O amor não tem Estatuto: a família, Deus e os imbecis

Por Rodrigo Santaella

Essa semana, nosso Congresso deu um passo a mais na aprovação do chamado “Estatuto da Família”. Em resumo, a ideia é definir família como a união entre homem e mulher, e assim garantir que todos os mecanismos estatais de proteção à família sejam destinados apenas a esse tipo específico de família heteronormativa. Grande parte – se não a totalidade – dos argumentos utilizados pelos parlamentares e pelos setores da sociedade que defendem o Estatuto da Família são de ordem religiosa. “Homem com homem não gera” e “mulher com mulher não gera” foram frases proferidas durante a sessão, por exemplo, e partes convenientes da Bíblia foram citadas mais de uma vez.

A maneira mais óbvia de questionar esse tipo de iniciativa é lembrar a laicidade do Estado. O Estado é laico, não deve basear suas leis e seu funcionamento em valores religiosos, mas sim em princípios que garantam o bem-estar e a liberdade de toda a população, independente de crença, estilo de vida, ou qualquer outra coisa. Dada a obviedade disso, muitas vezes se argumenta que o Estatuto da Família e outras iniciativas do tipo, como a “cura gay”, não ferem a laicidade do Estado, já que o que buscam é “preservar a moral e os bons costumes, independente de fé ou religião”. E como muitos dos que assim argumentam realmente acreditam nisso, a despeito do cinismo de suas lideranças político-religiosas, me arrisco a entrar nessa seara da discussão, num tom um pouco diferente do convencional.

Apesar de não ter nenhuma religião, grande parte da minha educação formal foi cristã. Na escola, ensinavam valores de igualdade, respeito e aceitação. Aprendi sobre Jesus como um homem que amava seus iguais e seus diferentes, que acolhia, abraçava e abrigava a prostituta e o ladrão rejeitados pela sociedade, criticava veementemente todo tipo de hierarquização. Aprendi sobre um homem que buscava as raízes dos problemas, um Jesus radical, que subvertia a ordem em que vivia porque sabia que ali não havia justiça, que quebrava tudo quando encontrava espaços de comercialização da fé, de manipulação popular. Aprendi que se Deus pode ter seu sentido e significado resumidos em uma palavra, essa palavra é amor. E aprendi que esse Deus do amor, do respeito, do cuidado e do carinho, mandou seu filho para ensinar, com seu exemplo, um pouco dessas coisas.

Aprendi que a família é o primeiro espaço de convívio de todo ser humano. Um espaço de carinho e de cuidado, e em grande medida é uma porta de entrada para ver e viver o mundo. O abrir dessa porta modela a forma como nos relacionamos com o mundo lá fora. O critério para entender o que é uma família deve ser, portanto, sua capacidade de acolher, de amar, de cuidar e de respeitar quem dela faz parte, sua capacidade de abrir as portas do mundo da melhor maneira possível. Assim, o que menos importa é qual o gênero ou a orientação sexual de quem a compõe, mas sim que tipo de seres humanos estão ali, que relação se constrói. E ainda que tentem podá-lo ou classificá-lo, o amor não tem fronteiras nem limites, se manifesta das mais diversas formas, e isso é o que faz de nós, seres humanos, especiais. O amor não é estatutário.

Argumentar com o cristianismo para barrar direitos, estigmatizar e condenar formas de amor é um contrassenso. Mais do que isso, a cada chacota, declaração ou ironia das lideranças políticas das bancadas conservadoras, fica mais clara a ignorância e a arrogância desses imbecis que se propõem representantes de Deus no parlamento. Cheios de verdade e de si, acreditam ou fingem acreditar que sua forma de vida é única, manipulam as pessoas de acordo com seus interesses, sobretudo econômicos. Pela forma como se portam e como argumentam, não tenho dúvidas que se tivessem vivido há pouco mais de 2000 anos em algum lugar do médio oriente, estariam apedrejando, xingando e rindo de um certo rapaz subversivo que foi obrigado, pelo Estado, a carregar sua própria cruz por defender o amor em toda sua plenitude.

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Um comentário sobre “O amor não tem Estatuto: a família, Deus e os imbecis

  1. isaias pereira 27/09/2015 / 14:22

    interessante sua argumentação que demonstra estar forçando a barra com coisas do tipo: O amor máximo, amor em toda a sua plenitude.
    O verdadeiro amor, caminha pela estrada da verdade, da retidão, e de princípios e valores que são imutáveis. O que temos visto hoje em dia é a tentativa de uma minoria, e reafirmo minoria sim, que tem tentado de todas as formas impor o seu jeito de ser, mudar o que é imutável porque foi estabelecido por Deus.
    Quando criticam os que defendem a heteroafetividade, para impor a sua maneira de pensar a homoafetividade, estão quebrando as mesmas regras que acusam os defensores da família de quebrarem. Estão tentando impor algo em que a maioria não aceita. Não importa que argumentos sejam usados para defender a união familiar composta de homem e mulher, porque foi estabelecido assim desde o princípio. Essa é a regra normativa da humanidade e da sociedade, agora vir uma minoria atacar, ameaçar, impor, forçar, para que seja feito segundo a sua satisfação pessoal é inaceitável.
    Toda a Lei, todas as normas que governam a sociedade, até mesmo o próprio comunismo, tem suas bases na fé cristã, nos princípios estabelecidos por Deus para reger a humanidade, querer mudar isso é o mesmo que estabelecer o sol como satélite da lua.

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