As possíveis sequências da esquerda

Muito tem sido discutido pela esquerda (em termos amplos) sobre o que deve ser feito nessa conjuntura atual. O conservadorismo cresce, as coletividades se desvanecem em nome dos desejos individuais-individualíssimos e a desigualdade social tornou-se regra. As constantes notícias de corrupção tomam o noticiário como se vivêssemos, hoje, nosso momento final de redenção.  É assustadora a incoerência vivida no dia a dia dos discursos conservadores mais crus nesse nosso país dependente, colonizado e ao sul de tudo que “há de bom” para os “cidadãos de bem”.

Mas mais do que enumerar as questões teóricas sobre o porquê desses acontecimentos, parece que cabe à esquerda efetivamente se pensar e refletir. Enquanto age, claro. Porque não dá para ficar parado nesse momento. Tem estatuto da família sendo aprovado, tem corte orçamentário afetando direito do trabalhador, tem código da mineração expelindo nossos minerais para fora sem mais nem menos. E tudo isso em uma só semana. Mas é um fato que precisamos refletir melhor sobre o que queremos, o que vamos fazer e qual é nossa história enquanto pessoas “infelizes com o que há no mundo”, pessoas que “sentem que o sistema é injusto”.

Porque toda essa realidade, além de demonstrar a força da direita (que é grande) demonstra a incapacidade real da esquerda em apresentar alternativas. A incapacidade da esquerda de demonstrar os vínculos que, para nós, são tão óbvios. Como a relação entre o financiamento de campanhas por empresas e a corrupção. E, por fim, demonstra a total incapacidade da esquerda de trilhar um caminho robusto o suficiente para não se apoiar tanto nas redes da grande e concentrada mídia.

Ao fazer as inúmeras análises de conjuntura que a esquerda tem aprendido a fazer, nossas reuniões já viraram mais do mesmo. Todo mundo repete a mesma coisa. A situação está complicada, o congresso é conservador, o levy é o lobo mau, o cunha é nosso maior inimigo. Sim, sabemos. Mas parece faltar uma pitada de verdade-fática nessa linha mais ampla da esquerda que quer se unir contra a onda conservadora. Não precisamos todos ser socialistas, marxistas-leninistas, trotskystas, luxemburguistas, libertárias, liberais, ou quaisquer das inúmeras caixinhas que criamos para explicar esse amontoado de gente que pouco discute e muito cospe regra pra fora. O que precisamos é fazer um balanço sincero e verdadeiro da experiência que foi – e ainda está sendo para alguns – o Partido dos Trabalhadores. Sem recalque, sem medo da memória que nos persegue e sem apego ao instrumento que, outrora, nutriu tantas e tantas expectativas. Não se deve fetichizar o PT e, para isso, precisa-se fazer o “luto” da experiência, ainda que já tenhamos feito, em alguns casos, o “luto” da legenda, – porque, em alguns casos específicos, nem isso foi feito ainda.

O PT foi um partido de lutas diárias que se constituiu na militância e desde sua criação nenhum outro partido de esquerda conseguiu ter a mesma inserção e capacidade de diálogo com a população. Isto é um fato. Mas existem outros fatos nessa história também. Não dá para ser omisso ou ficar calado diante dos casos da Petrobrás ou jogar a culpa, sempre, em inimigos externos. Não é dizer que esses não tem sua dose de culpa, mas é dizer: também a temos. É claro que, como pessoas inseridas em um sistema bastante opressor, temos muita, muita, dificuldade em não repetir e reproduzir as mesmíssimas coisas que criticamos. É complicado, é difícil e ninguém nega isso. Mas não se trata de um debate moral sobre indivíduos mais capazes, mais próximos do núcleo da verdade e outros mais intrinsecamente maus e incapazes de enxergar a luz. Trata-se de lutarmos por mais sociabilidades diferentes, com respaldo na história que vivemos. Com respaldo nos erros que presenciamos. Com respaldo na responsabilidade que temos com o andamento da vida política deste bairro, desta cidade, deste país, deste mundo.

Antes que me acusem, afirmo que não sou a favor do impeachment de Dilma, por exemplo. Ou da demonização geral e conservadora feita a respeito do PT ou do petismo. Trata-se de fazer um balanço real e necessário. Porque só de pensar no sábio tiririca tenho certeza que sua piada (“pior que tá, não fica”) passou despercebida para muitos que julgavam-no um idiota. Profeta que é, ele anunciava ironicamente o que tornava a ser nossa realidade. Se não nos cuidarmos, piora. Sempre é possível piorar.

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