Tópicos sobre a crise

Por Helder Gomes

1 – A semana tem sido marcada por mais um vendaval na economia mundial. Com ele veio uma chuva de falsas explicações e de recomendações dos especialistas de plantão, com suas receitas de manual. É incrível como essa gente consegue dizer tanta bobagem, tornando cada vez mais incoerente seus argumentos.

2 – Os consumidores são sempre atraídos para a ideia de que têm alguma influência no livre jogo das forças de mercado. Não é o que mostram os cortes na produção, a rigidez à queda dos preços dos meios de consumo amontoados nos estoques, a inflação, o desemprego etc.

3 – Existem pelo menos dois dos problemas para entender a crise econômica atual: acreditar que se trata de uma crise do momento; e misturar as formas funcionais do capital.

4 – Não se trata de uma crise financeira conjuntural (provocada pelo exagero de um ou outro agente) que gera repercussões sobre a esfera real da economia. Trata-se de uma crise estrutural, inaugurada no final dos anos 1960, resultante da superprodução do capital (nada a ver com subconsumo) que seguiu à reconstrução do Pós-Guerra. Para simplificar, o capital excedente não encontra oportunidades de investimento (produtivo) com as mesmas taxas de rentabilidade do período anterior.

5 – A dificuldade de destruir (com uma nova guerra) o capital excedente, motivou sua reciclagem via as oportunidades de especulação abertas com a quebra do padrão monetário internacional, entre 1971-72. Dali em diante, criou-se uma rede mundial de produção de riqueza fictícia, com a securitização de dívidas e a partir de apostas sobre a flutuação das taxas futuras de juros e de câmbio. A lógica da acumulação especulativa passou a dominar todas as outras formas de capital (bancária, produtiva, comercial etc.).

6 – A oligarquia parasitária (cortadora de cupom) do tempo de Lênin jamais sonharia que seus seguidores conseguiriam a façanha de produzir uma riqueza fictícia tão avolumada em títulos (centenas de trilhões de dólares, apenas em derivativos), que nada mais são do que um direito reconhecido socialmente aos seus portadores sobre uma riqueza que quase todo mundo acredita que pode existir no futuro.

7 – Daí a importância de entender a diferença entre ganhos advindos de empréstimos bancários (juros), daqueles oriundos da especulação com compra e venda de ações das empresas e daqueles vinculados a apostas sobre cotações futuras de taxas de juros e de câmbio.

8 – Foi possível perceber esta semana como uma decisão pode promover movimentos bruscos nos mercados especulativos em nível mundial. Não porque, no caso, os produtos chineses poderiam alcançar algum nível de competitividade diferenciada, mas, muito mais, porque alguns especuladores, posicionados com grandes volumes de títulos na perspectiva de estabilidade da moeda chinesa, se veem agora obrigados a procurar imediatamente formas de compensação pelas perdas daquele momento inicial.

9 – Esses ventos são apenas alguns poucos sintomas de uma doença muito mais grave.

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