Humilhado pelo sistema.

Ou “Pernilongo invade DP e foi morto na hora que ia picar um menor”

Por Rodrigo Santaella

Há alguns dias, passou a circular pela internet­ – em especial grupos de whatsapp – um vídeo no qual um garoto negro, sem camisa, sentado diante de uma mesa e algemado nos pés, é agredido pelas costas (provavelmente por um policial) com um tapa na orelha. A legenda que acompanha o vídeo, em tom jocoso, diz: “pernilongo invade DP e foi morto na hora que ia picar um menor”. Em um momento no qual se discute tanto a violência, suas consequências e as possíveis soluções, por um lado, e no qual se fala tanto de ética, por outro, conversar sobre esse vídeo pode explicitar algumas características de nossa sociedade.

Há pelo menos três tipos de reação ao vídeo: alguns se chocaram ou se incomodaram imediatamente com a situação; outros ficaram indiferentes; e outros riram, acharam engraçado e compartilharam o vídeo, seja como piada ou “exemplo de como tratar os bandidos”. Quero apontar algumas conclusões para dialogar justamente com os dois últimos grupos.

A primeira conclusão, quase óbvia (mas por aqui é sempre necessário dizer o óbvio), é de que há uma carga enorme de racismo e ódio de classe implícita no vídeo e em quem o compartilha. Trata-se de mais um negro, algemado, tomando um safanão de um braço branco e pelas costas. Mais um negro sendo humilhado pelo sistema e causando o estranhamento de poucas pessoas. As pessoas que compartilharam o vídeo encarando-o como piada ou como exemplo têm como único dado objetivo sobre o garoto o fato de ele ser negro, provavelmente pobre, e estar aparentemente em uma delegacia: ora, negro, sem camisa e em uma delegacia, só pode realmente merecer a porrada, não? Racismo puro e elementar. A juventude negra e pobre desse país é humilhada cotidianamente pelo Estado, em especial seu braço policial. Um tapa na cabeça e pelas costas é a ponta de um enorme iceberg de espancamentos, assassinatos, de humilhação cotidiana que não aparece nos vídeos, mas distorcida e diluída em estatísticas cotidianas sobre a violência no país.

Outra conclusão importante e derivada da anterior: não tem nenhum sentido dizer que não existe punição para os adolescentes em conflito com a lei no Brasil. Na medida em que o ECA nunca foi efetivado como deveria, as unidades socioeducativas são como pequenas cadeias, e funcionam sob a mesma lógica de humilhação e violência. A redução da maioridade penal está em vigor no Brasil, na prática, desde sempre. Não precisa ser nenhum expert para perceber que esse tipo de tratamento não aporta em absolutamente nada para a resolução de nenhum de nossos problemas: oferecer mais safanões, encarceramento, humilhação e morte só aumenta a angústia, a raiva e a situação estrutural de falta de perspectivas para uma juventude que nunca teve a vida como oferta.

Por fim, falo diretamente com aqueles que compartilharam o vídeo. Em geral, o perfil é o mesmo dos que clamam por mais ética na política e que há alguns anos passaram a reclamar o tempo todo da corrupção. Ética tem a ver com princípios. Se a humilhação barata, o racismo e a criminalização da pobreza estão entre os princípios que compõem a sua ética, você não deveria abrir a sua boca ou mover os seus dedinhos no celular para questionar a ética de ninguém. E digo mais, muito provavelmente, o governo que você tanto critica tem como principal defeito ter cedido, em quase tudo, a uma ética da ordem, que serve mais aos interesses daqueles que dão os tapas pelas costas do que daqueles que os recebem, todos os dias.

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