A Conjuntura e a “Gení”

Por Lúcio Gregori

Sangrar um governo com Joaquim Levi e Kátia Abreu, pra citar só dois ministros, é jogo para as arquibancadas. É segundo tempo do interminável fla-flu PSDB x PT, e com outro time, o PMDB, decidindo o campeonato. Impeachment só se a decisão for por pênaltis. Poderá até ser. O que parece acontecer, na verdade, é que se está sangrando o imaginário do que foi denominado de “esquerda”, ou, neo-desenvolvimentismo em outro jargão.

A disputa é por esse imaginário de “Gení”.  Essa é a conjuntura.  E aí está o desafio para um projeto a desenvolver-se para enfrentar esse campeonato.

A crise que aí está faz parte do cardápio permanente, característico de um modo de produção e que tem características específicas para países como o Brasil. Nada de inédito, a não ser o fato de que o país foi “dirigido” nos últimos doze anos e meio por um partido entendido, digamos, como de “esquerda”.

Então, os dominantes de sempre, inclusive os do governo, transformam agora o cardápio tradicional que são as crises do capital e a sua financeirização em um cardápio específico da “esquerda”. Ver dados e análise perfeita dessa financeirização no Brasil por Lêda Paulani, aqui. Idem quanto à corrupção.

Mas os mais experientes e menos envolvidos no fla-flu sabem que nesse estilo de jogo, muitos de seu próprio lado poderão se contundir gravemente e por isso não apostam inteiramente nele. Assim, fala-se que economia é expectativa e é preciso mudá-la e despertar novamente o “espírito animal dos empresários”. Exceto o “espírito animal dos banqueiros” que já está desperto, é claro.

Se essa for uma leitura correta da conjuntura, a estratégia necessária é despertar o “espírito animal do povo”, para usar a mesma ideia dos dominantes.

Isso passa por uma pauta de reivindicação de serviços públicos de qualidade e de tudo aquilo que é necessário para consegui-los, e centralizada em alguns pontos absolutamente fundamentais. Tributar os ricos; rever o pacto democrático com mais democracia direta e sem discriminação de espécie alguma; combater todo tipo de corrupção e criar formas de prevenção à corrupção endêmica de longa tradição, decorrente da financeirização das eleições. Auditar a dívida pública. E o fim dos monopólios da comunicação. Não é pouco e nem de curtíssimo prazo. Há que se pensar como sintetizar a pauta e traduzi-la de forma simples e de fácil compreensão.

Um projeto político que tenha um discurso menos ligado ao passado, aos ícones tradicionais, com propostas de fácil entendimento, com muito “pé na estrada” e que possa despertar o tal “espírito animal” dos que, de fato, constroem o país.

Projeto cuja pedagogia será mostrar que a democracia política básica e distorcida pode assumir também a forma da não-liberdade: a liberdade política pode facilmente proporcionar um cenário legal ideal para a escravidão econômica, com os mais desfavorecidos tendo que se vender “livremente” à servidão (Slavoj Zizek).

Democracia é outra coisa.

Anúncios

2 comentários sobre “A Conjuntura e a “Gení”

  1. tai777 10/08/2015 / 02:45

    oi Lúcio, td bem? Parabéns pelo texto! A análise é bem construída. Eu apresentou uma perspectiva alternativa aos jornais de grande circulação sobre a crise. Fique a vontade para trocar figurinhas!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s