a engolir a Agenda Brasil a qualquer custo e não defenderemos um governo, mas sim, políticas de estado que apontem no caminho de cobrar a conta da crise dos que encheram os bolsos de dinheiro as nossas custas.  Aqui no Rio Grande do Sul, como em outros estados, setores do governo chamaram o ato tentando inverter a lógica inicial do ato do dia 20/08, como um ato de desagravo do governo Dilma.

Não concordaremos, vamos construir a luta na base, nas ocupações e nos territórios acumulando a força política que precisamos para fazer esse enfrentamento pela esquerda, sem fazer coro com a direita chamando fora Dilma, nem aplaudindo um governo que traiu os trabalhadores.

As mobilizações de 20 de agosto

Por Guilherme Boulos

Nesta quinta-feira, 20/8, milhares de trabalhadores e trabalhadoras tomarão as ruas do país por uma pauta de esquerda, contra o avanço conservador e o ajuste fiscal. O Manifesto Nacional, assinado por dezenas de movimentos sociais, é claro em relação aos objetivos do ato (facebook.com/events/873549372734912/).

Os três eixos da convocatória são: 1) Contra o ajuste fiscal, que os ricos paguem pela crise; 2) Fora Cunha, não às pautas conservadoras e o ataque aos direitos; e 3) A saída é pela esquerda, com o povo na rua e por Reformas populares.

Os movimentos acrescentaram ainda à pauta a rejeição clara aos retrocessos da tal Agenda Brasil – um pacto entre os de cima e contra os trabalhadores – reafirmando como contraponto uma agenda popular: Taxação das grandes fortunas e do lucro dos bancos, auditoria da dívida pública e reformas populares.

Mas a clareza do Manifesto não foi suficiente para evitar confusões e tentativas de desvirtuar o caráter da mobilização. Pela contraposição em relação aos atos puxados pela direita em 16/8, alguns – tanto entre organizações convocantes, quanto entre os sectários de plantão – apressaram-se em dizer (contra o própria convocatória do ato) que seria uma mobilização de defesa do governo Dilma.

Vejamos como chegaram a isso.

De um lado, é verdade que surgiram uma série de convocatórias paralelas reduzindo o ato à “luta contra o golpismo”, sem falar de ajuste, direitos e mesmo defendendo o governo Dilma. Alguns dos movimentos que participam da organização do ato chegaram a compor estas convocatórias. E isso levou ao fato de que em uma série de capitais do país não haverá ato unitário, mas sim dois atos. Um seguindo o Manifesto nacional, outro estritamente “contra o golpismo”.

Este é um fato notório para os que estão acompanhando a organização do dia 20 e publicizado em convocatórias diferentes – no local, horário e conteúdo – em algumas das cidades que terão mobilizações. Uma demonstração clara de que, onde o tom da mobilização não seguiu a unidade política do Manifesto nacional, ela se dividiu.

Mas, de outro lado, esta disputa real pelo significado do ato do dia 20 está sendo utilizada por grupos sectários da esquerda para carimbar o ato, e conseqüentemente o MTST, como governistas.

Nenhuma novidade quando se trata dos puristas de sempre. Seu grande orgulho é não se misturar com os outros. Fogem de ambiguidades, de riscos políticos, ou seja, da história. Dedicam a maior parte de seu tempo não a fazer política de esquerda, mas a criticar quem faz por não ser “suficientemente de esquerda”. O resultado é a mais completa impotência política. Vivem a dizer o que os outros devem fazer, para onde devem mobilizar, mas quanto a eles, não conseguem mobilizar nem seus vizinhos na defesa de suas ideias. Vivem de sonhar que um dia as massas cairão em seu colo.

Quanto a nós, estaremos nas ruas no dia 20. Os atos unitários, incluindo o de São Paulo, terão um tom claro contra a direita e o ajuste fiscal do governo. Também contra a Agenda Brasil.

Este é o ponto que demarca a unidade, diante da diversidade de orientações políticas dos movimentos que estão nesta Frente. Na Frente de Mobilização que vem sendo construída por vários movimentos sociais desde 2014 e que organizou dias de luta como o 15/4, o 25/6 e agora o 20/8, cabem todos aqueles que queiram lutar contra a ofensiva da direita e de Cunha, contra o ajuste fiscal do governo Dilma e por uma saída à esquerda para a crise.

