Vai pra rua amanhã? Sempre é tempo de virar a esquina…

Por Rodrigo Santaella

O Brasil está puto! Os motivos para ir às ruas são muitos. O ajuste econômico vem para arrochar ainda mais a vida dxs trabalhadorxs do país. O povo paga por uma crise que não é sua. A crise política se agrava, as discussões sobre impeachment ganham as ruas e chegam às manchetes dos principais jornais. A presidente Dilma e o governo tomam iniciativa: assumem, em conjunto com Renan Calheiros, a famigerada “agenda Brasil”, que de progressista não tem nada. Trata-se de um pacto que tem como prioridade manter o bom ambiente para os grandes negócios, acabar com a instabilidade política que está criando problemas para os nossos investidores e empresários. Em outra frente, o governo envia para aprovação a lei antiterrorismo, claro instrumento de criminalização dos movimentos sociais.

Sinais do esgotamento de um projeto que, como de costume no Brasil, aliou pequenos avanços com a manutenção do atraso. Preferiu comprometer-se com uma parte dos “de cima” para pedir deles concessões e manter a estabilidade, ao invés de usar a organização dos “de baixo” e a máquina estatal para efetivar mudanças estruturais. Como nos ensinava Zavaleta Mercado, as crises são oportunidades de autoconhecimento, oferecem retratos pedagógicos: está claro que o atraso estrutural está engolindo os pequenos avanços. Na crise brasileira, o governo que se apresentava ambíguo (mais retórica do que concretamente), torna-se claro: é um governo da ordem, contra o povo. Um governo indefensável.

Mas se há motivos de sobra para ir às ruas, não são eles que movem os organizadores do dia 16. O difuso programa político da manifestação trará de tudo, mas seu núcleo orgânico é de direita, conservador e elitista. Pode-se falar de um eixo liberal, com o “Movimento Vem Pra Rua” e o “Movimento Brasil Livre”, que se afirmam democráticos e usam a crítica à corrupção para defenderem mais liberdade econômica, privatizações, etc.; e um núcleo conservador, no qual estão os defensores da volta da ditadura, os fascistas, os homofóbicos, machistas, etc. É uma boa caricatura de como liberais e conservadores sempre se deram bem no Brasil. Podem até falar mal um do outro, mas terminam o dia dançando juntos coreografias bizarras ou cantando o hino nacional.

O dia 16 encarna o ódio aos barbudos, “vermelhos”, “comunistas”, à esquerda. Ódio e preconceito de classe. Tem uma cara de UDN: tolera o povo quando precisa dele, mas no fundo, prefere caminhar do outro lado da rua. O que o dia 16 não entende é que o erro do PT foi justamente adequar-se, e bem, a muitos dos preceitos defendidos por eles: é dessa adequação que vem a corrupção. Não entendem que boa parte das soluções que pregam já está aí, na “Agenda Brasil” – que tende a acalmar as coisas.

Muita gente vai às ruas no dia 16 e nem todos são fascistas, conservadores, elitistas. No domingo, então, olhe a sua volta. Perceba-se caminhando ombro a ombro com Jair Bolsonaro. Perceba-se ao lado de quem tem nojo do povo desse país. Perceba-se ao lado dos moradores dos melhores bairros borrifando sua insatisfação pela vida difícil que levam e todo seu ódio contra os pobres e trabalhadores.

“Conhece-te a ti mesmo”, diria Sócrates. Se o cenário é complexo e você sabe que está tudo errado, quer fazer algo e não sabe bem quando ou com quem, lembre-se de um dos mais antigos ditos populares: “diga-me com quem andas, e te direi quem és”. Sempre é tempo dar-se conta e virar a esquina. Sempre é tempo de canalizar sua inquietação para os motivos certos. Por reformas populares, taxação de lucros dos bancos e das grandes fortunas, auditoria da dívida, reforma tributária, reforma agrária, reforma urbana… Não faltam motivos para estar na rua, mobilizar-se e organizar-se para virar o país de ponta-cabeça. Mas nenhum justifica estar lado a lado com fascistas, reacionários e elitistas. Os motivos deles são outros. E você, espero… não é um deles.bolsonaro manifestação

Anúncios

4 comentários sobre “Vai pra rua amanhã? Sempre é tempo de virar a esquina…

  1. João Nogueira de Sousa 15/08/2015 / 18:21

    Por quais razões o PSOL pretende impor seletividade diante de um movimento que nasceu espontaneamente das redes sociais? Quer precocemente ser pai de uma ideia que não é sua? Amanhã, estarei nas ruas mas na vou me preocupar com quem está do meu lado. Afinal, o propósito é outro totalmente diferente. Quem muito seleciona, acaba por ficar a margem do caminho.

    Curtir

  2. Caroline 16/08/2015 / 23:45

    Esse discurso que envolve a palabra “elite” ou “elitista” é algo que o PT inseriu com o passar do tempo na sociedade. Serve apenas para as pessoas brigarem entre si e escreverem textos como o acima colocado. Mas afinal, QUEM É A ELITE? Exatamente… ela não tem cara… para morador de rua, qualquer pessoa é da elite, para o pobrezinho o pobre já pode ser considerado da elite, para o pobre é o da classe média e assim por diante. É um discurso que permite que as pessoas nunca se coloquem na qualificaçao de elite, sintam pena de si mesmas e raiva de pessoas que tem condições financeiras pouco mais altas que as suas…
    Bom… mas vamos fazer como manda o texto e olhar para o lado… se toda aquela mega quantidade de gente for da “elite”, O BRASIL Não PODERÁ SER CONSIDERADO um país em crise! É tanta gente “da elite” que fico até perdida!
    Ok, mas mesmo que existam pessoas ricas no movimento… elas não merecem se manifestar? Os ricos são ruins? Será que não trabalharam bastante para ter o que tem?! Por favor… hipócrita é aquele que não assume que gostaria de ser rico! Eu gostaria… e agora, José? Esse desejo me torna ruim? Se eu conseguir não poderei mais me manifestar? VAMOS ABRIR A MENTE?

    Curtir

  3. Olavo 29/08/2015 / 11:56

    O admirável mundo esquerdopata prega que a insatisfação que gera a movimentação do dia 16/08 é movido pelos motivos de sempre, ódio, intolerância, blá, blá, blá.
    A multidão de insatisfeitos que se aglomera é mais democrática que o famigerado movimento de “defesa da democracia” do dia 20/08, que para ter uma quantidade significativa de pessoas, obria servidores contratados a estarem presentes, cancela aulas em escolas públicas e defende o indefensável. Taxar de elite uma pessoa que em sua livre e expontânea vontade sai de casa em pleno domingo; porque afinal quinta ainda é dia útil, alguns trabalham, é no mínimo a hipocrisia em seu mais puro sentido.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s