O Câmbio de Quatro

Por Hugo Albuquerque

Com o Dólar rompendo a barreira simbólica dos R$ 4,00, a crise brasileira entra em aceleração, o que exige colocar em questão o dogma do “ajuste”, inicialmente vendido pelas grandes forças da oposição e, por fim, comprado pelo reeleito governo Dilma. O tal “ajuste” se tornou um mantra entre todas as forças políticas, salvo raras exceções. Mas estamos nos questionando pouco sobre tais medidas que, desde que implantadas, só têm piorado tudo.

Ainda que se fale dos erros do primeiro mandato de Dilma, certamente cortar direitos sociais, reduzir as verbas para a educação e esfriar o mercado interno (gerando desemprego e queda nos salários, ao passo que se planeja destruir os direitos trabalhistas) não parece ser a solução para nada que tenha sido feito entre 2011 e 2014.

Contudo, do mesmo modo que um cavalo de troia precisa de uma embalagem sedutora, ele também necessita da ocasião: e, afinal de contas, no meio da crise do país, ele achou sua oportunidade. Contudo, no lugar de soldados gregos, em seu interior uma tropa de tecnocratas neoliberais sedentários.

Agora, qual o problema real do Brasil senão contas públicas que não fecham pela imensa sonegação dos mais ricos (que formalmente já nem pagam o que podiam, mas ainda assim dão seus jeitos) e por custos de programas sociais e serviços públicos que o país necessita e os próprios eleitores, nas urnas e nas ruas, reiteradamente exigem?

Sim, porque para além da fantástica crise internacional, o câmbio flutua na direção de uma desvalorização na medida em que funciona como uma válvula econômica: já que a política fiscal fracassa, por causa de medidas que freiam o consumo e, por conseguinte, a própria arrecadação (voltada para o consumo), o Real perde valor naturalmente, equilibrando a balança corrente.

O país passa a poder exportar mais, e importar menos, fazendo desse superávit o meio para, grosso modo, emitir dinheiro, coisa que não há como fazer com o déficit agudo nas contas públicas. O risco é que a desvolorização cruze o rubicão, disparando a inflação, ao passo que dificulta a compra de insumos e viagens para o exterior.

O Brasil, contudo, tem como reverter realmente o processo de degradação fiscal: por que não cobrar mais tributos (e encarecer tributos) para os bancos e um sistema financeiro com lucros multibilionários? Por que não implementar um tributo sobre grandes fortunas? Por que não criar um sistema sério de combate à sonegação tributária e à evasão de divisas?

Enquanto o mantra for cortar direitos em vez de cobrar dos que mais podem, ficaremos andando em círculos como o cão que persegue a própria cauda: se der errado, vamos girar para sempre, mas se der certo, iremos morder a nós mesmos — se é que já não o fizemos…

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