O Leviathan global

Por Gustavo Gindre

Vivemos um cenário de intensa instabilidade, gerada por um conjunto de fatores, como a crise econômica, o ajuste fiscal de orientação liberal, a operação lava-jato e a ascensão de setores reacionários expressa na figura do presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Nesse cenário, o Grupo Globo percebe a oportunidade de atuar como o elemento-âncora, capaz de impor um rumo a ser seguido. O mesmo Grupo Globo que atuou para desgastar o governo, agora busca evitar um crescimento desmedido de Eduardo Cunha. Para isso, haveria duas possibilidades. A primeira seria manter um governo Dilma fraco e refém de uma pauta imposta de fora para dentro. Já no caso de Dilma se inviabilizar, seria preciso que Temer garantisse a continuidade do ajuste liberal.

A Globo atua, portanto, para evitar qualquer potencial transformador que ainda houvesse no governo petista, ao mesmo tempo em que também evita radicalizações de direita capazes de gerar uma instabilidade ruim para os negócios. A rigor, não há muita novidade nesse tipo de solução conservadora, testada em vários países europeus, por exemplo. Exceto pelo fato de que um dos principais atores nesse processo é uma única empresa (e não uma associação empresarial) e ainda por cima um grupo de mídia.

Essa nefasta particularidade brasileira é consequência de sermos a democracia burguesa com a maior concentração empresarial no campo da comunicação. Apenas o México chega perto. Para se ter uma ideia, o lucro líquido do Grupo Globo é algumas vezes maior do que o lucro líquido somado de Record, SBT, Bandeirantes, Rede TV, Folha, Estado de São Paulo, RBS e Abril. Se fosse desmembrada do Grupo Globo, apenas a Globosat já seria o segundo maior grupo de mídia do país.

Ainda durante o regime militar, setores conservadores demonstravam preocupação com o fato da Globo não estar disposta a se subordinar aos interesses da ditadura, passando a construir sua própria pauta política. Foi assim que assistimos, por exemplo, a construção e a desconstrução da presidência de Fernando Collor.

Com o passar dos anos, e a recusa dos governos petistas em assumir ainda que timidamente uma pauta reguladora das comunicações, o Grupo Globo cresceu de forma expressiva e se descolou das demais empresas brasileiras de comunicação, tornando-se uma força autônoma no cenário político.

O Brasil vive um contexto curioso onde, graças ao processo de convergência, aumenta a presença de grupos de mídia estrangeiros, dos tradicionais (Disney, Warner, Fox, etc) aos entrantes (Google, Netflix, etc). E, ao mesmo tempo, um único grupo nacional se descola dos demais, assumindo um poder sem precedentes em outros países.

Assim, no meio de uma gigantesca crise política, os diversos lados envolvidos (inclusive o governo petista), passam a contar com a atuação da Globo para indicar uma pauta que tanto pode levar ao impeachment quanto à manutenção de um governo impotente.

Este é o preço que pagamos por não conseguir enfrentar o desafio da regulação das comunicações, nem mesmo em padrões capitalistas.

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