Como a luta de classe desacompanhada do combate ao racismo é fraca

Por Juliana Góes

No texto anterior, apontei para o fato das manifestações “Fora PT” serem fortemente meritocráticas e que essa ideia tem sido um dos pilares do avanço da direita no Brasil. Neste texto, vou destacar como, no fundo, este é um problema de desigualdade racial.

Os conservadores já compraram o discurso de igualdade social. A direita não questiona que é preciso dar dignidade à classe trabalhadora ou que é preciso combater a pobreza. Isso é, inclusive, um dos motivos para que sejam defendidas políticas econômicas liberais. Para a direita, elas seriam as únicas eficientes para resolver a crise. E como esta afeta principalmente o/a trabalhador/a, defender políticas econômicas liberais seria defender a classe trabalhadora. Se essas políticas afetam os pobres ou os ricos, é tema para outro texto. O ponto aqui é que tanto se aceita a igualdade social que se usa dela para justificar ações a direita.

Já as políticas para promoção da igualdade racial, como as cotas, são rechaçadas. Isso porque existe solidariedade seletiva. Pessoas brancas conseguem ser solidárias com as demais brancas que compõem a classe trabalhadora. Contudo, pessoas negras não são vistas como trabalhadores. Se pretos e pretas são pobres, é porquê são vagabundos/as, preguiçosos/as, crackeiros/as, criminosos/as e por aí vai.  E isso é herança do racismo científico. O discurso de antigamente era de que negros e negras eram seres humanos inferiores. Eram menos ativos, relaxados, preguiçosos, ao contrário do branco. Por isso, era preciso educar a negritude para ela se tornar mais “como os brancos”. Esse discurso se repete hoje quando se fala em educar a “população pobre, burra e que vota na Dilma”, ou quando se defende que quem recebe bolsa família não trabalha. Se nega a realidade de que foi com base no suor da população negra que o Brasil se ergueu e ainda se ergue.

Assim, é o pensamento racista que sustenta a desigualdade social hoje. Vou mais além, a exploração da classe trabalhadora, inclusive, não é o fator chave da sustentação do capitalismo no Brasil. Esta exploração é resultado da crença de que pretos e pretas não merecem serem vistos seres humanos de mesmo nível. Como dito, para os brancos, a classe trabalhadora é branca. E explorar negros e negras não seria explorar os trabalhadores, e sim corrigir preguiçosos/as. Se nega que a base da classe trabalhadora é preta.

Me pergunto onde erramos, enquanto movimentos sociais e organizações políticas, para deixar esse conservadorismo chegar as ruas. E, quando entendi que na verdade deixamos o racismo dar as caras, entendi o erro. A esquerda branca sobrepujou a luta contra o capitalismo à luta contra o racismo. Se achou que era mais importante ler Marx do que Malcom X. É só lembrar que em 1945 o Partido Comunista Brasileiro foi contra pautas do movimento negro por achar que nossas reivindicações dividiam a classe trabalhadora e, por isso, impediam o avanço do socialismo. Se defendeu que o racismo e o patriarcado eram culpa do capitalismo. Porém, é o contrário.

No final do último texto perguntei como deter o avanço do conservadorismo. Acredito que a resposta é combater o problema pela raiz – e isso implica tornar a luta antirracista pauta principal de toda a esquerda. É preciso que negras e negros parem de ser silenciados pela esquerda branca, como foi antes. Enquanto isto não ocorrer, esta estará de mãos atadas. Assim, negras e negros, acredito, nós somos uma das forças centrais para mudar o cenário do país agora.

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