As veias abertas da ditadura militar

Por Sammer Siman

Definitivamente, o golpe civil-militar deixou marcas profundas na sociedade brasileira que ainda seguem expostas. Uma das expressões disso é vermos uma ampla base social, incluindo movimentos sociais que outrora enfrentaram o avanço neoliberal da década de 90, defenderem a democracia como um “ente abstrato” e, a pretexto de um suposto golpe, blindarem o governo Dilma enquanto ela e seu partido seguem entregando o país por meio de iniciativas como a (Contra) Agenda Brasil.

O que procuro nesse texto é, em 5 minutos, a partir de 5 argumentos, defender a ideia de que é chantagem barata retroalimentar o “fantasma” de 64 enquanto está em curso o aprofundamento de um modelo econômico genocida e promotor de violência.

1) Votar de dois em dois anos não tem sido suficiente para termos uma sociedade mais justa e menos desigual. Certo é que se a democracia é algo limitado do ponto de vista da participação popular mesmo em países centrais, no Brasil ela parece mais uma peça de ficção. A despeito da recuperação das liberdades constitucionais nosso regime político segue massacrando nossa gente, em especial o povo pobre, preto e de periferia. Para ficar num dado apenas, todo ano são mortos por homicídio no Brasil o equivalente ao número de mortos em um ano na guerra do Vietnã, um dado que varia pouco a despeito do PIB crescer 1 ou 3% ao ano.

2) Mais do que sequestrar liberdades formais, a ditadura civil-militar reforçou a supremacia das multinacionais. E, a despeito da retomada de liberdades formais, são os gringos que continuam dando as cartas. Da água que bebemos passando pelas sementes, pelos automóveis, pela indústria cultural… até chegar aos satélites, o “império” da gringolândia só se expande no Brasil.

3) O Brasil não é o Paraguai. Neste último país a condição de dependência é extrema; para ficar em dois exemplos: metade (!) da renda nacional do Paraguai vem da usina de Itaipu, e pelo menos 38% de suas terras agricultáveis de hoje são de propriedade chinesa. Portanto, se no Paraguai um golpe se deu com pouca reação da “comunidade internacional”, no Brasil o “buraco é mais em baixo”, pois o tecido social e econômico é mais complexo e segmentos diversos da sociedade política se mobilizariam prontamente contra iniciativas golpistas reais, afinal, a memória coletiva que se opõe a golpes e ditaduras tem sido positivamente mobilizada nos últimos anos.

4) Em 1964 a hegemonia norte-americana estava em seu auge. Naquele país havia coesão interna que permitiu sua escalada militar mundo afora e o apoio de golpes em países da América Latina. Hoje sua hegemonia está, se não em declínio, abalada. O avanço de experiências como a venezuelana e boliviana se deu em oposição aos interesses dos EUA, portanto, o momento segue favorável para uma ofensiva de um projeto popular no Brasil.

5) Se Lula representa num imaginário popular o que há de mais avançado, cabe a nós romper com isso e produzir um novo campo social e político, o que significa produzir novas lideranças. Para ficar num exemplo, a mesma mão que acenou para a Marcha das Margaridas em Brasília foi ao senado costurar a (Contra) Agenda Brasil, tudo num mesmo dia. Afinal, Lula não foi construído “por si”, se não ao custo de muito suor e sangue.

Nos falta uma movimentação decidida em torno da construção de um campo social e político que se organize a partir da divisão da riqueza agrária, urbana, tributária, dentre outras. Do contrário, é continuar servindo ao mesmo campo político de “camaradas” como Roberto Setúbal, presidente do Itaú e mais novo defensor declarado do governo petista.

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2 comentários sobre “As veias abertas da ditadura militar

  1. Eder Jurandir Carneiro 27/08/2015 / 14:47

    Muito bom, camarada Sammer. Comparar o contexto pré-golpe de 1964 com o atual, como têm feito intelectuais governistas (inclusive, dentro das universidades) é muita ignorância, muita má fé ou uma mistura das duas coisas!

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  2. Sírlei 19/11/2015 / 10:55

    Só não concordo com a suposta falta de hegemonia americana, tendo em vista que os EUA está costurando um acordo internacional que irá acabar com qualquer pseudo-democracia existente. No mais estamos anestesiados mesmo com a situação que está posta. Att.

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