Alguns desafios na construção de uma Nova Maioria política no Brasil

Por Vitor Hugo Tonin*

Apesar de vários esforços em contrário, as manifestações de 16 e 20 de agosto foram novamente apropriadas e divulgadas como uma polarização contra e pró governo. Um dos desafios da política é conseguir transformar uma proposta ou um programa em algo simples, direto e sedutor. Cá entre nós, a direita está muito à frente neste momento.

Os labirintos da democracia.

Diminuir a ambiguidade não é sinal de purismo, mas sim de clareza. E para começar a resolver essa treta a esquerda precisa entender o que é a democracia burguesa e restringida brasileira, que um sociólogo-militante já chamava de autocracia burguesa. E que por isso mesmo arrematava: neste caso a melhor defesa, é o ataque! Mais importante ainda é entender que  esta “democracia” não está ameaçada. Ou melhor, não mais do que 2, 10 ou 20 anos atrás.

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Florestan Fernandes

As elites latino-americanas já entenderam que no subdesenvolvimento qualquer reforma pode dar início a um processo revolucionário. Por isso que estão sempre monitorando, sempre apostos para desfechar o golpe quando necessário. Assim, ao se limitar a sacudir a estrutura da sociedade sem atrever-se a destruí-la, o reformismo acaba se constituindo na ante-sala do golpe.

Mas é justamente por isso que não há necessidade de defender a atual “democracia”! Não há um governo ou um movimento de massas reformista que ameace o bloco atualmente no poder. A elite vai resolver seus problemas de acumulação por cima, com crises e acordões palacianos, e deixar o povão se foder ainda mais aqui embaixo, como sempre.

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Rui Mauro Marini

Por que se escondem os governistas?

Quem discorda dessa análise tem todo direito e dever de anunciá-lo. Aqueles que creem na defesa do governo Dilma devem dizer isso claramente ao povo e não se esconder por trás de fraseologias que disseminam a confusão, como a “defesa da democracia”. No fundo, essa manobra demonstra que sabem a profunda rejeição que teriam em sua própria base e, principalmente, da inviabilização de uma série de alianças para os atos, se demonstrassem seus reais interesses. Desta forma, o chamado que partiu do MTST de construção de um ato unitário em defesa da democracia, contra o Cunha e contra o ajuste do governo Dilma, rapidamente transmutou-se em defesa do governo Dilma, por algumas forças governistas. Isso chegou a dividir as manifestações em algumas cidades e afastar muita gente delas.

O apoio ou não ao governo, a tática em que cada organização ou movimento adota na tênue conjuntura atual será julgada pela história. Mas a covardia em defender claramente suas posições perante o povo, o oportunismo e a falta de firmeza no cumprimento de acordos políticos são posturas que devem ser condenadas no presente. Ao sequestrar a pauta do dia 20, numa aliança espúria com os grandes meios de comunicação, estas forças deram um péssimo exemplo, não apenas de erros políticos, mas de degeneração moral.

O Brasil e o povo brasileiro precisam e exigem uma nova aposta política que só se realizará em uma frente de forças sociais e políticas que entendam claramente o atual momento e seus anseios. Esta aposta deve ser anunciada com o mínimo de ambiguidades ou confusões, sem abstrações, no concreto, nos problemas do povo, apontando alternativas concretas às maiorias. Enquanto dormimos no ponto ou transamos com a ambiguidade, a direita avança…. junto com a presidenta Dilma e Lula!

*Doutorando em Desenvolvimento Econômico na Unicamp.

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