Salvo-conduto da Direita

Por Gustavo Capela

A origem da esquerda é a crítica. Nós somos moldados e forjados na premissa de que precisamos analisar, avaliar e entender melhor aquilo que nos circunda. Para que não fiquemos a mercê do “supostamente dado”. Para que não sejamos levados pela corrente mundana do status quo, tão presente em nossos atos e fazeres inconscientes.

Por isso, é normal, e até indispensável, que ajamos com essa veemência crítica e com esses elevados critérios diante de nós mesmos. Porque é preciso. É necessário. Sem autocrítica e sem entender-se parte desse todo que buscamos mudar, simplesmente não andamos. Ou andamos em círculos auto persecutórios. Nada eficientes.

Acontece, porém, que temos que ter cuidado para não criar um verdadeiro salvo-conduto para a direita fazer o que bem desejar, como se nós já esperássemos que ela assim agisse por, afinal, ser a direita. Porque isso pode nos levar a, engalfinhados em nossa sensação comum de mal estar com nós mesmos – o que, repito, é imprescindível – acabarmos por “entender” demais a direita e como ela opera. Sem fazer a devida crítica

É comum até em círculos menos “politizados”, mas com algum grau de noção da diferença entre esquerda e direita, que a mesma atitude tomada por um partido ou figura pública de direita seja menos criticada e menos mal vista do que as condutas que vêm da esquerda. Ou ao menos daquilo que é pretensamente visto como esquerda.

Um exemplo interessante sobre isso que narro pode ser visto nessa contínua saga da Operação Lava Jato. Se saírmos um pouco de nossa bolha existencial para lermos a grande mídia com atenção e ouvir nossos colegas e amigos que não se inserem em partidos ou movimentos de resistência social, fica evidente que, para além do anti-petismo, as pessoas em geral não se incomodam tanto quando é a direita que age sem moral ou ética, quando é a direita que usufrui privadamente de bens públicos, quando é a direita que explora e oprime. Porque, afinal, eles não defendem fazer o contrário.

É inquestionável que a corrupção é uma realidade em nosso país. E é também inquestionável que precisamos combatê-la de maneira a tentar acabar com ela para que a democracia seja radicalizada. Mas é curioso que essas ações sejam tão mais julgadoras da moral dos representantes do Partido dos Trabalhadores. Não só pela a esquerda em geral, mas por toda a população. Não se fala tanto dos correligionários do PP, ou até do PMDB, porque já se pressupõe que esses políticos são e sempre serão corruptos.

Parece-me que muitas das vezes em que os deslizes e os erros acontecem perdemos o foco do papel que a esquerda tem em construir uma nova alternativa – para além de só anunciá-la. É preciso demonstrar as diferenças. É preciso dialogar sobre elas e agir para transformar. Se entendemos a corrupção como realidade estrutural e sistêmica do mundo contemporâneo, não há mais ou menos culpado por ela. Não há aqueles que merecem maior expectativa nossa e aqueles que merecem menos. A confiança política não pode ser cega a ponto de gerar recalque quando não cumprida. E tampouco pode a diferenciação entre esquerda e direita criar uma espécie de expectativa nula em relação à direita que acaba por diminuir nosso incômodo ou reduzir nossa capacidade de emputecimento. Porque isso lhes dá mais fôlego. O que não me parece desejável.

Não somos de esquerda por sermos mais bonitinhos, mais éticos ou mais moralmente colados no “bom”. Até porque esses valores que hoje temos estão bastante imersos numa sociedade capitalista que formula nossa visão de mundo. Até por isso, talvez, conduzimos nossos ataques à direita, às empresas e aos grandes conglomerados, com mais cuidado. Para não “pagarmos de loucos.” Somos de esquerda porque acreditamos numa sociedade diversa, sem exploração, sem redução do outro ao nada. E isso requer disposição para a disputa. Seja do lado que for.

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Um comentário sobre “Salvo-conduto da Direita

  1. Laura Lou 04/08/2015 / 11:04

    Boa reflexão. E explica, em grande parte, porque a esquerda no Brasil encontra-se perdida atualmente. Lamentavelmente, aliás.

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