Atropelado pelo sistema

Por Rodrigo Santaella

Morreu na hora do rush. Tinha nome, idade, endereço, cor de pele, dignidade, vida. Era um ser humano como a maioria dos que habitam esse país: lutando por sua sobrevivência nas fendas do sistema, e nesse caso literalmente. Batalhando, como tantos outros, a recuperação e a ‘reintegração’ depois de um período preso. Vendia balas e doces nos trens da SuperVia no Rio para viver, brincar com a mãe, sobreviver, resistir: sem poder passar pelas passarelas, trabalhava nas fendas, na linha do trem. Na luta por reerguer-se depois do período preso, enfrentava, novamente, o Estado, na forma da fiscalização que proíbe ambulantes de venderem seus produtos no interior dos trens e nas passarelas. Nas fendas era obrigado a trabalhar, nas fendas viu sua vida terminar. Era Adílio Cabral dos Santos, 33 anos de idade, carioca, negro e tinha saído da prisão em outubro do ano passado. Sua mãe, dona Eunice, uma senhora de 61 anos, com tristeza e resignação no olhar disse que “ele estava começando a se levantar, começando a se congregar, estava bem. A gente brincava muito um com o outro, era meu companheiro”.

Adílio estava morto, na linha do trem. Horário de pico: o ir e vir do e da capital, de casa ao trabalho, do trabalho para casa, não pode parar. Trens circulando com “velocidade reduzida”. Trens parados. Corpos cansados, estressados, aprisionados e pressionados. “Segue, segue devagarzinho, não tem problema. Passem por cima de Adílio novamente”. Se não ficou claro o responsável pelo primeiro atropelamento, que se passe por cima do corpo para ratificar.

O mais absurdo de toda a história é o fato de ela não ser tão absurda assim. Estão apurando quem deu a ordem para o trem passar por cima. Funcionários com autonomia para isso, a direção da SuperVia, quem? Para a reflexão de fundo, não é tão importante. Se tiverem sido os funcionários, o fizeram pressionados por uma lógica: não pode atrasar, não pode parar, não pode. A empresa, responsável pela pressão, funciona à base do lucro, na mesma lógica. As pessoas, dentro dos trens, sabendo ou não do que se tratava, também precisavam chegar nas suas casas ou nos seus trabalhos. Precisavam. Assim como Adílio, talvez com um pouco mais de sorte, vivem dia após dia, exploradas para sobreviver.

A morte teve pouco de absurdo, e o passar por cima do corpo também. Morreu exercendo um trabalho de risco que era obrigado a exercer para “reerguer-se” depois da prisão, e passaram por cima de seu corpo para seguir o fluxo, não atrapalhar a dinâmica do ir e vir do sistema. Tudo isso tem uma lógica. É a lógica do capital. Adílio foi atropelado por um sistema. Foi um sistema que passou por cima de seu corpo sem vida (?). É esse sistema que tem que ser parado antes que, aos poucos, atropele todos nós.

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3 comentários sobre “Atropelado pelo sistema

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