O discurso da massa manipulável e as manifestações “Fora PT”

Por Juliana Góes

Nesse exato momento, eu estou ao lado da Avenida Paulista, no subsolo de um prédio. Tenho acompanhado as manifestações “Fora PT” já tem algum tempo. E como notícias muito bizarras chegavam até mim sobre como elas ocorriam em São Paulo, decidi vir aqui e ver, com os meus próprios olhos, o que estava acontecendo. E confesso que fiquei assustada.

Alguns poderiam alegar que é a quantidade de pessoas na rua que me assustou. Mas não é isto. A manifestação dos sem-teto em São Paulo, a Marcha das Margaridas, o ato do Tarifa Zero de Belo Horizonte em conjunto com a Assembleia Popular de BH, com a Rede Resiste Izidora e com o MPL, entre outros atos, mostram que a esquerda ainda tem um grande poder de mobilização. Ressalto, porém, que ela precisa ser bastante aprofundada, mas isto é tema para outro texto. O ponto aqui é que as manifestações “Fora PT” são televisionadas e as demais não, de forma que temos a impressão de que elas são as únicas que existem e gigantérrimas. O que me assusta é como a mistura do discurso racista e meritocrático permite que essas manifestações sejam usadas como trampolins políticos.

Xs manifestantes de hoje  possuem um perfil clássico.  Em geral, são homens e mulheres majoritariamente brancxs, com uma condição material de vida bem equilibrada, com a idade avançada (encontrar alguém com menos de trinta foi muito díficil) e com alta escolaridade (conversei com várias pessoas, todas com graduação ou pós-graduação). Nas conversas que tive com xs manifestantes, várixs se autoafirmavam como a parcela educada, consciente e politicamente informada da população. Elxs tentam salvar o Brasil da manipulação que partidos e grupos como o PT fazem. E quem são as pessoas manipuladas pela esquerda? São xs pobres, xs negrxs, aquelxs que ganham bolsa família, “que vendem o voto por pão e mortadela” (frase que ouvi ser dita no carro de som).

Os manifestantes da Paulista querem salvar o Brasil. E se entendem como os capazes disto. Afinal, não são a massa manipulada pelo PT.

De fato, as pessoas com quem conversei têm o desejo sincero de um Brasil melhor. A ideia do patriotismo vem justamente nessa hora: elas querem defender o país e por isso estão indo às ruas, participando politicamente e cumprindo o dever como cidadãs. O momento atual é entendido como propício para as mudanças: o Brasil tem acordado e ocupado as ruas.  Além disso, elas se aglomeram em torno de pautas comuns: fim da corrupção, saúde, educação, uma economia estável, qualidade de vida, etc. Porém não existe um projeto de sociedade que dê suporte às pautas.

O resultado da ausência de um projeto de sociedade bem construído é que xs manifestantes de hoje movem o barco, mas não possuem capacidade de definir qual o objetivo final dele. Com isso, vários grupos políticos os usam como trampolins para suas próprias pautas. Entre xs manifestantes, vi muitos decepcionados com o Aécio, com o Cunha, com o STF, com a política geral. Mas na hora de fazer falas no Congresso, a direita se coloca como representante “deste povo que está nas ruas”.

Então, surge a ironia. Lembra que falei que quem estava na rua se dizia como população consciente politicamente? Que iria salvar o Brasil da manipulação que o PT fazia com as massas? Pois é, de fato grupos políticos reacionários estão usando das “massas manipuláveis” na disputa política. Só que a “massa da classe média alta”. E, ao invés de se atentarem para isto, percebi nas falas uma preocupação muito maior em se diferenciar da população “manipulada pelo Bolsa Família”, burra, e que precisa ser salva.

Isso mostra, a meu ver, dois pontos. O primeiro é que ainda é possível tentar dialogar com a população que dá volume a estes atos. Como não há um projeto de sociedade definido, pode-se disputar a indignação que há na rua e tentar canalizá-la para uma curva à esquerda. Porém, e aqui entro no segundo ponto, isso implica combater fortemente o racismo e a meritocracia. O desafio agora é: como desconstruir isto em um cenário político onde ele se fortalece? As táticas atuais têm se mostrado ineficientes. Bom, essa pergunta é o que impulsionará o próximo texto.

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2 comentários sobre “O discurso da massa manipulável e as manifestações “Fora PT”

  1. Lídia 04/02/2016 / 19:44

    Boa análise e boa pergunta para se pensar a resposta.

    Curtir

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