O Brasil é racista… e você também.

Por Rodrigo Santaella

Somos um país racista. É totalmente inconcebível que ainda haja quem defenda que 1) não existe racismo no Brasil, 2) se existe, é uma coisa muito minoritária ou 3) existe, mas não é tão grave assim, é um problema secundário. Chega! Não é preciso ser nenhum estudioso do tema ou um grande conhecedor para perceber e admitir que não só existe racismo no Brasil como ele é estruturante da sociedade. Grande parte de nossos costumes, das nossas piadas, da nossa cultura, das opções do nosso Estado e das nossas decisões cotidianas são permeadas pelo racismo. Somos forjados na mácula da escravidão, que nos impõe padrões diversos até hoje.

O caso, muito discutido nos últimos dias, do professor norte-americano Carl Hart que ia dar uma palestra em um hotel em São Paulo e foi barrado é só uma pequena ilustração disso. Muito mais emblemático é o número de negros assassinados cotidianamente pela polícia brasileira, seja agindo em nome da lei e justificando-se nos chamados autos de resistência, alegando sempre que foram atacados primeiro, seja agindo deliberadamente fora da lei, como na chacina ocorrida recentemente em Osasco e Barueri, na região da grande São Paulo. Muito mais emblemáticas são as condições de vida da maioria dos negros e das negras do país, difíceis material e simbolicamente. Não à toa, Amarildo era negro. Não à toa, Adílio dos Santos, atropelado por um trem no mês passado no Rio de Janeiro, era negro. Não é à toa que muitos dos leitores desse texto – a maioria de classe média, e provavelmente branca, como eu – já atravessou a rua, fechou um vidro, ou pelo menos sentiu algum receio – mesmo que o tenha mantido sob controle, sem gerar nenhuma atitude concreta – ao passar perto de alguém negro na rua de uma grande cidade.

Pois bem, somos racistas. A esquerda, a direita, as classes populares e a classe trabalhadora. Para os que buscamos transformar a realidade, é preciso admitir isso todos os dias. É preciso entender que a única forma de ajudar a combater o racismo, no caso de nós, brancos, é aprender com a luta das negras e dos negros, compreendendo que somos sim racistas e buscar, a partir dessa compreensão, uma reconstrução cotidiana de nossa subjetividade. Não basta ser contra o racismo no programa: mesmo quando total e sinceramente convencidos de que o racismo é ruim e que devemos combatê-lo, é preciso perceber-se como parte do problema. Para a parte branca da esquerda que busca acabar com toda e qualquer forma de opressão, a missão é aprender a ouvir e aprender a aprender. Para além disso, construir alternativas concretas e materiais a todas as formas de exploração e opressão, tendo o papel estruturante do racismo em nossa sociedade sempre em mente.

Para combater algo que nos constitui culturalmente e que molda nossa subjetividade, o primeiro passo é admitir que somos parte disso. Para livrar-se dos condicionantes de uma formação social racista, como indivíduos brancos, precisamos estar abertos às coletividades negras. São elas, com todxs aquelxs que sofrem racismo organizadxs, que podem falar e compreender a questão com mais propriedade. É daí que devemos aprender, sob pena de reproduzirmos em nossas práticas o racismo com a mesma naturalidade que o combatemos em nosso discurso.

Atualização em 30/08/2015, 11:52:

O neurocientista Carl Hart esclareceu um pouco melhor o que aconteceu no Hotel. Seguem parte das palavras dele: “O que aconteceu foi que, assim que cheguei ao hotel, na quinta-feira, fui direto ao toalete. Quando saí, os organizadores do seminário vieram até mim para se desculpar por algo que teria acontecido assim que entrei no hotel. Segundo eles, um segurança iria me abordar porque eu não parecia pertencer ao lugar. Mas eu não presenciei nada disso, foi uma pessoa que me falou”. 

Isso não muda em nada o conteúdo do texto (até porque um segurança o iria abordar porque ele “não parecia pertencer ao lugar”), mas é importante esse esclarecimento sobre o caso específico. 

Carl Hart, professor norte-americano, especialista em política de drogas, que foi barrado no Hotel em que daria uma conferência em São Paulo.

Anúncios

Um comentário sobre “O Brasil é racista… e você também.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s