A nova disputa pela África

Por Paris Yeros

Desde o fim da Guerra Fria, o continente africano vive uma nova fase de disputas em torno de seus recursos naturais, de terra agrícola, água, minérios, petróleo e gás. Assim como no final do século XIX, há hoje uma escalada da competição pelo controle dos recursos naturais, ao ponto de se configurar uma disputa geopolítica militarizada.

A nova corrida tem características próprias. Primeiro, o capital financeiro que lidera a corrida, a partir dos grandes centros do Ocidente, segue desconectado da produção real e se comporta com uma agressividade especulativa inédita. A sua acumulação depende fundamentalmente da expansão e do estouro de bolhas, independentemente da demanda real pelos insumos em questão. Essa é, portanto, uma disputa cujo objetivo concreto é comercializar tudo possível e expô-lo ao tiroteio especulativo.

Segundo, entre os concorrentes hoje se incluem não apenas os tradicionais monopólios sedeados no Ocidente, mas também aqueles que almejam avançar desde as semiperiferias. Configurou-se assim uma nova concorrência monopolista, assimétrica: por um lado, monopólios com acesso privilegiado ao setor financeiro e, não menos, à proteção da OTAN; por outro, muitos outros que lutam para entrar no clube, porém sem condições de engajar nos termos da concorrência monopolista. A grande exceção é a China, cujo avanço se deu pelo apoio singular que as suas empresas receberam do próprio Estado, pelas novas formas de explorar recursos naturais (em troca de investimentos em infraestrutura), e por uma diplomacia que fez questão de não se meter em assuntos internos, nem se militarizar.

Terceiro, o continente hoje é constituído por um conjunto de Estados-nações, fruto das lutas de libertação do século XX, com o potencial de barganhar, tomar iniciativas próprias, formar alianças regionais e intercontinentais e resistir. Mesmo estados “neocoloniais” tem autonomia relativa que estados coloniais, por definição, não tinham. Isso explica a variação de trajetórias nacionais e regionais em curso. Enquanto o Norte, o Oeste, o Centro e o Leste da África vão sucumbindo à militarização da corrida por parte dos EUA e da OTAN, a África Austral segue blindada de intervenções, apesar das tentativas continuas pelo Ocidente de desestabilizar e dividir a região.

De fato, não se pode entender a dimensão geopolítica da corrida atual sem levar em conta o fato da descolonização e das novas resistências. Nos anos 1990, os EUA chegaram a perder controle do Centro e do Sul do continente, em função de lutas democráticas e de libertação nacional. Dentro de poucos anos colapsaram dois grandes pilares da geoestratégia dos EUA no continente – a África do Sul do apartheid e o Zaire do General Mobutu – e em seguida, iniciou-se um processo de re-radicalização do nacionalismo africano a partir do Zimbábue. Esse último resultou na maior reforma agrária no pós-Guerra Fria, iniciada em 2000, e num verdadeiro terremoto continental.

Na escalada das contradições, em 1998, as forças armadas do Zimbábue, junto com as de Angola e Namíbia, organizaram uma intervenção relâmpago na República Democrática do Congo (ex-Zaire) para enfrentar a invasão promovida pelos EUA por meio de Ruanda e Uganda. A intervenção deixou claro que a África Austral não iria aceitar tais estratégias militaristas na região e levou, em 2003, à formação de um pacto de defesa mútua entre todos os vizinhos.

É nessa conjuntura que a China voltou à África. Se a militarização da corrida Ocidental tem hoje a China como seu principal alvo, são as resistências nacionais e regionais, e as vulnerabilidades do imperialismo, que fizeram com que os EUA e seus aliados retomassem a militarização como instrumento de concorrência.

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