Esta alternativa popular e unitária sairá fortalecida das mobilizações do dia 20.

O discurso da massa manipulável e as manifestações “Fora PT”

Por Juliana Góes

Nesse exato momento, eu estou ao lado da Avenida Paulista, no subsolo de um prédio. Tenho acompanhado as manifestações “Fora PT” já tem algum tempo. E como notícias muito bizarras chegavam até mim sobre como elas ocorriam em São Paulo, decidi vir aqui e ver, com os meus próprios olhos, o que estava acontecendo. E confesso que fiquei assustada.

Alguns poderiam alegar que é a quantidade de pessoas na rua que me assustou. Mas não é isto. A manifestação dos sem-teto em São Paulo, a Marcha das Margaridas, o ato do Tarifa Zero de Belo Horizonte em conjunto com a Assembleia Popular de BH, com a Rede Resiste Izidora e com o MPL, entre outros atos, mostram que a esquerda ainda tem um grande poder de mobilização. Ressalto, porém, que ela precisa ser bastante aprofundada, mas isto é tema para outro texto. O ponto aqui é que as manifestações “Fora PT” são televisionadas e as demais não, de forma que temos a impressão de que elas são as únicas que existem e gigantérrimas. O que me assusta é como a mistura do discurso racista e meritocrático permite que essas manifestações sejam usadas como trampolins políticos.

Xs manifestantes de hoje  possuem um perfil clássico.  Em geral, são homens e mulheres majoritariamente brancxs, com uma condição material de vida bem equilibrada, com a idade avançada (encontrar alguém com menos de trinta foi muito díficil) e com alta escolaridade (conversei com várias pessoas, todas com graduação ou pós-graduação). Nas conversas que tive com xs manifestantes, várixs se autoafirmavam como a parcela educada, consciente e politicamente informada da população. Elxs tentam salvar o Brasil da manipulação que partidos e grupos como o PT fazem. E quem são as pessoas manipuladas pela esquerda? São xs pobres, xs negrxs, aquelxs que ganham bolsa família, “que vendem o voto por pão e mortadela” (frase que ouvi ser dita no carro de som).

Os manifestantes da Paulista querem salvar o Brasil. E se entendem como os capazes disto. Afinal, não são a massa manipulada pelo PT.

De fato, as pessoas com quem conversei têm o desejo sincero de um Brasil melhor. A ideia do patriotismo vem justamente nessa hora: elas querem defender o país e por isso estão indo às ruas, participando politicamente e cumprindo o dever como cidadãs. O momento atual é entendido como propício para as mudanças: o Brasil tem acordado e ocupado as ruas.  Além disso, elas se aglomeram em torno de pautas comuns: fim da corrupção, saúde, educação, uma economia estável, qualidade de vida, etc. Porém não existe um projeto de sociedade que dê suporte às pautas.

O resultado da ausência de um projeto de sociedade bem construído é que xs manifestantes de hoje movem o barco, mas não possuem capacidade de definir qual o objetivo final dele. Com isso, vários grupos políticos os usam como trampolins para suas próprias pautas. Entre xs manifestantes, vi muitos decepcionados com o Aécio, com o Cunha, com o STF, com a política geral. Mas na hora de fazer falas no Congresso, a direita se coloca como representante “deste povo que está nas ruas”.

Então, surge a ironia. Lembra que falei que quem estava na rua se dizia como população consciente politicamente? Que iria salvar o Brasil da manipulação que o PT fazia com as massas? Pois é, de fato grupos políticos reacionários estão usando das “massas manipuláveis” na disputa política. Só que a “massa da classe média alta”. E, ao invés de se atentarem para isto, percebi nas falas uma preocupação muito maior em se diferenciar da população “manipulada pelo Bolsa Família”, burra, e que precisa ser salva.

Isso mostra, a meu ver, dois pontos. O primeiro é que ainda é possível tentar dialogar com a população que dá volume a estes atos. Como não há um projeto de sociedade definido, pode-se disputar a indignação que há na rua e tentar canalizá-la para uma curva à esquerda. Porém, e aqui entro no segundo ponto, isso implica combater fortemente o racismo e a meritocracia. O desafio agora é: como desconstruir isto em um cenário político onde ele se fortalece? As táticas atuais têm se mostrado ineficientes. Bom, essa pergunta é o que impulsionará o próximo texto.