Mais Marx, menos Mises: a previsibilidade por trás da queda imprevisível dos mercados

Por Edemilson Paraná

Poucas coisas misturam de modo mais intrigante caos e determinação como os mercados financeiros. Se é quase impossível prever quando vem o próximo tsunami, é praticamente um consenso (não importa a matriz de pensamento) que ele inescapavelmente virá de tempos em tempos. O jogo dá-se, portanto, entre aqueles que acertam e erram em suas apostas a respeito. O que alguns chamam de “comportamento dos atores” outros definem como “lógica intrínseca ao sistema”. É o que parece estar acontecendo hoje em mais uma dentre as várias “black mondays” que vimos ao longo da história (lembremos que os mercados dormem em pânico desde a última sexta-feira): uma previsível queda imprevisível.

A despeito de suas consequências afetarem o destino de bilhões de pessoas, sabemos que esse jogo é realmente jogado por um grupo pequeno de atores – o que não quer dizer que o clubinho esteja completamente imune às agruras desse caos de determinações. Em resumo, o jogo não é “neutro” e “impessoal” em suas regras e lógicas de funcionamento: uns mandam (e ganham) muito mais do que outros. Mas ainda é um jogo.

Onde quero chegar? Ao espetáculo previsível do imprevisível no capitalismo financeirizado de nosso tempo. Em abstrato, quase sempre há crises após períodos de forte crescimento nas economias. Mas o que caracteriza o pânico de agora? Os comentaristas falarão da desaceleração da China, das políticas de expansão monetária, do excesso de liquidez nos mercados, do endividamento dos Estados e da irresponsabilidade fiscal, enfim… O fato é que há algo de profundo (e bem mais simples) nessa história toda – e que pouca gente gosta de lembrar, por óbvio: desde o cataclismo de 2008, pouco ou quase nada mudou realmente. As coisas seguem sendo feitas exatamente como antes. As regras (ou a falta delas), os consensos teóricos, as dinâmicas de funcionamento, o papel dos Estados na jogada…

É verdade que o salvamento e a pseudo-nacionalização de bancos e grandes empresas à época, as políticas de injeção de bilhões na economia e tudo isso não são, de fato, políticas neoliberais stricto sensu. Assim como a tragédia da queda dos salários diretos e indiretos e do poder de compra dos trabalhadores bem como os demais aspectos do pacote de maldades que avança já há um bom tempo não são políticas propriamente “keynesianas” ou “heterodoxas”. Em um cenário a combinar o pior dos dois mundos, essa querela faz pouco ou nenhum sentido: pragmático que é, o capitalismo serve-se do que há de “melhor” na praça. Apego a pacotes “bem acabados” de conceitos é coisa de intelectuais – e a vários deles se paga muito bem para mudar de ideia de tempos em tempos.

Resumindo. Os “to big to fail” foram salvos, outros, nem tão amigos do rei, afundaram; injetou-se bilhões na economia mundial e a farra estaria mantida às custas do acelerado e celebrado crescimento Chinês combinado à pilhagem aos Estados ora “salvadores”. Enquanto isso, lá e cá, porrada e carestia aos devedores, trabalhadores, consumidores, pagadores de impostos. Apesar de “imprevisível”, parece um tanto óbvio onde isso nos levaria, não? Teria enfim estourado a afamada bolha chinesa?

Eis do que são feitas as sístoles e diástoles que bombeiam de vida o capitalismo mundial: crescimento do lucro (e investimento) de um lado, necessidade de consumo crescente do outro. A conta parece não fechar, mas, à fórceps, numa verdadeira contabilidade criativa de barbáries, acaba fechando: destruição do meio ambiente, crescimento das desigualdades, aumento da exploração, conflitos bélicos. “There’s no free lunch”. A bem da verdade, a terra já tremia e alguns dos sinais apareciam no horizonte: queda do preço do petróleo e de outras commodities, desaceleração dos emergentes (e da própria China), os atoleiros europeu e japonês, a alta no preço das ações em desacordo com os fundamentos das empresas e economias nacionais, e assim por diante.

Parece que este será um intrigante momento para a China mostrar a que veio de fato. Até onde irá o movimento de “voltar-se para dentro”? O tombo parece considerável. Para se ter uma ideia, o país consome 11% de todo o petróleo mundial, 57% do cobre e importou dois terços de todo o minério de ferro produzido no planeta em 2013. As opções políticas não são poucas, e subestimá-la, portanto, faz pouco sentido agora. A ver.

Tudo somado, de tempos em tempos, algo ou alguém precisa salvar o capitalismo dos capitalistas. A nova estrutura de funcionamento da economia global, no entanto, fez eliminar, como antígenos perigosos vários dos elementos que, na verdade, eram vacinas. Onde isso vai parar? Até que ponto é reversível? Difícil saber. Mas não nos enganemos, é da mistura de previsibilidade com imprevisibilidade que o jogo segue, para a sorte de uns e desgraça de outros.

Pánico

Anúncios

Um comentário sobre “Mais Marx, menos Mises: a previsibilidade por trás da queda imprevisível dos mercados

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s